International Encyclopaedia
of the Histories of Anthropology

Um culturalista brasileiro em Honduras: a antropologia “deslocada” de Ruy Coelho

Rodrigo Ramassote

USP

2022
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Ramassote, Rodrigo, 2022. “Um culturalista brasileiro em Honduras: a antropologia ‘deslocada’ de Ruy Coelho”, in BEROSE International Encyclopaedia of the Histories of Anthropology, Paris.

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Published as part of the research theme «Histories of Anthropology in Brazil», directed by Stefania Capone (CNRS, CéSor) and Fernanda Arêas Peixoto (Universidade de São Paulo).

Não é tarefa das mais simples situar a posição ocupada por Ruy Coelho (1920-1990) no interior da história da antropologia no Brasil. [1] Ao contrário da consagração e do renome assegurados em Honduras, onde a tradução de sua tese de doutorado sobre os garífunas (etnônimo pelo qual atualmente se designam os caraíbas negros) recebeu uma larga acolhida e se tornou uma referência bibliográfica obrigatória, no Brasil sua obra jamais foi objeto de especial interesse para antropólogos [2]. Além de “The Black Carib of Honduras: a study in acculturation”, monografia com a qual obteve seu PhD na Northwestern University em 1955, Ruy Coelho ainda escreveu quatro artigos que tratam, a partir da perspectiva dos estudos de “aculturação” e de “cultura e personalidade”, de aspectos e dimensões específicos da existência sociocultural garífuna – os padrões de comportamento em velórios, casamentos, revestimentos de casas e a sociabilidade festiva do ciclo do Natal e de alguns festejos católicos; a concepção tripartida de alma e o “culto dos ancestrais”; a conduta ritualizada do pai após o nascimento do filho; os papéis sociais associados ao xamanismo e às práticas e crenças religiosas [3].

Mais conhecido no Brasil pela produção como crítico cultural e pela atuação como docente de sociologia, seus achados etnográficos e reflexões teóricas foram insuficientemente notados no debate antropológico nacional [4]. Não faltam, é verdade, razões para tanto. Em primeiro lugar, sua pesquisa de campo pioneira entre populações afrocaribenhas assentadas em Honduras desbravou, na altura em que foi conduzida, uma região etnográfica inexplorada e de pouco interesse para antropólogos brasileiros. Ademais, seus artigos foram publicados em revistas científicas estrangeiras e nacionais de difícil acesso, assim como a tradução de sua tese ficou confinada, dez anos após a sua defesa, às páginas da Revista do Museu Paulista [5], de circulação igualmente restrita, e só foi publicada comercialmente quase quarenta depois. Por fim, ao retornar ao país de origem, Ruy Coelho não se integrou, como seria mais lógico ou adequado, à cátedra de Antropologia, mas assumiu o posto de professor-assistente da cátedra de Sociologia II da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP).

Em contrapartida, não faltam motivos para conferir ao autor uma posição singular e, até certo ponto, destoante, na tradição intelectual e acadêmica brasileira. Ruy Coelho foi o primeiro antropólogo brasileiro a pesquisar fora das fronteiras do país, na região do Caribe – destino cada vez mais frequentado por estudantes de pós-graduação e pesquisadores desde os anos 2000 [6]. Mais que isso, sua investigação resultou no primeiro estudo acadêmico sobre os garífunas em Honduras. Até então, os caraíbas negros haviam comparecido em relatos e registros de viajantes, missionários e literatos, os quais revelavam, sem dúvida, grande acuidade de observação, mas que, de modo geral, soterravam seus relatos e escritos sob uma densa camada de representações distorcidas e preconceituosas [7]. Ruy Coelho passou onze meses sucessivos em Honduras, algo pouco comum entre os antropólogos brasileiros de seu tempo [8], o que lhe permitiu acumular uma grande quantidade de evidências etnográficas e enquadrá-las em uma moldura analítica e interpretativa mais ampla. Por fim, ainda que Ruy Coelho tenha avançado sua carreira profissional no âmbito da sociologia, ela não deixou de ser exitosa: ele alcançou as mais altas posições dentro da hierarquia acadêmica e da estrutura administrativa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, além de ter amealhado uma unânime reputação quanto à sua enorme erudição e ao seu refinamento intelectual.

Uma trajetória transnacional: da Universidade de São Paulo à Northwestern University

Ruy Galvão de Andrada Coelho nasceu na cidade de São Paulo, em 21 de dezembro de 1920, no interior de uma família paulistana tradicional [9]. Filho do casal Carlos de Andrada Coelho e Adelaide Galvão de Andrada Coelho, iniciou seus estudos no Liceu Rio Branco e os prosseguiu no Colégio Universitário anexo à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP). Em 1938, matriculou-se no curso de Ciências Jurídicas e Sociais da prestigiosa Faculdade de Direito do Largo São Francisco, abandonando-o pouco depois; ao mesmo tempo, ingressou nos cursos de Filosofia (1939-1941) e Ciências Sociais e Políticas (1939-1942) da recém-inaugurada FFCL-USP.

Em 15 de setembro de 1945, Ruy Coelho embarcou para os Estados Unidos, com bolsas de estudo concedidas pelo Institute of International Education e pela Northwestern University, para ingressar como aluno no programa de pós-graduação da Northwestern University (Evanston, Illinois), sob a orientação de Melville J. Herskovits – com a intenção, segundo ele próprio esclareceu, de obter “uma formação profissional séria” e “uma carreira” [10]. A viagem constituiu um ponto de inflexão na trajetória pessoal e intelectual do autor, até então ensaísta, crítico de arte e colaborador de diversos jornais em São Paulo [11]. Seu livro de estreia, Proust, lançado em julho de 1944, reunia dois dos seus mais expressivos e comentados ensaios surgidos na revista Clima – “Marcel Proust e a Nossa Época” e “Introdução ao método crítico” [12]. Beneficiado pela expansão do sistema de ensino e pelo incremento de recursos financeiros na academia norte-americana [13], como também pela clivagem de orientação da política externa estadunidense e pelo crescente interesse científico pela América Latina [14], o deslocamento realizado por Ruy Coelho revela ainda a adoção de uma opção destoante dos seus demais companheiros de geração “uspiana”, cujos principais membros permaneceram no país e deram continuidade à sua formação e carreira em âmbito universitário local [15].

Não se pode saber, com precisão, os motivos e fatores que o levaram a se tornar aluno de doutorado na Northwestern University sob a direção de Herskovits. É possível que seu perfil intelectual cosmopolita [16] responda pela decisão de prosseguir os estudos no exterior, ao qual se somam os seus interesses precoces pelo tema da personalidade humana. Desde muito jovem, estimulado pelos pais, sobretudo pela mãe que se submeteu pioneiramente ao tratamento psicanalítico, Coelho manifestou um interesse intelectual acentuado pelos domínios da psicologia e pelo estudo da formação da personalidade. Ao ingressar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, tal inclinação foi fortalecida e ampliada a partir das aulas oferecidas pelo filósofo francês Jean Maügué em curso sobre “Teoria das emoções” [17], para os alunos da turma de Ciências Sociais de 1939 e, mais ainda, pela influência pessoal e intelectual exercida pelo sociólogo francês Roger Bastide [18].

Em Plataforma da Nova Geração (1945), publicação que recolheu das páginas do jornal O Estado de S. Paulo depoimentos de representantes da nova geração de intelectuais que despontava no cenário intelectual de São Paulo, informava-se que Ruy Coelho, àquela altura, preparava “uma tese para o Departamento de Filosofia” dedicada ao estudo de “O instinto na teoria de Freud” [19]. E no conteúdo da entrevista, o jovem estudante asseverava: “O problema que tem sido o objeto principal de minhas preocupações, quer no campo da investigação científica, que no de uma filosofia dos valores, é o da personalidade humana” [20].

O ensaio “Proust e Nossa Época”, acima citado, é revelador desse interesse mais amplo, ao recuperar, em sua primeira parte, alguns incidentes biográficos e instâncias básicas do processo de socialização atuantes na formação da personalidade do escritor francês. Longe, portanto, de ser uma empreitada episódica ou marginal, a leitura da obra de Proust se integrava a um conjunto de preocupações de fundo sobre os fundamentos socioculturais da personalidade e a transposição de tais dimensões para o interior da composição artística.

Com efeito, no formulário de inscrição do Institute of International Education, Coelho declarava: “Pretendo estudar Antropologia Social e os problemas que nessa ciência dizem respeito à personalidade humana (por exemplo, como os expostos nas obras de Ralph Linton, Ruth Benedict ou Margaret Mead)” [21].

