Pluralidade religiosa no Brasil: Uma história do Instituto de Estudos da Religião (ISER), entre ativismo político e ciência social

Regina Novaes

UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro); CNPq

Emerson Giumbelli

Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Christina Vital da Cunha

LePar – Laboratório de Estudos em Política, Arte e Religião; Universidade Federal Fluminense (UFF)

2021

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Pour citer cet article

Cunha, Christina Vital da, Emerson Giumbelli & Regina Novaes, 2021. “Pluralidade religiosa no Brasil: Uma história do Instituto de Estudos da Religião (ISER), entre ativismo político e ciência social”, in Bérose - Encyclopédie internationale des histoires de l'anthropologie, Paris.

URL Bérose : article2403.html

Publié dans le cadre du thème de recherche «Histoire des anthropologies au Brésil», dirigé par Stefania Capone (CNRS, CéSor) et Fernanda Arêas Peixoto (Universidade de São Paulo)

Em 2020, o Instituto de Estudos da Religião (ISER) completou cinquenta anos e os diferentes integrantes desta história estão juntos em uma comemoração intergeracional na qual tem sido possível discutir o passado e pensar o futuro desta organização que foi - e continua sendo - um lugar de encontros, passagens, encruzilhadas de temas e pessoas que contribuíram destacadamente para pesquisas em religião e para a defesa de direitos humanos no Brasil.

De mãos dadas com organizações não governamentais e universidades do sul e norte globais, com a experiência singular de combinar as competências exigidas de um centro de pesquisa e o ativismo que caracteriza uma organização da sociedade civil, o ISER tem se proposto aliar a produção de novos conhecimentos com múltiplas ações que levam à valorização da diversidade religiosa, racial, étnica e de gênero.

O ISER foi criado em 1970 como uma rede informal de personalidades acadêmicas e outros estudiosos brasileiros de diversas sensibilidades e proveniências, desde teólogos a pastores cristãos, filósofos, antropólogos e sociólogos, que vêm se unindo pelo interesse em promover a pesquisa e a reflexão sobre as diferentes religiões no Brasil. De início dedicado ao catolicismo e ao protestantismo, o ISER ampliará esse interesse em direção às religiões afro-brasileiras, ao pentecostalismo, ao espiritismo, ao islã e às religiões indígenas.

Em sua primeira década de existência, o ISER promoveu seminários e editou várias publicações. Aos poucos, foi adquirindo existência pública, constituindo sua assembleia de sócios e registrando seu Estatuto, que estabeleceu como sua sede a cidade de Campinas, localizada no interior do Estado de São Paulo. Mas, foi somente no início dos anos de 1980, quando se transferiu para o Rio de Janeiro, que o ISER logrou uma maior consolidação institucional afirmando-se em suas duas dimensões complementares: pesquisa e intervenção social. Como Centro de Pesquisa, já nos meados da década de 1980, o ISER se filiou à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), conquistando o reconhecimento acadêmico. Ao mesmo tempo, também a partir dos meados dos mesmos anos de 1980, o ISER passou a se definir como uma Organização Não Governamental (ONG) e, nessa condição, atuando em parceria com outras organizações da sociedade civil, participou ativamente do processo de formação da Associação Brasileira das Organizações não Governamentais (ABONG), fundada em 1991.

No decorrer do tempo, consolidando esse perfil híbrido, o ISER enfrentou os desafios impostos por diferentes conjunturas políticas e mudanças de governos e, também, foi pioneiro em identificar as significativas transformações que ocorreram no campo religioso brasileiro.

No que diz respeito às religiões, em 1970, ano da criação do ISER, segundo dados oficiais fornecidos pelo Recenseamento Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os católicos somavam 92% da população do Brasil. Contudo, nas décadas posteriores, o catolicismo foi perdendo seu histórico lugar hegemônico e o último Recenseamento, realizado em 2010, registrou apenas 65% de católicos. Em contrapartida, no mesmo período, os evangélicos passaram de 5% a 22% e os respondentes que se declararam “sem religião” passaram de 1% a 8%.

Tais mudanças trouxeram novas indagações sobre as relações entre religião, cultura e política fazendo aumentar o interesse acadêmico pelo tema e reservando um lugar destacado para o ISER no estudo das religiões no Brasil. Com o passar do tempo, demonstrando uma notável capacidade de se reciclar para responder a novas questões, o ISER foi se afirmando tanto como produtor de informações e análises quanto como um importante ponto de referência para o debate público sobre as transformações religiosas e seus efeitos políticos na sociedade brasileira. Além disso, o ISER também é hoje reconhecido como um espaço de formação de diferentes gerações de pesquisadores, como é o caso dos/as três autores/as do presente artigo que ingressaram nele em décadas sucessivas. Sendo assim, considerando diferenças geracionais e levando em conta as diferentes fases de nossas vivências na instituição, optamos por apresentar aqui uma narrativa que privilegia o enfoque cronológico.

Com o objetivo de apresentar as principais continuidades e transformações que caracterizam a longa vida do ISER, destacaremos os principais aspectos que marcaram suas diferentes décadas. Para tanto, recorremos às nossas memórias e também buscamos suportes nos acontecimentos históricos, nas mudanças no cenário político e no campo religioso, nos registros de eventos institucionais e, sobretudo, nas publicações do ISER, com destaque à revista Religião & Sociedade, periódico científico que se dedica ao estudo das religiões nacional e internacionalmente, e que conta com o reconhecimento da comunidade acadêmica.