Mas ainda resta a pergunta: por que Herskovits? Creio que nunca teremos uma resposta definitiva. Desde 1935, quando iniciou contatos epistolares com Arthur Ramos, Herskovits intensificou seu interesse pelas possibilidades que o estudo de populações afro-brasileiras oferecia para a consolidação de seu programa de pesquisa sobre as sobrevivências culturais africanas no continente americano [22]. Em 10 de setembro de 1941, sob os auspícios de uma bolsa de pesquisa concedida pela Fundação Rockefeller, o antropólogo norte-americano, juntamente com sua família, desembarcou no Rio de Janeiro, para permanecer no país até 21 de agosto de 1942. Durante esse período, residiu e pesquisou em Salvador [23], assim como visitou e conduziu investigações de curta duração em diferentes capitais do país. Além disso, proferiu conferências, publicou em diferentes periódicos e estreitou contatos com a intelectualidade local [24]. Em 16 de outubro de 1941, ele palestrou na Escola de Comércio Álvares Penteado, então sede da Escola Livre de Sociologia e Política [25]. Não é possível saber se Ruy Coelho assistiu a tal palestra. Seja como for, a imprensa local noticiava com alguma frequência a presença do renomado antropólogo norte-americano no Brasil [26].

Quando da chegada de Ruy Coelho aos Estados Unidos, o Departamento de Antropologia da Northwestern University, fundado em 1938, contava com apenas quatro professores permanentes em seu quadro docente: Melville J. Herskovits; Francis Hsu, ex-aluno de Bronislaw Malinowski na London School of Economics (LSE); William Bascom e Richard Waterman – ambos orientandos de Herskovits – e A. Irving Hallowell, colaborador por curto período. Durante os anos de 1945/46 e 1948/49, Ruy Coelho frequentou uma grande quantidade de cursos afeitos à amplitude e à diversidade de seus interesses intelectuais, como também participou de vários seminários [27]. Em 1946, ele inscreveu-se no curso intensivo de verão do Rorschach Institute of New York, dirigido pelo psicólogo alemão Bruno Klopfer, onde recebeu treinamento em técnicas psicológicas projetivas. Poucos meses depois, se integrou a uma pesquisa de campo coordenada por Hallowell entre os ojibwa, na região da reserva indígena de Lac Du Flambeau, norte do estado de Wisconsin [28]. O objetivo da investigação era avaliar o impacto que o intenso processo de “aculturação” provocara nas principais instituições socioculturais, assim como na estrutura e dinâmica da personalidade dos membros desse grupo. Para tanto, a equipe se valeu de pesquisa de campo e, sobretudo, da aplicação de técnicas projetivas (testes de Rorschach, Thematic Apperception Tests [TAT]) e desenhos livres para apurar informações sobre a repercussão no plano individual das profundas mudanças pelas quais passavam os ojibwa. Na divisão de tarefas, Ruy Coelho se incumbiu dos desenhos infantis e da observação da conduta dos adolescentes, atividades que redundaram em um curto e melancólico relatório final, no qual o antropólogo brasileiro, em sua primeira experiência de campo, lamentava as dificuldades de adaptação à dinâmica de pesquisa e constatava os padrões de comportamento manifesto pelos jovens vis-à-vis os distintos estágios do processo de reajustamento sociocultural [29].

Foi entre setembro de 1947 e julho de 1948 que Ruy Coelho conduziu sua pesquisa de campo entre os então caraíbas negros localizados em Trujillo, que resultou em sua tese de doutorado, “The Black Carib of Honduras: a study in acculturation” (1955). É bastante provável que a decisão de Coelho de seguir para Honduras tenha sido tomada em conjunto com Herskovits. A partir da segunda metade da década de 1920, o antropólogo norte-americano havia iniciado um programa de estudos sobre os fenômenos aculturativos e sobre a preservação e reinterpretação de instituições e práticas culturais africanas no Novo Mundo [30]. Desde, pelo menos, o início dos anos 1940, Herskovits pretendia deslanchar um estudo aprofundado sobre as populações garífunas [31]. Em 1941, inclusive, tentou enviar um de seus estudantes, o afro-americano Hugh Smythe, a Honduras, mas seus esforços se viram frustrados pelo governo hondurenho, que não autorizou a entrada ao jovem estudante, negando-se a fornecer um visto devido à vigência do Artigo 14 da Ley de Inmigración, de 1934, que proibia o ingresso de negros, chineses, indianos e ciganos [32]. Ao decidir-se pelo estudo dos garífunas, Ruy Coelho se integrava à rede internacional e ao circuito de sociabilidade de pesquisadores que orbitavam em torno de Herskovits e que estavam interessados em lançar luzes sobre as relações históricas e culturais entre África e América – na qual sobressaiam os nomes do brasileiro Arthur Ramos (1903-1949), do cubano Fernando Ortiz (1881-1969) e do haitiano Jean Price-Mars (1876-1969). Por meio de trocas epistolares e despachados de publicações, eventuais contatos pessoais e a mobilização de recursos e esforços institucionais, Herskovits promoveu a montagem ao seu redor de uma rede transnacional de pesquisadores que compartilhavam conhecimentos especializados, repertórios de leituras privilegiadas e preocupações específicas de investigação. Além disso, a formação e o treinamento de alunos e orientandos garantiam a acumulação de evidências empíricas e informações históricas que lhe permitiam avançar proposições teóricas e a forjar ou burilar seu arsenal conceitual – “foco cultural”, “tenacidade cultural”, “reinterpretação”, “ambivalência socializada”, entre outros [33].

Dias em Trujillo: a pesquisa de campo entre os garífunas

Após a sua chegada a Trujillo, Ruy Coelho alugou uma residência de propriedade de Thomas L. Glynn, patriarca de uma das mais proeminentes e abastadas família da região. [34] Entre as primeiras providências tomadas para iniciar sua investigação e viabilizar sua entrada em campo, buscou contratar, como era de praxe na época, um auxiliar de pesquisa remunerado. Após uma primeira tentativa frustrada, decidiu, em 22 de outubro de 1947, admitir Sebastían Tifre Lacayo (1920 - *), garífuna nascido em Trujillo que acabara de regressar à cidade natal, após anos vivendo em La Ceiba e Tegucigalpa. Em 30 de outubro, empregou, para realizar as tarefas domésticas e de cozinha, María Silveria Lacayo Sánchez (1924-2014) [35], que trabalhava na casa da família Glynn.

Originários da Ilha de Saint Vincent, uma das pequenas Antilhas, os garífunas chegaram às Islas de la Bahía, situadas na costa norte de Honduras, em abril de 1797, após serem deportados por tropas marítimas inglesas. Definem-se como grupo étnico distinto em função de atributos específicos resultantes do encontro entre negros africanos que escaparam, na primeira metade do século XVII, do naufrágio de navios negreiros nas águas turbulentas da região costeira de Saint Vincent, com negros escravizados que debandaram das plantações de ilhas circunvizinhas e etnias indígenas autóctones que descendiam de grupos indígenas karib-arawak. Em dois séculos de contato, durante os quais resistiram às sucessivas investidas armadas de franceses e ingleses, os garífunas assimilaram práticas e instituições das populações ameríndias, assim como o idioma karib-arawak [36]. Em fins do século XVIII, com a decisão da Coroa Britânica de conquistar a ilha, a maior parte do grupo foi capturada e transportada à força para a Isla de Roatán [37]. Poucos meses depois, por conta própria ou auxiliados por embarcações do governo espanhol [38], foram transladados à Trujillo, desde onde se espraiaram para toda a região costeira de Honduras, Belize, Guatemala e também em comunidades situadas na Nicarágua [39].

Preocupado em discernir os processos dinâmicos de integração da cultura garífuna e seus efeitos no plano do ajustamento individual e da padronização da personalidade, por meio do exame circunstanciado de sua organização socioeconômica e sistema de crenças, Ruy Coelho estabeleceu, durante os primeiros meses, uma rotina de trabalho que envolvia encontros em sua residência com Sebastían pela manhã, para discutir, com especial destaque, aspectos ligados às crenças e práticas religiosas e à composição da estrutura do grupo familiar garífuna; em paralelo, visitava residentes em Cristales e Río Negro, aos quais se ligou mais especialmente, para conversar e esclarecer dúvidas. [40]

Num segundo momento, quando já havia acumulado um conjunto significativo de informações e sua presença em Trujillo causava menos estranhamento [41], Ruy Coelho promove uma inflexão em seu método de trabalho. Além da interação cotidiana e das entrevistas, ele mobilizaria um outro conjunto de procedimentos de investigação: a aplicação de testes Rorschach, o emprego da técnica de “situações hipotéticas” [42] e a análise de desenhos infantis, com o intuito de aprofundar o conhecimento sobre as tendências cognitivas e a personalidade básica ou modal prevalecente entre os garífunas.

É importante lembrar que o uso de testes psicológicos (entre outros, Thematic Apperception Tests [TAT] e Rorschach; desenhos infantis; Porteus maze tests [testes do Labirinto de Porteus]; associações de palavras) consistiam no que havia de mais avançado e promissor na antropologia norte-americana desse período [43]. Embora tenha se empenhado com tenacidade na aplicação de testes projetivos, o conjunto total dos protocolos reunidos por Ruy Coelho em Trujillo nunca foi interpretado. Anos depois de defender seu doutorado, ele publicaria dois artigos baseados no material de campo: “Personalidade e papeis sociais do xamã entre os Caraíbas Negros” (1961), no qual analisa o protocolo [44] de dois buyeis [“curandeiro”, “adivinho”, “xamã”]; e, juntamente com sua esposa, “Características Psicológicas dos Caraíbas Negros à luz da Prova de Rorschach”, no qual examinou em detalhes vinte protocolos de garífunas adultos [45].