Contudo, sabemos que não estamos apresentando um trabalho conclusivo. Não esgotamos as referências empíricas, nem exploramos as muitas possibilidades de análise da rica história do ISER. Considerando este artigo como uma contribuição ao debate, nossa esperança é que sua leitura desperte outras memórias e incentive novas reflexões sobre os estudos das religiões no Brasil, dando a conhecer essa instituição a um público internacional mais alargado.

Década de 1970: as pesquisas sobre religião em tempos de repressão política

O Brasil entrou na década de 1970 em plena ditadura civil-militar, iniciada em 1964. O regime autoritário, consolidado em 1968 por meio do fechamento do Congresso Nacional, se sustentava por meio de expedientes de intimidação e de repressão política. A hierarquia da Igreja Católica - temendo a “chegada do comunismo” - apoiou o golpe na primeira hora. Porém, nos anos de 1970, a perseguição política a católicos progressistas gerou tensões e desencadeou um progressivo afastamento entre a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) da Igreja Católica e os governos militares. Por outro lado, em algumas igrejas protestantes históricas, os membros críticos ao regime militar não encontraram acolhimento, sendo até denunciados por pastores locais.

Frente a esse quadro repressivo, em 1970, com apoio do Conselho Mundial de Igrejas [1], um grupo de estudiosos católicos e protestantes de diferentes denominações, com dificuldades em suas igrejas, criou o Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET). Segundo Waldo César (1991: 17), o objetivo do grupo era “desenvolver pesquisas interdisciplinares que tenham uma contribuição a oferecer à teologia”. Dois anos depois, alargando suas interlocuções e incorporando filósofos, antropólogos e sociólogos, o ISET se transformou em ISER, Instituto Superior de Estudos da Religião. A mudança de nome indicava que seu objetivo não se restringia mais ao campo de estudos da teologia. Incorporando a perspectiva das ciências sociais, o ISER passou a indagar como as religiões poderiam “se articular, impedir ou contribuir com os processos de mudança em curso na sociedade brasileira” (Novaes, 2002:155).

Se as estatísticas dos anos de 1970 ainda sustentavam a imagem de um Brasil dominantemente católico, essa hegemonia abrigava múltiplas formas de viver o catolicismo e convivia com a presença culturalmente marcante do espiritismo kardecista e das religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé. As igrejas protestantes, sobretudo as pentecostais, davam os primeiros sinais de uma irreversível expansão entre os mais pobres. Eram, portanto, muitas as transformações a serem compreendidas.

Nesse cenário, contando também com o apoio da Pontifícia Comissão de Justiça e Paz, criada em 1972 em São Paulo, criou-se um programa de pesquisas intitulado “Religiões e Mudanças Sociais”, que passou a ser o objetivo central e aglutinador do ISER. Para levar adiante esse Programa, o Instituto contava com a liderança de Rubem Alves (1933-2014). Pastor presbiteriano, autor de vários livros, entre os quais se destaca o seu Protestantismo e Repressão (Alves, 1979), notabilizou-se como estudioso de teologia, filosofia e psicanálise. Foi um dos fundadores e o primeiro presidente do ISET e, depois, presidente e secretário executivo do ISER, até 1978.

O objetivo do Programa “Religiões e Mudanças Sociais” era acolher e estabelecer pontos comuns de reflexão entre projetos de pesquisa que seus sócios já levavam adiante individualmente ou em grupos de pesquisa vinculados a outras universidades e espaços institucionais. Para promover o intercâmbio entre os sócios e os demais pesquisadores, o ISER também organizava seminários e publicações que ampliavam seu alcance.

Os Seminários eram realizados em São Paulo, no Instituto Metodista, e em Campinas, por vezes na casa de Rubem Alves. Por exemplo, o Seminário intitulado “Religião e Mudança Social”, realizado no ano de 1975, teve trinta participantes de diferentes cidades do país e contou com quinze comunicações, que versavam sobre protestantismo, catolicismo, religiões afro-brasileiras e messianismo.

Esse mesmo Seminário contou com a significativa presença de pesquisadores do Centro de Estudos da Religião (CER). Fundado em agosto no mesmo ano de 1975, sob a liderança do sociólogo Duglas Teixeira Monteiro (1926-1978) [2], professor da Universidade de São Paulo (USP), o CER reunia pesquisadores da religião vinculados à USP, como o sociólogo Lísias Negrão (1942- 2015), e à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), como as antropólogas Josildeth Consorte e Maria Helena Villas Boas Concone.

Quanto à divulgação das pesquisas e debates, em 1974 iniciou-se a publicação dos Cadernos do ISER, sob a coordenação de Waldo A. César (1923-2007), sociólogo e jornalista, também ligado ao movimento ecumênico nacional e internacional. Para a publicação dos Cadernos do ISER também foi muito importante o apoio do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) e da Editora Tempo e Presença [3]. Os Cadernos do ISER eram confeccionados nessa editora e sua distribuição era realizada como suplemento do Boletim Mensal de Notícias Ecumênicas (CEI). Tais publicações e os “Seminários do ISER” se retroalimentavam conectando temas e participantes.

Nessas iniciativas, que buscavam ampliar a compreensão das mudanças no campo religioso, pesquisadores ligados a entidades protestantes e católicas se aliavam e ultrapassavam barreiras confessionais. Por exemplo, o livro de Waldo César, intitulado Por uma Sociologia do Protestantismo Brasileiro (1973), foi publicado pela Vozes, uma editora católica. Por outro lado, uma resenha sobre esse livro de Waldo César foi escrita por Pedro Ribeiro de Oliveira, então pesquisador do Centro de Estatísticas Religiosas (CERIS), entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da Igreja Católica.

No mesmo percurso institucional, o ISER também atraiu outros pesquisadores das universidades interessados no estudo de fenômenos religiosos. Nesse intercruzamento, podemos citar dois exemplos. O antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, egresso dos quadros militantes da juventude católica, professor universitário que desenvolvia estudos sobre catolicismo popular, se tornou secretário-executivo do ISER entre 1973 e 1975. Já Peter Fry, antropólogo inglês, então professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), interessado no estudo das religiões afro-brasileiras, foi convidado para o Conselho Editorial de Cadernos do ISER.

Já perto do final da década, os objetivos institucionais eram assim descritos: “promover estudos e pesquisas no campo da educação, da cultura e da religião” (César, 1991:18). Ao nosso ver, a categoria “cultura” tornou-se um ponto de intersecção que facilitava a comunicação de religiosos com pesquisadores que não estavam diretamente envolvidos com as disputas entre correntes que se davam no interior do campo religioso.

Foi nesse cenário de ampliação de interlocuções e de abordagens que, em 1977, nasceu a revista Religião & Sociedade. Para levar adiante essa iniciativa, Rubem Alves, então presidente do ISER e professor de filosofia da UNICAMP, contou com Rubem César Fernandes que, no ano anterior, voltara dos Estados Unidos para ser professor na mesma universidade. A eles se associaram outros acadêmicos como o já referido Peter Fry, o historiador Jaime Pinski e a antropóloga Alba Zaluar (1942-2019) que – depois de defender, na Inglaterra, sua tese de doutorado de antropologia sobre religiosidade popular no Brasil – torna-se professora da UNICAMP.

Na mesma ocasião, ampliaram-se também relações do ISER e da revista Religião & Sociedade com pesquisadores internacionais voltados para os estudos das religiões, tal como o historiador ítalo-norte americano Ralph Della Cava, da Universidade da Cidade de Nova York. Um bom exemplo dessa cooperação internacional pode ser encontrado em três números de Religião & Sociedade (números 5, 6 e 7, anos de 1979 e 1980) no quais se publicou uma inédita documentação reunida por Ralph Della Cava, para compor o Arquivo Charles Antoine, a pedido do centro de documentação Diffusion de l’information sur l’Amérique latine (DIAL) [4]. Trata-se de um exaustivo levantamento do noticiário de jornais sobre a relação Igreja/Estado no Brasil durante a ditadura.

Duglas Teixeira Monteiro foi uma presença marcante nos primeiros Seminários do ISER, em Cadernos do ISER e na revista Religião & Sociedade, até seu falecimento em 1978 em um acidente ocorrido em/no Recife (capital do Estado de Pernambuco), onde se encontrava em missão acadêmica. Em sua homenagem, o número 4 de Religião & Sociedade, publicado em outubro de 1979, reúne oito textos de reconhecidos pesquisadores de diferentes universidades e áreas das ciências humanas. No mesmo número, os editores de Religião & Sociedade também expressam seu “sentimento de mutilação” (:7), causado pela morte de Duglas.

O número 4 da revista (1979) também merece atenção por seu Editorial intitulado “As marcas de Religião & Sociedade”. Escrito em duas páginas, esse texto, sem negar “a profundidade das reflexões elaboradas em círculos religiosos”, (re)posiciona a revista no “terreno das ciências”. Ali os editores afirmam: “fazemos aqui ciência da religião. Há religiosos entre nós e muitos dos que aqui escrevem estão engajados nas disputas ideológicas que dividem o campo religioso brasileiro; mas ao entrarem no terreno das ciências, eles se submetem a regras de comunicação que são diferentes daquelas que prevalecem nas organizações eclesiásticas” (:7).

No mesmo Editorial, coloca-se em “pé de igualdade” o cristianismo, o islamismo, as religiões afro-brasileiras, as religiões indígenas. Afirmando que, “embora tratando de religião”, a revista não se identifica com qualquer “grupamento confessional” e se propõe a pensar todas as alternativas religiosas como “sistemas de crença e de prática ritual em princípio igualmente valiosas” (:7).

Em seguida, reconhecendo também que nos “meios científicos” existem “valores e limitações que lhes são próprios”, os editores afirmam não querer fazer parte de “uma casta” que detém “o monopólio do conhecimento”, pois “o processo de conhecimento ocorre em todos os níveis da sociedade”. Enfatizando a importância do tema da “cultura popular”, afirma-se a opção por uma perspectiva crítica possibilitada pela “diversidade de pontos de vista”. Por fim, concluem com a “esperança de poder contribuir para a resistência contra novas formas possíveis de dominação etnocêntrica” (1979:8)

Ao nosso ver, certas expressões contidas nesse Editorial – tais como “sistema de crença e prática ritual”, “diversidade de pontos de vista” e “dominação etnocêntrica” – indicam uma progressiva aproximação da revista Religião & Sociedade – e do ISER – da abordagem antropológica para o estudo das religiões. Aproximação que se acentuará nos anos seguintes com a transferência da revista e da sede do ISER de Campinas para o Rio de Janeiro.