A presença de Ruy Coelho em Honduras coincidiu com os últimos anos da longa ditadura do caudilho político e figura proeminente do Partido Nacional, General Tiburcio Carías Andino (1876-1969) [46]. Para sustentar-se no poder e impor a “paz social”, Carías instaurou, durante seus dezesseis anos à testa do Executivo, um regime autoritário marcado pela sistemática repressão e perseguição aos seus opositores, por meio da desarticulação dos movimentos sociais, da censura à grande imprensa, do encarceramento e do exílio dos adversários políticos. Graças a uma intensa centralização de poderes, possibilitada pelo apoio das classes altas de Honduras, colaboração da United Fruit Company e fidelidade de seus comandantes de armas, Carías colocou em prática um progressivo endurecimento de seu governo ditatorial, cujos fundamentos foram plasmados na máxima “encierro, destierro, entierro”. Sob as ordens e a indiscutível autoridade de Carlos Fúnez Sanabria, nomeado, em 22 de fevereiro de 1932 comandante de armas no Distrito de Colón, a população garífuna de Trujillo foi submetida a um férreo controle social e vigilância – com o pagamento de taxas abusivas para a realização de suas cerimônias religiosas, trabalhos forçados e toques de recolher.

Em 1945, diversos fatores atuariam para que Carías anunciasse publicamente sua intenção de entregar o poder ao final do terceiro mandato (o que ocorreria em 1948); são eles: o progressivo esboroamento de sua base de sustentação e de sua legitimidade; o surgimento de novas forças político-sociais; a diminuição do apoio norte-americano; a intensificação de protestos civis (em Tegucigalpa e em San Pedro Sula); [47]as tentativas frustradas de insurreições armadas na região ocidental do país e as pressões pela queda de regimes ditatoriais em países vizinhos da América Central. Diante de sua renúncia, em 27 de janeiro de 1948, o Congresso Nacional convocou eleições para a presidência e deputados, definindo a data do pleito para 10 de outubro de 1948. À medida que a data se aproximava, a espiral de arbitrariedades se intensificava, contradizendo a promessa de uma disputa livre e justa. Nos periódicos da oposição, que com o abrandamento da censura voltaram a circular na costa norte do país, se destacavam denúncias e acusações de intimidações, matanças e toda forma de atropelos ao processo eleitoral, delineando uma atmosfera cada vez mais carregada e intimidante. [48] Em suas anotações de campo, Ruy Coelho fez diversos comentários sobre a situação política que se apoderava de Honduras e observou uma crescente apreensão diante das notícias que passavam a circular por Trujillo, as quais informavam sobre prisões, brutalidades e constrangimentos diversos.

Se, ao que tudo indica, tais adversidades não o impediram de avançar com seu programa de pesquisas, a permanente tensão desse contexto conturbado, exposta em suas anotações de campo, certamente influiu na postura assumida por ele como etnógrafo – em diversas passagens, ele declarou, com alívio, procurar evitar qualquer tipo de situação potencialmente conflitiva, ainda que sob a pena de não ter acesso mais amplo a questões ligadas à vida política local [49].

Em agosto de 1948, finalizada a pesquisa, Ruy Coelho regressou à Northwestern University, na condição de teaching fellow, com o compromisso de redigir e defender a tese no prazo de um ano. No primeiro semestre de 1949, Ruy Coelho publica os primeiros resultados de sua pesquisa, o artigo “The Significance of Couvade among the Black Caribe” (1949), no qual correlaciona as práticas e comportamentos ligados à couvade aos princípios da visão de mundo garífuna, assim como defende sua relevância não apenas para aplacar a agitação emocional diante do nascimento de uma criança, mas sobretudo para a alteração da posição social e status conjugal do homem. Ao contrário do planejado, contudo, a elaboração de sua tese de doutorado, “The Black Caribe of Honduras: a study in acculturation”, se arrastaria por quase seis anos...

“The Black Carib of Honduras: A Study in Acculturation” e a volta ao Brasil

Em 18 de abril de 1949, sua situação profissional começou a mudar, a partir de anúncio feito por John V. Murra a Herskovits sobre a abertura de vagas para professores no Departamento de Estudios Generales da Universidad de Puerto Rico, em Río Piedras. Avisado sobre a proposta de emprego, Ruy Coelho submeteu sua candidatura, sendo aprovado e contratado como catedrático auxiliar do curso básico de Ciências Sociais do departamento mencionado. Onze meses após aportar em Río Piedras, experiência que, até onde se pode saber, foi marcada por dissabores e dificuldades de adaptação, ele seguiu para Paris, após se habilitar e ser selecionado [50] como pesquisador assistente no Setor de Relações Raciais do Departamento de Ciências Sociais da Unesco, cargo assumido por ele em 07 de junho de 1950 [51]. Sob a coordenação-geral de Alfred Metráux (1902-1963), Ruy Coelho se enfronhou em um grande volume de tarefas e incumbências burocráticas – as quais implicavam reuniões periódicas, redação de cartas, minutas, memorandos e respostas a diversas solicitações. De modo mais significativo, ele se envolveu na redação de “Suggestions for research on race relations in Brazil”, documento que balizou a organização do ciclo de pesquisas patrocinadas pela UNESCO sobre relações raciais no Brasil (1951-1952) [52]. Além das atribuições institucionais, Ruy Coelho publicou em francês, no Journal de la Societé des Américanistes, o artigo “Le concept de l’âme chez les Caraïbes Noirs” (1952a), no qual descreve, com profusão de detalhes, o sistema de crenças religiosas garífunas, enfatizando a noção tripartida de alma; a interferência dos ancestrais divinizados (gubida) na rotina de vida de seus parentes vivos, contribuindo para o controle das obrigações familiares e a manutenção do equilíbrio social; a relação entre conflitos sociais e infortúnios, aflições e enfermidades; as atribuições específicas dos buyeis na comunicação com o mundo sobrenatural e na condução das cerimônias e ritos propiciatórios aos espíritos dos antepassados.

Em 9 de agosto de 1952, Ruy Coelho regressou definitivamente ao Brasil, sendo nomeado professor-assistente da cátedra de Sociologia II da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. No exercício de suas atribuições, participou ativamente das atividades do Departamento de Sociologia e Antropologia, ministrando cursos de “Noções de Sociologia”, “Introdução à Sociologia”, “Morfologia Social”, “Personalidade e Cultura”, entre outros. Em sua volta, ele publica “As festas dos Caribes Negros”, no qual descreve e analisa certas formas de sociabilidade festiva e eventos sociais significativos prevalecentes entre os garífunas de Trujillo – velórios, casamentos e mutirões convocados para o revestimento de casas, assim como cerimônias religiosas, representações teatrais amadoras, o ciclo de festejos natalinos e certos festejos católicos. Nas páginas do artigo, a figura do crítico cultural forjado na revista Clima e a do antropólogo treinado na tradição da escola de cultura e personalidade se fundem: ao lado, por exemplo, da emissão de juízos estéticos sobre as qualidades literárias da obra teatral do Padre José Trinidad Reyes e da avaliação dos efeitos cênicos, soluções dramáticas e recursos expressivos utilizados em encenações dramáticas, o antropólogo brasileiro espreita certos padrões de expressão emocional culturalmente estandardizados nos velórios.

É apenas em agosto de 1954, em São Paulo, em meio às atividades do XXXI Congresso Internacional de Americanistas, que Ruy Coelho defenderá sua tese, no saguão do Hotel Esplanada [53], perante banca examinadora presidida por Herskovits e composta pelo antropólogo Charles Wagley (1913-1991), Yale Brozen (1918-1998), professor do Departamento de Economia da Northwestern University, William Fanton (1908-2005), professor da Education University of the State of New York, e pelo sociólogo brasileiro Fernando Azevedo (1894-1974). O conteúdo de “The Black Carib of Honduras: a study in acculturation” evidencia a formação acadêmica e as influências intelectuais recebidas por seu autor. Após delinear no capítulo primeiro o arcabouço teórico geral do estudo, situado em meio à contribuição conceitual e metodológica legada pelos principais estudiosos da “aculturação” (em especial, Melville J. Herskovits, Ralph Linton, Robert Redfield e A. Irving Hallowell), e passar em revista a documentação histórica então disponível sobre os garífunas, os quatro capítulos seguintes descrevem os principais aspectos da organização social (a autoridade política no interior das aldeias; as sucessivas etapas do ciclo de vida e seu sistema de status e papeis correlatos; a importância da senioridade; as modalidades de trabalho cooperativo; os padrões matrimoniais e o estatuto das relações poligâmicas, a estrutura e composição interna do grupo familiar); o papel econômico do grupo familiar (a divisão sexual do trabalho, os padrões de produção e consumo alimentar, as despesas com a alimentação); e o universo cosmológico (o conceito tripartido de alma, os principais ritos, cultos e cerimônias, as atribuições específicas dos buyeis).