Década de 1980: novos temas e atores em tempos de transição democrática

Sob a ditadura civil-militar, o Brasil conheceu um desenvolvimento inédito, ancorado em grande concentração de renda e brutal endividamento externo. Em consequência, em meio a uma grave crise econômica e política, despontaram no país várias formas de contestação ao regime militar. Os primeiros anos da década de 1980 foram marcados pelo ressurgimento do movimento estudantil e do movimento operário, pela fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e pela Campanha pela Anistia de presos e exilados políticos. Porém, derrotada em 1984 a emenda constitucional que aprovaria as eleições diretas, a transição democrática se fez por meio de uma eleição indireta de Tancredo Neves para a Presidência da República.

Iniciou-se então um desafiante período de reconstrução da vida política no país cuja importância se evidenciou na promulgação, em 1988, dessa Lei maior que – por conter um sólido compromisso democrático, indicações para políticas de reconhecimento e de participação de diferentes atores sociais e uma clara defesa de direitos humanos – ficou conhecida como “Constituição cidadã”.

Nesses anos marcados por lutas de resistência, pelo final da ditadura militar (1984) e início do período conhecido como Nova República (1985), com uma nova Constituição Federal (1988), surgiram também questões sobre as relações das religiões com o processo de construção do espaço público democrático, como por exemplo: qual era a importância política da ala progressista da Igreja Católica? Como compreender o crescimento dos evangélicos pentecostais nas camadas populares? O que dizer do papel político das organizações que reuniam terreiros de umbanda e candomblé? Como símbolos e rituais religiosos se evidenciavam nos acontecimentos políticos da sociedade brasileira? Tais preocupações permearam as atividades do ISER, agora com sede no Rio de Janeiro.

A transferência do ISER para o Rio de Janeiro foi aprovada pela assembleia de sócios em 1979 e esteve diretamente relacionada à mudança de Rubem Cesar Fernandes – então presidente do ISER – para a mesma cidade. Em 1980, Fernandes, que se tornou professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, convidou Patrícia Birman, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), antropóloga e pesquisadora na área das religiões afro-brasileiras, para compor também a direção do ISER, ao lado de Pedro Ribeiro de Oliveira e de Waldo César, que já participavam da instituição.

Em 1982, Pierre Sanchis (1928-2018), antropólogo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, assumiu a Presidência do ISER e também passou a coordenar os Seminários que tinham como tema as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ligadas à Igreja Católica [5]. Na mesma diretoria, assumiu o lugar de Secretária a antropóloga Regina Novaes, então professora da Universidade Federal da Paraíba, estudiosa do pentecostalismo, que naquele momento preparava sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo sobre o significado político-religioso das CEBs no meio rural.

De Campinas, o ISER trouxe o Programa “Religiões e Mudanças Sociais” que – sob a coordenação do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão – incluía pesquisas realizadas por vários estudiosos vinculados às universidades ou a outros centros de pesquisa. O ISER arcava apenas com os custos das reuniões da equipe e se responsabilizava pela publicação dos textos produzidos. Para tanto, naquele momento, contava-se com os já citados recursos do Conselho Mundial de Igrejas (Genebra) e das seguintes agências de cooperação internacional [6]: Comitê de Serviços à Sociedade (Stuttgart, Alemanha Ocidental); Fundação de Educação Teológica (Londres); Igreja Presbiteriana Unida dos Estados Unidos da América (Nova Iorque).

No Rio de Janeiro, o ISER foi criando outros Projetos e Grupos de Trabalho. Porém, nos anos de 1980, como ele vivia por meio de uma combinação de trabalho voluntário e trabalho pontualmente remunerado, não pôde se estruturar em programas permanentes. Na verdade, na primeira metade daquela década, a instituição foi se organizando por meio de rearranjos internos periódicos.

Em 1986, segundo informa seu então secretário executivo Pedro Ribeiro de Oliveira (1986: 80-83), os principais Programas do ISER eram os seguintes:

1) Catolicismo no Brasil Atual, coordenação do antropólogo Pierre Sanchis;
2) Protestantismo e Ecumenismo no Brasil, coordenação do sociólogo Waldo Cesar;
3) Assessoria e Organizações Religiosas, coordenação do antropólogo Carlos Steil;
4) Religião e Movimento Negro, coordenação da antropóloga Caetana Maria Damasceno;
5) Diversidade Religiosa Brasileira, coordenação da antropóloga Leilah Landim;
6) Mulher, Religião & Sociedade, coordenado pela teóloga Tereza Cavalcanti e pela socióloga Gabriela Leite (1951-2013).

Na mesma época, coordenado por Rubem César Fernandes, ganhou destaque no ISER o Programa Publicações que mantinha as seguintes revistas:

1) Religião & Sociedade, fundada em 1977, editada em colaboração com o Centro de Estudos Duglas T. Monteiro (CER), com apoio de duas agências nacionais de fomento à produção científica – a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) – com periodicidade de três números anuais; [7]
2) Cadernos do ISER, publicação existente desde 1972, com números monográficos reservados a temas e/ou resultados de pesquisa do ISER (ou de parceiros) que a comissão editorial (interna ao ISER) julgasse importante divulgar. Sua periodicidade não é pré-definida;
3) a revista Comunicações do ISER, criada em 1982 com o objetivo de publicar artigos breves (em torno de 10 páginas) que trouxessem resultados preliminares de pesquisas em andamento; abordassem de maneira exploratória acontecimentos do momento ou debates sobre questões polêmicas. A ideia era produzir um novo e dinâmico espaço de intercâmbio e reflexão. Publicava-se até 6 números anuais [8].

Considerando as características das publicações do ISER, selecionamos abaixo alguns exemplos que podem contribuir para a maior compreensão das relações do ISER com o que se passava no Brasil na década de 1980.

O número 6 de Religião & Sociedade, publicado em 1980, traz, em mais de 60 páginas, a edição de um debate sobre o papel da Igreja Católica durante a greve dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, Estado de São Paulo, no mesmo ano. A redação do documento ficou a cargo da professora da USP e socióloga Heloisa Helena de Souza Martins que, já no prólogo da edição, esclarece seu objetivo: “dar vez e voz a operários e padres” que apoiaram a campanha salarial da categoria, ainda no regime militar (Souza Martins, 1980:7). Este documento histórico nos permite confirmar o importante papel do chamado “setor da Igreja progressista Católica” – por meio de suas pastorais e comunidades eclesiais de base – nas lutas de resistência pela democratização do país.

Simultaneamente outra publicação, no mesmo ano, mostra uma dimensão diversa do catolicismo, abordando a primeira visita de um Papa ao Brasil. Em 1980, a presença de João Paulo II, o “Papa polonês”, motivou uma série de encontros e pequenas pesquisas na instituição cujos resultados foram reunidos em uma edição intitulada ’O Papa no Brasil, aspectos sociológicos’ (Cadernos do ISER, número 11, 1980). Na apresentação ao número, Rubem Cesar Fernandes esclarece seu propósito dizendo: “não dá para entender esta sociedade sem maior conhecimento de suas religiões” (:6). Ou seja, no ISER advogava-se que para conhecer mais o Brasil era preciso conhecer melhor as várias maneiras como são vivenciadas suas religiões.

O número traz ainda uma pesquisa inédita que reuniu sete alunos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, sob a coordenação de Rubem Cesar Fernandes. A equipe realizaria uma pesquisa etnográfica em uma favela visitada pelo Papa com o objetivo de entender “como os moradores se mobilizaram para recebê-lo e como interpretaram o que se passou” (Cadernos do ISER, número 11:99-132).

Já os números 2 e 3 de Comunicações do ISER foram dedicados ao tema “Religiões e as Eleições de 1982”. Os artigos contemplavam observações sobre as eleições entre evangélicos, comunidades eclesiais de base católicas e terreiros de umbanda e candomblé. O mesmo tema também foi analisado a partir de cartilhas políticas diocesanas, festas populares e relações raciais.

No número 3, Roberto da Matta (1936-) – antropólogo, professor do PPGAS/Museu Nacional – escreveu “Uma nota sobre o voto amigo”, trazendo uma interpretação antropológica sobre a inclusão de seu nome em um “manifesto de intelectuais em apoio a um dado candidato a governador do Estado do Rio de Janeiro (...) por quem o autor “não tinha nenhuma simpatia” (Comunicações do ISER, número 3, 1982:3). A contribuição de Roberto da Matta indicava a disposição do ISER de incentivar reflexões sobre símbolos religiosos para além do circuito dos pesquisadores da religião.

De fato, interessava ao ISER debater como o fenômeno religioso – enquanto manifestação sociocultural – se expressava em diferentes situações e linguagens, inclusive na linguagem cinematográfica. Em 1984, o número 10 de Comunicações do ISER foi dedicado ao tema das relações entre cinema e religião. Reunindo vários artigos, o número também incluiu um levantamento de filmes de curta metragem brasileiros sobre o tema da “religiosidade popular”. No ano seguinte, o número 16 de Comunicações voltou ao assunto e tratou da diversidade de recursos na área da imagem (televisão, cinema, vídeos) para os registros da religiosidade presente nas populações indígenas e camadas populares urbanas e rurais. O destaque do número foi a entrevista feita com o dramaturgo e escritor Dias Gomes (1922-1999), autor da telenovela Roque Santeiro, que tinha a religiosidade popular como tema central e naquele momento, em 1985, alcançava grande audiência televisiva. Os dois números foram organizados pela antropóloga Patrícia Monte-Mór, especialista no estudo das imagens [9].

Como desdobramento dessa interlocução entre religião e linguagem cinematográfica, nasceu em 1986 a produtora ISER-Vídeo, com a participação de Patrícia Monte-Mór, sob a coordenação de Waldo César e do historiador Mauricio Lissosvsky. Seu objetivo era atender às demandas de projetos e movimentos sociais e, também, de promover exibições e debates em universidades, favelas, presídios e festivais. Entre os filmes produzidos pelo ISER-Vídeo destacam-se: Santa Marta - Duas semanas no morro (1987) e Volta Redonda - Memorial da greve (1989), ambos dirigidos por Eduardo Coutinho; O Lixo é Nosso (1990), dirigido por José Inácio Parente; Oxalá Jesus Cristo, dirigido por Ana Maria Galano (1989); Nossa América, dirigido por Silvio Da Rin (1989); assim como uma série de seis filmes sobre Comunidades Eclesiais de Base e Teologia da Libertação, dirigidos por Xico Teixeira (1987 e 1989).