Salta aos olhos do leitor a postura resolutamente etnográfica adotada pela tese [54]. Embora seja fora de dúvida que, no conhecimento antropológico, as formulações teóricas se encontrem emaranhadas nas evidências empíricas [55], cumpre reconhecer nas páginas do estudo uma enorme fidelidade à experiência concreta vivenciada pelos sujeitos pesquisados. É possível reconhecer aí um posicionamento a respeito do lugar e do impacto da experiência etnográfica nas construções teóricas que, conquanto não cristalizado em declarações de princípios, pode ser espreitado em observações sobre as imbricações entre a reflexão teórica e o trabalho de campo que se encontram dispersas em suas notas de campo e textos secundários, assim como em comunicações orais testemunhadas por seus alunos [56].

Após regressar ao Brasil e ser nomeado, em 22 de dezembro, professor-assistente da Cátedra de Sociologia II, ele não retomaria o material etnográfico construído em Honduras, com exceção do já indicado “As festas dos Caribes Negros” (1952), de “Personalidade e papeis sociais do xamã entre os Caraíbas Negros” (1961) e da tradução da tese “Os Karaíb Negros de Honduras” (1964), acolhida nas páginas da Revista do Museu Paulista, como dito antes. Não se pense, porém, que ele se manteve alheio ao desenrolar dos estudos sobre os garífunas [57]; tampouco permaneceu desatualizado em relação aos avanços da reflexão antropológica. Muito pelo contrário: seus estudos e publicações posteriores evidenciam uma incessante meditação sobre os impasses e limitações dos estudos de “cultura e personalidade”, assim como um interesse cada vez mais acentuado em direção a áreas de ponta nas ciências humanas – por exemplo a epistemologia, a linguística e a filosofia da linguagem [58] –, em um movimento espiralado que irá desembocar, em seus últimos escritos, no interesse por processos cognitivos e os dinamismos culturais que lhes são subjacentes. [59]

Los negros caribes de Honduras: a tradução da tese e o contexto político de Honduras da década de 1970

É, no mínimo, desconcertante que Ruy Coelho não tenha revisitado seu material etnográfico à luz da ampliação e aprofundamento de seus conhecimentos em áreas afins. Se até hoje os garífunas permanecem uma população de pouca repercussão entre pesquisadores brasileiros – o que pode, em parte, explicar a ausência de um interesse mais acentuado pela obra de Ruy Coelho – sua tese, em compensação, encontrou em Honduras leitores entusiastas, desde sua tradução, realizada no começo dos anos 1980, pela recém-criada Editorial Guaymuras, com o título de Los negros caribes de Honduras [60]. Como entender tal interesse, após um intervalo de 26 anos? Que fatores respondem pelo apelo exercido pela obra?

Em primeiro lugar, a tradução da tese se deu em um contexto bastante favorável para a recepção de suas proposições gerais a respeito da influência específica do repertório de “componentes” culturais de origem africana no sistema de valores e padrão de comportamento dos garífunas. Em seu trabalho, Ruy Coelho discutiu e sancionou uma questão especialmente sensível e controversa para os próprios sujeitos estudados: o papel exercido pela sobrevivência e reinterpretação, em diferentes domínios, da herança cultural africana nas práticas de identificação pública dos garífunas. Embora suas anotações de campo revelem a inexistência, entre os moradores de Trujillo, de um relato unânime e plenamente estabelecido sobre as origens étnicas do grupo, assim como a coexistência de distintas formas de auto identificação [61], na conclusão da tese, Ruy Coelho rastreia as origens étnicas e a procedência geográfica dos componentes da cultura garífuna, e a maneira pela qual estes foram afetados pela mudança, a partir de comparações e confrontos com grupos étnicos indígenas e africanos no Novo Mundo. Em que pese a “unidade alcançada através da síntese” de elementos provenientes do processo aculturativo, ele ressalta a “estrutura básica africana subjacente à cultura caraíba negra” como o eixo fundamental que a preside, ordena e lhe confere sentido. Assim, na dieta, a adoção de alimentos indígenas não impediu que prevalecesse a influência do “paladar africano”; o mesmo ocorre com o sistema de parentesco e matrimônio, no qual sobressai o “espírito legal das culturas da África Ocidental [que] fica evidente nas obrigações minuciosamente regulamentada e nos direitos de cada cônjuge”; com os padrões básicos da divisão sexual do trabalho, que provêm “dos índios caraíbas”, mas que devem, contudo, “ser considerado, pelo menos em parte, de derivação africana”; e, no plano religioso, com a “tela solidariamente tecida” na qual “a urdidura africana e a trama indígena, por assim dizer, parecem estar mais estreitamente entrelaçadas”, mas onde os “princípios teológicos da religião caraíba negra desenvolveram-se indubitavelmente sob influências africanas”. [62]

Ao longo dos anos de 1970, configurou-se em Honduras um contexto histórico e político muito específico, marcado por um movimento de redefinição, sob os auspícios de setores progressistas encravados no interior do aparelho de estado hondurenho, do discurso oficial sobre o substrato étnico-racial que passou a amparar, a partir das décadas de 1920 e 1930, os fundamentos da identidade cultural hondurenha. De acordo com o historiador hondurenho Darío A. Euraque, em uma série estimulante de escritos, [63] até a década de 1970 predominou uma versão oficial hegemônica da nacionalidade hondurenha que erigiu a mestiçagem indo-hispânica como o “denominador comum”, a ponto de neutralizar a intensa heterogeneidade étnico-racial de sua população. Ainda segundo Euraque, durante os governos militares que afligiram Honduras nos anos 1970 – inicialmente sob o comando do general Osvaldo Lopez Arellano (1972-1975), substituído pelo governo do General Juan Alberto Melgar Castro (1975-1978) e, finalmente, pela Junta Militar (1978-1980) –, houve uma forte valorização e reconhecimento da diversidade étnico-cultural do país, por meio de projetos e iniciativas governamentais com vistas a apoiar o desenvolvimento da cultura popular hondurenha. Dentre os ministérios e secretarias criados para a implementação do “Plan Nacional de desarollo, 1974-1978”, constava a Secretaría de Estado en el Despacho de Cultura, Turismo e Información (SECTIN), com o propósito, como informa a apresentação da revista Sectante (Sectin Actuante),

[...] de preservar, fomentar y difundir los valores culturales, los cuales deben proyectar sus beneficios a la sociedad sin discriminación alguna; de establecer un eficiente sistema de comunicaciones entre el Gobierno y el pueblo, y de dar a la industria del turismo la atención que por su importancia merece” (Sectante, 1975, p. 2) [64].

Anexada ao organograma geral de funcionamento da SECTIN, a Dirección General de Cultura, dentre suas atribuições e iniciativas, iniciou projeto em que “se estaba dando especial atención a la investigación de la Cultura Garífuna o negro caribe, componente étnico muy importante de nuestra nacionalidad habiendo completado la primera fase de la misma y que servirá para formular políticas tendientes a incorporarlos al desarrollo integral del país”. [65] Decorre daí a realização, em duas etapas consecutivas, de um esforço de mapeamento e documentação de aspectos de ordem histórica, religiosa e ambiental conduzido por Francisco Flores Andino e Armando Crisanto Meléndez, intelectual e artista garífuna, sobre a “cultura garífuna” em distintos núcleos populacionais da costa atlântica de Honduras, com dotação financeira proveniente da Central de Información del Ministerio de Información, Cultura y Turismo. [66]

Aproveitando-se desse intenso debate sobre o papel estratégico da cultura popular e das perspectivas de implementação de políticas públicas que então se abriam, assim como do movimento de requalificação dos termos étnico-raciais da identidade nacional, intelectuais e lideranças garífunas se integraram aos canais de acesso oficiais e fizeram uso da grande imprensa, para promover uma releitura de suas origens, na qual enalteciam os “laços ancestrais” com a “África” e afirmavam sua negritude, aspecto menos valorado pelas gerações anteriores. Em artigos publicados em jornais e revistas [67] e na realização de festivais de música e danças, parte deles idealizados e promovidos pelo Ballet Nacional Folklórico Garífuna [68], as raízes africanas e a continuidade de seus vínculos históricos foram reiteradamente enfatizadas como elementos centrais para a identidade étnica do grupo. Ao mesmo tempo, garífunas radicados em Tegucigalpa e já envolvidos com algum tipo de militância política fundaram, em 1978, a primeira associação civil garífuna, a Organización Fraternal Negra Hondureña (OFRANEH), órgão representativo em defesa dos seus direitos culturais e territoriais.

A conjuntura em Honduras no momento da tradução da tese de Coelho não poderia ser mais favorável: no exato momento em que despontava a chamada “etnogênese da negritude garífuna” e a valorização da “cultura garífuna e seus nexos com a negritude africana” [69], o conteúdo da monografia parecia se alinhar ao debate em curso. A ênfase posta sobre a preservação dos africanismos no Novo Mundo; as discretas, mas firmes, menções à opressão e arbitrariedades sofridas pelos garífunas durante o regime ditatorial de Carías; e as alusões ao terrível “Massacre de San Juan” (1937) – evento em que alguns moradores garífunas do núcleo populacional de San Juan foram fuzilados a sangue frio por tropas militares, supostamente por seu apoio às forças da oposição [70] – facultavam material não apenas para a reavaliação das origens étnicas, como também para a exaltação de um conjunto de juízos sobre atributos morais, modos de ser e traços gerais de comportamento garífuna de grande ressonância e aceitação entre seus portadores.