Simultaneamente, com a perspectiva de recolher contribuições e ampliar a reflexão sobre a dimensão religiosa presente na sociedade brasileira, buscava-se conectar o ISER aos grandes acontecimentos nacionais. Nesse sentido podemos citar a publicação intitulada “Nossas preces por Tancredo”. Como já foi dito, em 1984, apesar da grande mobilização nacional, a Emenda por Eleições Diretas foi rejeitada no Congresso Nacional e, no ano seguinte, o mineiro Tancredo Neves (1910-1985) foi eleito presidente da República por via indireta. Mas, o eleito adoeceu e faleceu antes de tomar posse. Sua morte causou grande comoção nacional e gerou inúmeras manifestações populares que combinavam representações cívicas, seculares e religiosas. Nos textos que compõem a publicação, teólogos e cientistas sociais analisam a cultura brasileira a partir das narrativas, rituais e símbolos religiosos envolvidos nos funerais do presidente (Comunicações do ISER, nº 14, 1985).

Além disso, a despeito de ampliar interlocuções com pesquisadores de outras áreas e incluir a linguagem cinematográfica como fonte de reflexão sobre o fenômeno religioso na sociedade brasileira, o ISER não deixou de prestar atenção às transformações que vinham ocorrendo especificamente nos espaços das religiões. Com o objetivo de mapear as novas dinâmicas da diversidade religiosa na sociedade brasileira, uma pesquisa, sob a coordenação de Leilah Landim, estava em curso, mas seus resultados só viriam a público nos anos de 1990.

Restringindo-nos por ora aos anos de 1980, a título de exemplos, citaremos a seguir publicações do ISER sobre evangélicos, sobre religiões de matriz africana e, por fim, sobre catolicismo.

1. Sobre o PROTESTANTISMO/PENTECOSTALISMO. Em uma edição especial de Comunicações do ISER, de 1985, intitulada “O Negro Evangélico”, Regina Novaes e Maria da Graça Floriano, ancoradas em uma pesquisa feita na instituição, analisam o racismo no interior do protestantismo histórico, tocando em um tema até então não estudado. Por outro lado, trabalhadores rurais pentecostais do nordeste do país são os protagonistas de “Os Escolhidos de Deus”, de Regina Novaes, publicado como Cadernos do ISER, número 19, em 1985. Na literatura disponível, os chamados “crentes” tinham sido estudados apenas nas grandes cidades brasileiras.

Ainda sobre evangélicos, além de artigos publicados em edições esparsas, merece destaque o número 24 de Comunicações do ISER, de março de 1987, que oferece um panorama da “diversidade de organizações, cultos, teologias, visões de mundo que compõem o painel histórico e a atualidade do universo protestante” (:3). A publicação é apresentada como “fruto dos debates do grupo que integra o Programa de Protestantismo do ISER” e mapeia as novas questões evidenciadas pelo crescimento do pentecostalismo no Brasil.

2. Sobre as RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS. Em 1987, foi publicado o número 18 de Cadernos do ISER com quatro trabalhos dedicados à presença das federações umbandistas na esfera política. Tais federações – com suas segmentações e ambiguidades – buscavam legitimar (e legalizar) suas correntes religiosas historicamente marcadas pelo estigma e pela perseguição policial no Brasil. O número traz um capítulo da tese pioneira da pesquisadora americana Diana Brown, Umbanda: Politics of an Urban Religious Movement, defendida na Columbia University em 1974, que se tornou referência obrigatória para os estudos da umbanda no Brasil. No mesmo número, os sociólogos Lísias Negrão e Maria Helena Villas Boas Concone, do Centro de Estudos da Religião Duglas Teixeira Monteiro (CER), analisam o envolvimento político-eleitoral de umbandistas em São Paulo. Já as pesquisadoras do ISER, Patricia Birman, Zélia Seiblitz e Leni Silverstein apresentam artigos baseados em uma pesquisa sobre as federações umbandistas no Grande Rio, que contou com o apoio da Fundação Ford e do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq).

Contribuições sobre o candomblé também foram divulgadas em diferentes publicações do ISER. Como exemplo podemos citar Comunicações do ISER, ano 8, número 34, de 1989, onde estão três artigos sobre o tema, incluindo um texto de Stefania Capone sobre a iniciação no candomblé da Bahia (Capone, 1989). No que diz respeito aos estudos das religiões de matriz africana ou afro-brasileiras no ISER, é importante notar a paulatina aproximação entre esses estudos e o apoio a iniciativas voltadas para o combate ao racismo no Brasil. Não por acaso, já nos anos 1980, como dito acima, o nome do Programa era “Religião e Movimento Negro”. Esse Programa veio a contar com apoio das agências de cooperação internacional como Christian Aid (Inglaterra) e ICCO Organização Interclesiástica para a Cooperação ao Desenvolvimento (Holanda).

3. Sobre o CATOLICISMO. No que diz respeito ao catolicismo, no ISER dos anos 1980, merecem destaque duas iniciativas e uma publicação. A primeira iniciativa remete ao Grupo de Estudos do Catolicismo (GEC), que reunia sociólogos, teólogos, antropólogos e historiadores, coordenados por Pierre Sanchis. A partir de um projeto comum, intitulado “Modernidade e Igreja na Crise da Sociedade Brasileira”, cada participante desenvolvia um subtema específico, tais como: embates no interior da Igreja Católica, conceitos e experiências em torno da Teologia da Libertação, relações da Igreja com o Estado e com os movimentos sociais.