Outro fator que igualmente influiu na projeção e consagração obtidas pela tradução do estudo de Ruy Coelho em Honduras diz respeito à sensibilidade e à perspicácia com que ele espreitou certas dimensões-chaves e preocupações dominantes da experiência sociocultural dos garífunas com os quais interagiu. Sabemos que uma descrição etnográfica não é um retrato fiel da realidade, tampouco uma mera acumulação de fatos, mas uma experiência epistemológica que implica no envolvimento com questões alheias, em busca de sentido. [71] Passando incólume pela chamada “crise da representação” da antropologia, Ruy Coelho soube focalizar com clarividência em sua tese as instituições sociais e as crenças religiosas reputadas ainda hoje pelos próprios sujeitos estudados como centrais para a manutenção de seu modo de existência. Atualmente se considera superado o arcabouço teórico-conceitual dos estudos de aculturação – e Ruy Coelho já nos anos de 1960 constatava suas limitações [72] – mas as dimensões perscrutadas e questões abertas por ele encontraram ampla recepção e fortuna crítica, continuando a ser debatidas e engendrando novas tentativas de sistematização. Mais que um repositório de informações sobre a pouco documentada história sociocultural dos garífunas na primeira metade do século XX, assim como uma visão geral das principais instituições sociais e crenças religiosas garífunas, a tese tracejou um retrato etnográfico de grande poder evocatório e que termina por adquirir inusitada atualidade [73].

Prova disso é a persistência e constância, nas pesquisas vindouras sobre populações garífunas em Honduras, de um conjunto semelhante de problemas investigativos tratados por Coelho, além da frequente remissão a certas proposições enunciadas em sua tese e nos artigos dela extraídos. Na impossibilidade de apresentar um balanço exaustivo, gostaria de mencionar alguns estudos realizados por E. Salvador Suazo [74], o mais renomado e prolífico intelectual garífuna. Em suas obras, avulta um diálogo estreito com a tese e com parte dos artigos de Ruy Coelho. Em La Sociedad Garífuna: un vistazo sobre el estilo de vida garífuna [75], por exemplo, ele salienta a importância da senioridade na manutenção da autoridade política local; indica a consumação do matrimônio como a etapa final da progressiva estabilização da união de um casal e destaca, como os princípios que ancoram o sistema de valores que orienta o modelo de conduta típico dentro da sociedade garífuna, a irmandade ou afinidade, o respeito, a harmonia, a hospitalidade e a solidariedade. Não estamos longe, aqui, das considerações de Ruy Coelho sobre “os princípios implícitos que percorrem como fios toda a trama social” dos garífunas que dizem respeito à “gradação de todos os processos em todas as esferas da realidade, sejam eles naturais ou sobrenaturais” [76] e à “reciprocidade, que garante o equilíbrio nas relações entre os membros da sociedade e nas que se estabelecem entre o grupo e as forças sobrenaturais”. [77]

Fig. 1
O jovem antropólogo Ruy Coelho em Trujillo, s.d..
Acervo do A., doação da viúva de Ruy Coelho.

Ruy Coelho e a história das antropologias feitas no Brasil

Resta esboçar uma reflexão final sobre a possibilidade de (re)inserir a contribuição de Ruy Coelho na história das antropologias feitas no Brasil. Qual o interesse em reativar o seu legado, para além do conteúdo específico de sua pesquisa entre os garífunas? Como lidar com um autor de difícil classificação e, em alguns aspectos, ultrapassado? Para avançar nessa direção, é importante estabelecer uma sutil distinção: não é o caso, propriamente, de resgatar a obra de Ruy Coelho do esquecimento, do ostracismo ou da invisibilidade – afinal, como vimos, sua monografia segue sendo lida, citada e influente em Honduras. Trata-se, antes, de reassentar sua contribuição no interior de parte do debate antropológico contemporâneo no Brasil.

Daí a escolha pelo epíteto “deslocado” para condensar a experiência acadêmica e intelectual de Ruy Coelho, assumindo a locução, ao menos, três sentidos correlatos: “mudança de direção”, “fora do lugar” e “fora de época”. “Mudança de direção”, pois parte decisiva de sua formação acadêmica e os primeiros passos de sua carreira profissional se deram fora do país, com passagens e estadas por, como vimos, Estados Unidos, Honduras, Puerto Rico e França – e posteriormente, ao final da vida, Portugal [78]. Tomando sua experiência precursora no exterior como um ponto de referência, ela permite, a um só tempo, circunscrever e iluminar aspectos da dinâmica de circulação e de intercâmbio de práticas e paradigmas científicos, pesquisadores e projetos de investigação que articularam redes acadêmicas transatlânticas e tradições intelectuais locais em um período decisivo da história da antropologia feita no Brasil. Durante as décadas de 1940 e 50, o trânsito e a presença de pesquisadores estrangeiros no país, notadamente oriundos dos Estados Unidos e da França, os quais se integraram à vida acadêmica e intelectual a partir de modalidades distintas (contatos pessoais e afinidades temáticas; acordos de cooperação técnica entre instituições, atividades de pesquisa individual e projetos de investigação coletivos, etc.) [79], e sua contrapartida, o contrafluxo de alunos brasileiros para o exterior (ainda que em menor número), foram fundamentais para a definição e/ou divulgação de modelos teórico-metodológicos, programas e projetos de pesquisa, recortes temáticos e objetos de investigação, assim como repercutiu na definição de fronteiras disciplinares e nos processos de institucionalização e profissionalização das ciências sociais brasileiras.


Não obstante as condições e recursos acadêmicos extremamente favoráveis com as quais Ruy Coelho se defrontou nos Estados Unidos – a disponibilidade de bolsas de pesquisa e de postos de trabalho vacantes, a aquisição de uma formação especializada, entre outros –, a recepção e a aclimatação de sua bagagem intelectual no contexto intelectual da Universidade de São Paulo não foi destituída de embaraços, a ponto dele renunciar, quase completamente, a seus interesses pelos garífunas e pelo estudo da América Central. Em suma, ele era um antropólogo “fora de lugar”. Ao contrário de seus compatriotas, dominados, naquela altura, pelo estudo de questões relativa ao processo de formação nacional [80], sua escolha temática destoante não encontrou ressonância significativa entre seus pares [81]. O caso concreto de Ruy Coelho no exterior e os percalços intelectuais envolvidos em sua reintegração à vida acadêmica de seu país natal podem fornecer subsídios para um entendimento mais alargado dos desafios, possibilidades e limites infusos nas práticas institucionalizadas que regulam as condições de produção, circulação e apropriação do conhecimento antropológico produzido por pesquisadores brasileiros em terras estrangeiras, assim como as relações que se instituem com a sua própria tradição intelectual.

Mas se no Brasil sua tese foi objeto de escassa atenção e receptividade, a tradução de sua monografia em Honduras, na conjuntura histórica acima discutida, produziu mais um deslocamento, desta feita de natureza temporal: como uma espécie de mensagem embutida em uma garrafa que chegou ao seu destino quase trinta anos depois, o estudo finalmente encontrou, em fins da década de 1970, terreno propício para se converter em uma leitura incontornável para as pesquisas subsequentes sobre garífunas. Para constatar tal situação, foi-me necessário perseguir os passos dados por Ruy Coelho em seus anos fora de seu país de origem, buscando, simultaneamente, evidenciar as intersecções entre seu percurso acadêmico, profissional e intelectual e um espaço internacional de produção de conhecimento e qualificar com maior precisão o significado e o valor da contribuição de sua monografia para a produção bibliográfica hondurenha contemporânea sobre os garífunas. Nesse movimento, alinhei-me a uma tendência recente nos estudos sobre a historia da antropologia feita no Brasil que, em lugar de estabelecer como ponto de referência e unidade de análise as fronteiras da nação, passaram a privilegiar, entre outros, a importância de redes de sociabilidade transnacionais e das viagens transatlânticas na definição de perspectivas, temáticas e modalidades de conhecimento no campo das ciências sociais [82].

Para finalizar, arrisco sugerir, a partir de uma perspectiva de uma historiografia não-linear e sensível às discussões relevantes para o presente [83], que o crescente entusiasmo de parte dos antropólogos brasileiros por questões ligadas aos processos de aprendizagem, às relações entre o biológico e o sociocultural, à cognição e percepção e sua correlação com padrões culturais e meio ambiente [84] encontrariam sintonia e afinidades com certas obsessões temáticas que atravessam o pensamento de Ruy Coelho. Desde os seus primeiros escritos, destacam-se o interesse pelos processos de socialização e aprendizagem, a relação entre o funcionamento psíquico e as condições estruturais de existência coletiva, as correlações entre padrões gerais de conhecimento e suas variações individuais, culminando em reflexões sobre as interfaces entre os planos de cognição e os dinamismos socioculturais que lhes são subjacentes. [85]

Longe, portanto, de ser uma simples figura fugidia e distante, ou um personagem relativamente obscuro, a experiência e a contribuição legada por Ruy Coelho, além de auxiliar a compreender uma cena e circuitos antropológicos específicos, pode ainda oferecer aos leitores possíveis aportes para lidar com certos debates que afetam o campo atual da antropologia no Brasil, e talvez alhures.

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[1Rodrigo Ramassote é pós-Doutor em Antropologia Social pelo Departamento de Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP); e técnico em Ciências Sociais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Versões preliminares deste artigo foram lidas e comentadas por Stefania Capone e Fernanda Arêas Peixoto, a quem agradeço pelas preciosas e estimulantes sugestões. Também externo minha gratidão aos membros do Laboratório e Grupo de Pesquisa Mobile, capitaneado pela professora Andrea Lobo, junto ao Departamento de Antropologia da UnB, por uma leitura coletiva bastante proveitosa.

[2Excetuando-se necrológios, depoimentos evocativos de ex-alunos e artigos de circunstância surgidos quando da reedição de parte significativa de sua obra, não há nenhuma leitura analítica sobre o lugar ocupado por Ruy Coelho e a relevância de sua contribuição substantiva para o debate antropológico no Brasil. Cf. Arte e Cultura da América Latina (2005). Por iniciativa da Sociedade Científica de Estudos da Arte – CESA – e da Editora Perspectiva, foram lançados cinco volumes. Cf. Coelho (2000; 2002a; 2002b; 2005; 2007).

[3Cf. Coelho (1948;1952a; 1952b; 1969).

[4O texto que segue faz uso de materiais compulsados em arquivos localizados no Brasil, Estados Unidos, França, Guatemala e Honduras, assim como de minha própria experiência em Honduras, para onde segui em sucessivas visitas, entre 2016 e 2018, a fim de recuperar eventuais reminiscências da passagem de Ruy Coelho e, ao mesmo tempo, conhecer de perto o contexto e a população em meio aos quais ele conduziu sua etnografia. Tais iniciativas fizeram parte de uma pesquisa de pós-doutorado realizada entre 2014 e 2018 no Departamento de Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, sob a supervisão de Fernanda Arêas Peixoto e com o auxílio financeiro da FAPESP.

[5Cf. Coelho (1964a).

[6Cf. Goiatá; Bulamah; Ramassote (2020).

[7Cf. Amaya (2007a).

[8Décadas atrás, Alcida Ramos chamou a atenção para o caráter curto e descontínuo das pesquisas de campo feitas por etnólogos brasileiros. Cf. Ramos (1990).

[9Suas origens ilustres nos levam a Joaquim Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), considerado o Patriarca da Independência do Brasil (1822), e a Frei Galvão (1739-1822), canonizado como santo pelo Papa Bento XVI em 2007.

[10Cf. Pontes, 1998, p. 190.

[11Nas páginas da revista Clima Ruy Coelho se notabilizou como ensaísta, enveredando pela crítica de lançamentos literários e cinematográficos. Cf. Coelho (2002a). Com a formação e o prestígio obtidos nas páginas da publicação, ingressou na grande imprensa paulista, enviando contribuições para diferentes periódicos e assumindo a coluna de crítica de cinema do jornal Diário de S. Paulo entre 1943 e 1945 – na qual assinou 332 pequenos artigos –, ao mesmo tempo em que lecionava sociologia no Colégio Universitário anexado à FFCL-USP, no biênio 1942-43.

[12Cf. Coelho (1944); Pontes (1998).

[13Cf. Voegelin (1950).

[14A mudança dos interesses estratégicos da política externa norte-americana, com a adoção da chamada “Política de Boa Vizinhança” em substituição aos preceitos doutrinários da “Doutrina Monroe”, provocou no contexto das décadas de 1940 e 1950 um pronunciado influxo de pesquisadores norte-americanos por toda a América Latina. Sobre o interesse antropológico dos norte-americanos pela região, ver: Strickon (1964).

[15Refiro-me, em especial, a Florestan Fernandes, Antonio Candido, Lourival Gomes Machado, Gioconda Mussolini, entre outros, que se tornariam nomes importantes da sociologia, da crítica de arte e da antropologia brasileiras. Sobre o assunto, ver: Pontes (1998); Miceli (2021).

[16Sobre o perfil cosmopolita de Ruy Coelho, ver: Almeida Prado (1990).

[17Cf. Mello e Souza (2002).

[18Cf. Coelho (1981-1984).

[19É pouco provável que o estudo tenha avançado para além dessa menção, uma vez que foi impossível encontrar quaisquer outros indícios sobre o andamento do estudo.

[20Cf. Neme, 1945, p. 241.

[21Cf. Northwestern Archives. Africa Manuscripts - Student Filles.

[22Cf. Guimarães (2004).

[23Sansone (2012).

[24Cf. Herskovits (1942a).

[25Cf. Herskovits (1942b).

[26Encontrei algumas notícias sobre a estada de Herskovits no jornal carioca A manhã, editado no Rio Janeiro entre os anos de 1941 e 1953. Cf. A manhã (1942).

[27Cf. Coelho (1964b). E, ainda: Ramassote (2020).

[28Cf. “News and Notes” (1946). E ainda: Hallowell (1967).

[29Resultaram de sua participação dois escritos inéditos: o curto relatório; e um ensaio intitulado “Drawing as a projective method in the study of personality and culture”. Cf. Irving Hallowell’s Papers, Box 19, Serie 4.

[30Entre outros, cf. Herskovits (1930; 1937).

[31Cf. Herskovits (1958).

[32Cf. Anderson (2008). O artigo 14 determinava que: “Prohíbese el ingreso de negros, coolíes [trabalhadores asiáticos], gitanos y chinos al territorio de la República. La entrada de árabes, turcos, sirios, armenios, palestinos, checoeslovacos, libaneses y polacos podrá permitirse siempre que den una buena garantía que asegure, a satisfacción de la Oficina de Inmigración y Colonización, que vienen a dedicarse exclusivamente a la agricultura o a la introducción o perfeccionamiento de nuevas industrias sin perjuicio de exigir los otros requisitos que establecen las demás leyes al respecto; y su dentro de seis meses no hubieren comenzado sus labores agrícolas o iniciado nuevas industrias, serán expulsados de conformidad con la Ley de Extranjería”. Cf. Ley de Inmigración e su reglamento (1957). De acordo com Euraque, as legislações migratórias de forte teor racista e xenofóbico sancionadas em Honduras em 1929 e 1934 devem ser enquadradas nos marcos da intensificação do processo de ocupação e desenvolvimento econômico da costa norte do país, durante o qual se plasma um competitivo mercado de trabalho étnica e nacionalmente segmentado no qual os hondurenhos perdem o controle das principais atividades comerciais, assim como nos esforços governamentais, que se avultam durante as décadas de 1920 e 1930, para a consolidação de um discurso oficial sobre a identidade cultural hondurenha assentado na prevalência da mestiçagem indo-hispânica. Cf. Euraque (1996; 2004).

[33Cf. Yelvington (2001; 2006); Capone (2005).

[34Sobre o curto ciclo de prosperidade econômica de Trujillo entre fins do século XIX e 1930, ver: Payne Iglesias (2010).

[35Encontrei em Trujillo, em 2016, duas de suas filhas. Segundo elas, María se casou com Anastasio Severino Sánchez, que morreu prematuramente em 1957. Desse matrimonio nasceram quatro filhos: Pedro Reinaldo Sánchez Lacayo; os gêmeos María Helena e Rene Eleuterio Sánchez Lacayo, e Pabla Modesta Sánchez Lacayo. Ainda de acordo com as filhas, María nunca mais se casou e trabalhou a vida toda para a família dos Glynn; para ampliar a renda familiar, vendia pães em Cristales.

[36Esta brevíssima síntese se apoia na seguinte bibliografia: González (1969; 2008); Davidson (2009); Ghidinelli; Massajoli (1984); Rivas (2000). Para um balanço da produção bibliográfica sobre os garífunas, ver: Arrivillaga Cortés; Shaw (1997); Cruz Sandoval (2002).

[37Os números oficiais sempre suscitaram divergência. González calcula, a partir do cruzamento de fontes documentais diversas, que foram deportadas 2026 pessoas. Cf. González (1986).

[38Cf. Davidson (2009a).

[39Cf. Davidson (2009b); Arrivillaga Cortés (1987); Taylor (1951).

[40Pelas páginas de Dias em Trujillo (2000), publicação que reuniu postumamente boa parte de suas anotações de campo, são descritos os eventos e atividades sociais acompanhados pelo autor, além de retratar o perfil dos moradores com quem Ruy Coelho interagiu livremente, de modo a ampliar seu círculo de interlocutores.

[41Em suas notas de campo, Ruy Coelho comenta que, durante seu primeiro mês em Trujillo, “era corrente o rumor” de que ele seria “um ministro protestante”. Cf. Coelho, 2000, p. 71.

[42Segundo a definição de Herskovits, uma situação hipotética “[...] consiste, em essência, em conceber, ad hoc, situações na vida de um povo em termos de pessoas, relacionamentos e eventos hipotéticos que, estando de acordo com os padrões predominantes de sua cultura, são usados ​​para direcionar e dar forma às discussões com informantes e outros membros de um grupo que está sendo estudado” (Herskovits, 1966, p. 62 – tradução minha). Em diferentes passagens de seus diários, Ruy Coelho relata: “Com a ajuda de Sebastían, trabalhei no caso de uma família imaginária que vive em Santa Fé. Obtive informações adicionais de grande importância, tais como o papel punidor dos gubida [ancestrais divinizados] em questões morais”. E, ainda: “Voltei à nossa família Ramirez de Santa Fé, acrescentei-lhes mais membros e inventei mais histórias complicadas para tais membros. Isso permitiu uma discussão sobre o uaiaru [feitiço de amor] da qual Teófilo tomou parte também; finalmente, Sebastían disse que iria perguntar a outras pessoas e que daria mais informações amanhã”. Cf. Coelho, 2000, p. 60/77.