O GEC se reunia periodicamente para discussões de resultados parciais trazidos por cada pesquisador. Dessa maneira, foi possível traçar uma radiografia coletiva das permanências e mudanças do catolicismo no Brasil. Os trabalhos finais foram publicados em livros no decorrer dos anos de 1990. O GEC funcionou por meio dos financiamentos individuais obtidos pelos seus membros e, também, foi apoiado pela FINEP e pela Adveniat, da Holanda, por recomendação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Como segunda iniciativa, destaca-se o “Programa Assessoria às organizações de base e entidades religiosas” (criado em 1983) que, sob a coordenação do antropólogo Carlos Alberto Steil, reunia os teólogos Clodovis Boff, Faustino Teixeira e Paulo Fernando; os sociólogos Pedro Ribeiro de Oliveira e Ivo Lesbaupin e as sociólogas Solange Rodrigues e Lúcia Ribeiro. Com recursos de organizações internacionais católicas e ecumênicas, o Programa oferecia cursos, palestras e seminários voltados para a formação de quadros católicos militantes e, também, realizava pesquisas de avaliação em dioceses, entidades e movimentos populares. Seu objetivo geral era oferecer subsídios para o fortalecimento da vertente progressista – ligada à Teologia da Libertação – no interior da Igreja Católica no Brasil.

De fato, nos anos de 1980 foram muitos os momentos de tensão entre as chamadas vertentes conservadoras e progressistas do catolicismo no Brasil. Em 1985, foi marcante o Ato de Solidariedade ao teólogo Leonardo Boff que havia sofrido censura pelo Vaticano. Com a participação do ISER, o ato reuniu mais de 2 mil pessoas no auditório do Instituto Metodista Bennett, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, a revista Religião & Sociedade (nº 12/3, 1986) publicou a edição de um encontro entre os antropólogos Rubem Cesar Fernandes, Alba Zaluar e Otávio Velho que entrevistaram uma teóloga, um padre e um ex-padre para conversar sobre o embate entre o Vaticano e Leonardo Boff. O objetivo desse encontro foi entender “a capacidade que o Vaticano tinha de pedir a um dos seus membros que se calasse e, por outro lado, a obediência efetiva de Leonardo Boff” (:110). Em sua edição, o debate aparece na revista com o seguinte título: “O caso Boff: o sentido da obediência. Entrevista com Maria Clara Bingemer, Padre Ivern e Pierre Sanchis”.

A rigor, os anos de 1980 foram definidores para os rumos institucionais do ISER. Não por acaso, as assembleias de sócios reunidas naquele período deram lugar a acalorados debates sobre questões interligadas: o ISER deveria se manter pequeno e funcionando baseado em grupos de estudos e colaboradores voluntários? Ou devia continuar crescendo e profissionalizando seus colaboradores? O ISER deveria se firmar mais como um produtor de conhecimento? Ou deveria se caracterizar como uma ONG de apoio a atores e movimentos sociais?

A conclusão foi de que a instituição deveria crescer combinando pesquisa e intervenção social. A partir daí, o ISER passou a assumir publicamente o seu duplo objetivo: garantir excelência acadêmica e, simultaneamente, contribuir para o fortalecimento da sociedade civil. Para dar conta desses dois desafios, nos anos de 1990 o ISER passou a se estruturar em Áreas e Programas que fizeram aumentar tanto o número de pesquisadores/ativistas, quanto o número de ativistas/pesquisadores.

No pátio, nos corredores e nas festividades do ISER passaram a se encontrar intelectuais da academia, padres, freiras, pastores, teólogas, lideranças de travestis, prostitutas, grupos feministas e pessoas de diferentes vertentes do movimento negro. Nesse cenário, novas perguntas foram sendo formuladas sobre o lugar das religiões na sociedade, incluindo seus espaços de combate ao racismo, de organização de profissionais do sexo, de prevenção à epidemia de AIDS, de lutas pela preservação do meio ambiente, entre outras que se evidenciaram na década de 1990.

Década de 1990: visibilização dos evangélicos e novas articulações da sociedade civil

Na década de 1990, o Brasil enfrenta os desafios estabelecidos pela nova Constituição Federal (1988) e suas promessas: ampliação de direitos e pluralização da sociedade. Consolidado como uma das principais ONGs brasileiras, o ISER tinha nesse período a maior parte de seu financiamento proveniente de fontes estrangeiras – com destaque para Conselho Mundial de Igrejas (Suíça), Christian Aid (Inglaterra), ICCO (Holanda), Fundação Ford, Fundação Rockefeller e Fundação Interamericana (EUA). A atuação social ganha nova escala com o protagonismo da instituição na criação do Viva Rio em 1993, uma organização da sociedade civil que teria papel importante em ativismos sociais e políticas públicas relacionadas com o enfrentamento da violência urbana no Rio de Janeiro. [10] Em outro plano, o ISER também toma parte de mobilizações como o Fórum Global – que ocorreu paralelamente à ECO-92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento) – e a Ação da Cidadania contra a Fome e pela Vida, conhecida como Campanha contra a Fome, lançada em 1993. As atividades de pesquisa foram valorizadas com a criação do Núcleo de Pesquisa (1991-1996), sob a coordenação de Rubem César Fernandes. Em seguida, ocorre um redimensionamento do ISER, que passa a se organizar em torno de três áreas que mantêm a articulação entre produção de conhecimento e diálogo com a sociedade: religião, associativismo e violência.

Foi no âmbito do Núcleo de Pesquisa do ISER que ocorreram as duas pesquisas de maior impacto para o debate sobre religiões no Brasil. A primeira é o Censo Institucional Evangélico (CIN), um mapeamento das milhares de instituições evangélicas na região metropolitana do Rio de Janeiro. Aliando sistematização de cadastros e pesquisa de campo, o CIN permitiu saber que a cada semana cinco novas igrejas evangélicas estavam sendo criadas. Ambos os dados inexistiam até então.