[43No decurso da década de 1940, os testes projetivos – em especial as provas Rorschach e o TAT –ganharam rápida e extensiva popularidade entre antropólogos norte-americanos. Sobre a utilização de técnicas projetivas em pesquisas antropológicas, ver: Henry and Spiro (1953). Kaplan contabilizou, em 1961, a realização, entre as décadas de 1940 e 50, cerca de 150 estudos que fizeram uso de testes projetivos. Cf. Kaplan (1961).

[44Os protocolos reúnem as respostas obtidas durante a aplicação do teste, arranjadas em colunas que indicam o tempo da resposta, as verbalizações e classificações.

[45CF. Coelho; Coelho (1970).

[46Cf. Argueta (2005). Para um exame mais detalhado sobre as adversidades dessa conjuntura, ver: Ramassote (2018).

[47Localizada na costa norte de Honduras, San Pedro Sula é o segundo maior município do país.

[48Desde o princípio a possibilidade de uma revolução se anunciava. Em sua primeira carta a Herskovits, datada de 23 de setembro de 1947, Ruy Coelho já demonstrava preocupação com a situação política de Honduras: “O único aspecto desfavorável neste relato tem a ver com a situação política. Há uma grande tensão política em Honduras. 1948 será um ano eleitoral, mas o partido de oposição já começou a campanha. Infelizmente para mim, a Costa Norte é o reduto do liberalismo e, portanto, a porção do país onde possíveis choques entre as forças oposicionistas podem ocorrer. […] Acho que é aconselhável ir à Guatemala e relatar a situação ao Embaixador do Brasil, para permanecer sob proteção diplomática no caso de uma revolução”. Cf. Northwestern University, Africana Manuscripts, Box 105, Ruy Coelho Student Field Notes – Folder 1 (Tradução minha). Para uma apreciação mais detida sobre o assunto, ver: Ramassote (2018).

[49Em uma das entradas de seus diários, Ruy Coelho comenta: “Estou tentando aferir as atividades políticas e cívicas dos habitantes de Cristales e Rio Negro. Pela manhã conversei sobre isso com Sebastian e à tarde fui ver Marin para conseguir mais informações sobre o assunto. Ainda que Simeón Marin me conheça bem e, suponho, confie em mim, ele foi um tanto hesitante em se abrir comigo; no início, tentou ser bastante genérico e quando fiz perguntas precisas, concretas e detalhadas, ele respondia de forma relutante. Pouco a pouco ganhou mais confiança e tornou-se mais espontâneo. De qualquer maneira, política é o assunto mais delicado para se abordar nestes dias” (Coelho, 2000, p. 185).

[50Além de Ruy Coelho, concorreram à vaga figuras importantes e de destaque nas ciências sociais: Ruth Bunzel, St. Clair Drake e Madeleine Sylvain Bouchereau. A decisão final foi afiançada por Herskovits, por meio de telegrama: em 24 de abril de 1950, Métraux lhe envia telegrama solicitando conselho: “Final choice about job Race Division Lies Between St. Clair Drake and Coelho. Stop. Would Appreciate Your Cabled Advice Concerning Best Candidate”. A resposta de Herskovits, datada de 25 de abril, é lacônica e inconteste: “Recommend Coelho=Herskovits” (M. Coelho, Ruy G.A. PER. REC. 1/92. - Unesco Archives). Com essa atitude, Herskovits não apenas prestigiava o seu jovem orientando, como também assegurava estrategicamente a influência de seu projeto intelectual em uma área de produção acadêmica marcada por clivagens políticas e epistemológicas. Sobre o assunto, ver: Gershenhorn (2004); Yelvington (2007).

[51As informações sobre a passagem de Ruy Coelho pela UNESCO foram extraídas de documentação constaste de seus arquivos pessoais no Brasil, assim como a consulta, em Paris, das caixas e dos arquivos na pasta da M. Coelho, Ruy G.A. PER. REC. 1/92, Unesco Archives; e, ainda, nas pastas Race questions & protection of minorities. REG 323.1; Part I up to 30/VI/50 (BOX REG 145); REG 323.1. Part II up to 31/VII/50 (BOX REG 145), Unesco Archives.

[52Cf. Maio (1999).

[53Inicialmente a defesa da tese ocorreria no Salão Nobre da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, na data de 25 de agosto de 1954. Na madrugada do dia anterior, Getúlio Vargas, Presidente do Brasil, se suicidou com um tiro disparado no peito, provocando comoção pública e luto oficial. Diante disso, decidiu-se que a defesa seria mantida nas dependências do hotel onde Herskovits estava hospedado.

[54Ao redigir o posfácio da versão traduzida de sua tese para o português, nas páginas da Revista do Museu Paulista, Ruy Coelho declarava: “Este trabalho foi completado, em sua versão final, em 1954; manteve-se inédito, portanto, durante toda uma década, por razões várias que não convêm explicitar. A revisão revelou que está vazado em uma linguagem que não é mais a do autor no momento presente. O arcabouço conceitual em que se apoia também poderia ser modernizado [...]. A publicação de um relatório etnográfico em moldes tradicionais não seria de todo inútil, já que tem por objeto um grupo ainda pouco conhecido [...] O ponto de vista predominantemente descritivo que foi aqui adotado se justifica, demais, como preliminar indispensável às abordagens por outras vias. O empirismo praticado conscientemente evita incidir nos exageros de certas posições teóricas”. Cf. Coelho, 2002b, p.193 – grifos nossos.

[55Cf. Peirano (1995; 2014).

[56Em diferentes escritos, Ruy Coelho insistiu na necessidade de não se perder de vista a centralidade da pesquisa empírica metódica como suporte para a elaboração conceitual. Cf. Coelho (1974; 1981; 1983).

[57Prova disso é que, ao traduzir e publicar a tese, ele menciona, no Posfácio: “A apresentação dos materiais referentes aos caraíbas negros da República de Honduras juntar-se-á aos escritos de Douglas Taylor, que tratam dos Garífunas de Honduras Britânica, e aos artigos mais recentes de Nancy Solien [Gonzalez], resultantes de pesquisas efetuadas na Guatemala” (Coelho, 2002b, p. 193).

[58Como bem assinala o sociólogo Teófilo Queiróz Júnior, um de seus discípulos mais diletos: “A dedicação de Ruy Coelho ao estudo das relações entre personalidade e cultura requereu incessantes leituras, pontuou seus textos e norteou os cursos por ele ministrados a graduandos e àqueles que orientou, nos programas de pós-graduação. Essa problemática foi o fulcro continuadamente enriquecido em amplitude e profundidade por ele, em seus cursos e palestras. A cada situação de sala de aula, nas entrevistas com orientandos, em concisas mas esclarecedoras introduções que redigiu para textos alheios, em palestras e conferências proferidas, Ruy Coelho primou sempre em apresentar mais reflexões, renovadas críticas e multiplicadas dúvidas – seus desafios constantes. Era muito mais o que ele tinha para oferecer em vez de qualquer proposta enfática com pretensão e certeza apaziguadora e conclusiva. Mas esse procedimento, longe de constituir pose intelectual, revelava insaciável busca de conhecimento mais sólido, de mais confiável interpretação para o que estudava: era sua maneira de cultivar a ciência e respeitar o interlocutor”. (Queiróz Júnior, 1991, p.253).

[59Cf. Coelho (1989). E, publicado postumamente, Coelho (1991).

[60Em Tegucigalpa, entrei em contato com Guadalupe Carías Zapata, tradutora do livro, e Hernán Antonio Bermúdez, um dos fundadores da casa editorial e, há alguns anos, membro do corpo diplomático do país. Segundo eles, uma cópia da versão original da tese foi-lhes entregue, no começo dos anos 1980, por Ian Cherret, economista inglês, radicado em Honduras, cooperante internacional e membro de instituições não-governamentais dedicadas à assistência técnica ao setor rural de Honduras. Em que pesem as esclarecedoras conversas com meus interlocutores, minhas tentativas de contato com Cherret foram infrutíferas e não pude encontrar maiores informações sobre a maneira como ele teve acesso à versão original.

[61Como indiquei acima, as origens étnicas da população garífuna remontam ao encontro intersocietário entre grupos karib-arawak e diferentes populações de origem africana e/ou afro-americana. Durante sua estada em Trujillo, Ruy Coelho registrou em seus diários de campo que os discursos dos garífunas locais sobre sua identidade não compunham um relato único e bem estabelecido; antes, oscilavam entre a ênfase na ancestralidade africana ou a rejeição veemente dessa herança devido à sua associação com a escravidão; a exaltação de um certo legado cultural indígena; e a defesa enfática da singularidade histórico-cultural dos garífunas em relação aos outros grupos hondurenhos e estrangeiros afrodescendentes assentados na região da Costa Norte. Eram eles, negros ingleses ou creoles (provenientes do Belize, das Ilhas Cayman, Barbados, Jamaica); negros franceses (originários do Haiti, procedendo de Cuba); miskitos (resultantes de contatos culturais e miscigenação racial entre negros escravizados e grupos indígenas da etnia sumos, atualmente conhecidos como tahwakas); e descendentes de negros escravizados traficados ao longo do período colonial para o trabalho em atividades agrícolas, pastoris e de mineração. Cf. Coelho (2000). Sobre os negros ingleses ou creoles, ver Amaya (2007b); a respeito dos negros franceses, cf. Houdaille (1954); sobre o tráfico de negros escravizados em Honduras, ver Leiva Vivas (1982). Uma excelente síntese sobre a formação da identidade garífuna entre os anos de 1930 e 1950, tomando como eixo de análise as inter-relações entre o discurso étnico racial garífuna e o debate político e ideológico nacional, pode ser consultada em Anderson (2009).

[62Cf. Coelho, 2002b, pp. 169-175.

[63Euraque (1996; 2004).

[64Cf. Sectante (1975). E, ainda: Alonso de Quesada (1977).

[65Alonso de Quesada, 1977, p. 68.

[66Cf. Informe de Investigación de la Cultura Garífuna, realizado del 15 al 24 de mayo de 1976.

[67Conforme Euraque, o artigo “Breve historia del negro en Honduras”, publicado no jornal Diario Tiempo, de autoria do Armando Crisanto Melendez (1945 - ), pesquisador e diretor do Ballet Nacional Folklórico Garífuna, consistiu “quizá la primera intervención por un intelectual garífuna que recogió sistemáticamente una visión africanista del origen y posterior desarrollo de sus ancestros en Honduras”. Cf. Euraque (2004), p. 236.

[68O Ballet Nacional Folklórico Garífuna derivou do coletivo artístico Organización Afro-Hondureña, surgido por iniciativa de José Lino Alvarez Sambulá, Armando Crisanto Meléndez, Julián Martínez e outros, no ano de 1962. Conforme relato extraído do Programa do Ballet Folklórico Garífuna, datado de 1991: “En el año de 1975 es creada la Secretaría de Cultura, Turismo e Información rectorada por el Coronel Efraín González Muñoz, quien a través de una propuesta presentada por el señor Armando Crisanto Meléndez sobre el montaje del primer Festival de Arte y cultura Garífuna abre sus puertas al grupo garífuna incorporándolo a la actividad oficial formalmente en el año de 1976. A partir de ese momento toma el nombre de Ballet Folklórico Garífuna, como una dependencia del Departamento del Folklórico Nacional. Debido a la importancia de rescatar y conservar la historia garífuna el Departamento de Folklore Nacional planificó la primera gira de investigación a la Costa Atlántica del País en los meses de mayo y junio de 1976” (Cf. Ballet Folklórico Garífuna,1991).

[69Expressões utilizadas por Darío Euraque para qualificar a conjuntura histórica da década de 1970. Cf. Euraque, op. cit.

[70Sobre o assunto, ver: López García (2008).

[71Como lembra Viveiros de Castro: “É verdade que a antropologia estuda problemas, e não povos, como disse Evans-Pritchard; mas seus problemas são aqueles dos povos que estuda – problemas postos por estes povos para si mesmos, e portanto para os antropólogos. Foi o mesmo Evans-Pritchard quem sugeriu que o antropólogo deve seguir o que encontra na sociedade que escolheu estudar: ele não se interessava por bruxaria, mas os Azande sim; não tinha paixão especial por vacas, mas os Nuer sim; logo... O que sempre se passa é uma negociação entre os problemas do etnólogo – pessoais tanto quanto teóricos – e os problemas de seus informantes, tomados em maior ou menor medida como a expressão de um pensamento integralmente social”. Cf. Viveiros de Castro (1992, p. 177).

[72No posfácio à primeira edição, ele declara: “O arcabouço conceitual em que se apoia [a tese] também poderia ser modernizado”. Cf. Coelho, 2002b, p. 193.

[73Não é raro encontrar, no interior da história da antropologia, exemplos de pesquisadores cuja contribuição etnográfica superou as limitações de quadros teórico-conceituais. O caso mais clássico é Bronislaw Malinowski: a excepcional qualidade de suas descrições etnográficas não fez jus às suas proposições teóricas substantivas. Sobre o assunto, ver: Durham (1978).

[74Eusebio Salvador Suazo (1954-2015) nasceu em Cusuna, município de Iriona, integrado ao Departamento de Colón. Formou-se em Administração de Empresas pela Universidade Nacional de Honduras (UNAH). Sua extensa produção intelectual abrange estudos de sociolinguística, dicionários e gramáticas garífunas, além de uma série de livros sobre as origens históricas e as principais características socioculturais do grupo. Cf. Suazo (1992; 1994; 1996; 1997).

[75Suazo (1994).

[76Cf. Coelho, 2000b, p.177.

[77Cf. Idem, ibidem, p.178. De igual modo, Suazo destacou a centralidade das práticas e crenças religiosas garífunas, concebidas como uma dimensão sociocultural decisiva para a manutenção e continuidade de sua população. Em Irufumali: la doctrina esotérica garífuna (1992), ele descreve a “vida espiritual garífuna” a partir do universo da concepção de alma, dos seres sobrenaturais, dos cerimoniais fúnebres e dos ritos devocionais, igualmente apresentado pela monografia de Ruy Coelho, em relação à qual são acrescidos alguns comentários e poucos detalhes adicionais. Nem mesmo as práticas relacionadas à couvade deixam de comparecer nesse estudo. À semelhança da intepretação do antropólogo brasileiro, segundo a qual as interdições e o comportamento do pai no período pós-parto se conectam aos princípios cosmológicos e papeis sociais assentes entre os garífunas, Suazo define a “ley de la couvade” a partir da “reciprocidad espiritual entre padre e hijo”: “[…] Se cree que cuando el niño es concebido, su madre forma su cuerpo en el claustro materno y, al momento de nascer obtiene de inmediato su iwani [entidade imaterial situada na cabeça; alma] y su afúrugu [duplo espiritual; anjo da guarda] pero con aureola débil e incapaz de convivir con el medio que le rodea. Esta energía que protege el cuerpo del recién nacido deberá estar al cuidado de su progenitor por espacio de ocho días, período durante el cual el aura del neonato se fortalece con vitalidad solar y el influjo espiritual de su padre” (Suazo, 1992, p.12). Alguns estudos no Brasil já chamaram a atenção para a participação e o envolvimento de intelectuais em processos de legitimação de tradições culturais religiosas ou populares. Sobre a contribuição de pesquisadores, especialmente na Bahia, para a construção da ideologia da “pureza nagô”, tradição tida como a mais íntegra e expressão máxima da africanidade, ver Dantas (1988); reflexão semelhante a respeito do papel dos folcloristas na crença de uma suposta existência pretérita de um auto popular no Bumba Meu Boi, ver Cavalcanti (2012).

[78Entre 1984 e 1989, Ruy Coelho assumiu as funções de “catedrático convidado” no Museu e Laboratório Antropológico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, em Portugal.

[79Cf. Pontes (1990); Massi (1989); Corrêa (2013).

[80Sobre a centralidade da “construção da nação” (nation-building) na antropologia brasileira, ver Peirano (1992).

[81Até onde posso saber, as menções ao trabalho de Ruy Coelho ficaram circunscritas a balanços bibliográficos nas ciências sociais brasileira elaborados por Fernandes (1975) e Candido (2006). Em As Américas Negras (1974), Roger Bastide faz uso dos dados etnográficos do estudo de Ruy Coelho para redigir um curto subcapítulo sobre os caraíbas negros, no qual o sociólogo francês discute as relações estabelecidas entre populações negras e indígenas no continente americano.

[82Cf. Silva (2012); Peixoto (2015); Petschelies (2019); Alves Pinto (2020).

[83A inspiração para o exame de tal aspecto provém das propostas historiográficas defendidas por Márcio Goldman, Eduardo Viana Vargas e Haroldo de Campos. Cada um a seu modo e no interior de suas respectivas áreas de atuação, os autores propugnam um conjunto de intervenções e operações intelectuais interessadas em surpreender, respectivamente, “o que pode haver de mais interessante numa obra para uma determinada época (a nossa), reativar para o presente algumas ideias, algumas intuições às vezes, que podem funcionar como linhas de fuga e de força para nossos impasses contemporâneos” (Goldman, 1994, p. 32); a possibilidade de ideias “serem criativamente retomadas em outros contextos” (Vargas, 2000, p. 27) ou o vínculo de ideias com as “necessidades criativas do presente” (Campos, 1977, p. 207), em um “constante e renovado questionar da diacronia pela sincronia” (Campos, 1989, p. 63).

[84Para citar apenas um exemplo: Steil; Gomes; Carvalho (2012). E, também, o dossiê temático sobre “cultura e aprendizagem” veiculado pela revista Horizontes Antropológicos. Cf. Horizontes antropológicos (2015).

[85Cf. Coelho (1989).