O relatório com esses dados foi publicado em 1992 e foi o ponto de partida para a realização da segunda pesquisa, batizada de “Novo Nascimento”. Também envolveu a produção de estatísticas, mas agora sobre indivíduos com base em entrevistas domiciliares. Ocorrida em 1994, teve como base 1332 entrevistas na região metropolitana do Rio de Janeiro. A escala dessa pesquisa foi inédita, dependendo de interações com o IBGE (órgão oficial de estatísticas no país) e de uma enorme logística para a pesquisa de campo. Os quesitos cobriram três campos: crenças e práticas religiosas (por exemplo, 70% dos evangélicos foram criados em outras religiões); relações de gênero, estrutura familiar e práticas reprodutivas (por exemplo, 74% das mulheres casadas declaram utilizar algum contraceptivo); atuação cívica e política (por exemplo, evangélicos participam mais de associações de moradores que a população em geral). Os resultados foram publicados no livro Novo Nascimento, os Evangélicos em Casa, na Igreja e na Política (Fernandes et al. 1998).

A importância dessas duas pesquisas foi enorme para o debate sobre as religiões no Brasil. Na década de 1990, os evangélicos despontaram como o segmento mais vigoroso dentro de um processo de rápida transformação religiosa. O IBGE trazia apenas um dado sobre esse processo: o índice de afiliações religiosas. O CIN e o “Novo Nascimento” contribuíram para conferir robustez estatística a percepções mais difusas acerca da expansão evangélica e para confirmar o protagonismo dos pentecostais. Ao mesmo tempo, mobilizou a reflexão de sociólogos e antropólogos para processar o sentido dos números. Além de Rubem César Fernandes, outros importantes antropólogos estiveram envolvidos nas reflexões sobre o “Novo Nascimento”: Regina Novaes, Pierre Sanchis, Otávio Velho e Clara Mafra (1965-2013). Fernandes e Sanchis fazem contribuições na coletânea organizada por Antoniazzi (1994), um marco no debate sobre pentecostalismo.

O ISER buscou produzir outros recenseamentos na década de 1990, mas sem a mesma escala e o mesmo impacto do que as pesquisas sobre os evangélicos. Uma metodologia similar à utilizada para o CIN foi aplicada ao universo de centros espíritas e templos de religiões afro-brasileiras. Essa iniciativa, coordenada por Patrícia Birman, gerou resultados que aproximaram a religião de temas ligados ao associativismo, outra das áreas fortes do ISER, como indicado antes. Tal área cobria um amplo espectro de ações e esferas, do empresarial ao religioso, passando pelas ONGs e iniciativas como a Ação da Cidadania contra a Fome e pela Vida, tal como demonstra o livro Privado porém Público (1994), de Rubem César Fernandes. A pesquisa desses temas ocorreu sob a coordenação de outra antropóloga, Leilah Landim (doutora pelo Museu Nacional e depois professora da Escola de Serviço Social da UFRJ), e cobriu, no caso das religiões, o espiritismo e o catolicismo.

Nesse campo do associativismo, as pesquisas do ISER, sintetizadas no livro Ações em Sociedade (Landim, 1998), conectam-se com debates mais amplos que percorrem o estudo da religião no Brasil. Por um lado, as relações entre religião e política na esfera do catolicismo e do espiritismo, complexificadas pela atenção conferida a distintas formas de ativismo. Responsável pelas pesquisas sobre catolicismo, Regina Novaes cobre com seus trabalhos tanto ações marcadas por valores tradicionais quanto iniciativas nas quais jovens são os protagonistas. Por outro lado, a inserção social dos religiosos e de suas instituições, sinalizando para distintas formas de presença e de legitimação. Emerson Giumbelli conduziu pesquisas sobre o espiritismo, com ênfase nas instituições de assistência social, nos debates polarizados pelas categorias caridade e cidadania e na persistência de atividades terapêuticas nos templos.

É significativo que os evangélicos estejam ausentes nessas pesquisas do ISER sobre relações entre religião e ações sociais. Em contraste com católicos e espíritas, a porção hegemônica no crescimento evangélico no país, representada pelos pentecostais, não estava então associada ao ativismo social e político. Em contrapartida, um dos traços mais salientados em debates antropológicos, ao lado da tendência para vínculos e ações exclusivistas, era a beligerância dos pentecostais em relação a outras religiões. Publicado pela primeira vez em uma revista do ISER, em 1993, o texto de Luiz Eduardo Soares, antropólogo e cientista político, foi um marco para essa discussão: “Dimensões democráticas do conflito religioso no Brasil: a guerra dos pentecostais contra o afro-brasileiro”. Este texto, embora não estivesse ligado a um projeto de pesquisa específico, sinaliza a relação do ISER com os temas do pluralismo e da diversidade religiosa.

Ainda no final dos anos 1980, tais temas ganham concretude na agenda do ISER por meio do projeto “Diversidade Religiosa no Brasil”, cujos resultados foram publicados em três volumes de Cadernos do ISER (números 21, 22 e 23). Distintamente das pesquisas sobre evangélicos da década seguinte, as discussões e textos tiveram bases em metodologias qualitativas, com a participação de vários antropólogos. Foi um projeto importante por chamar a atenção para a existência de tradições e grupos minoritários, como o Santo Daime, reunidos em um compêndio inédito. Ao lado disso, a preocupação com a intolerância religiosa pentecostal já se fazia marcante, como demonstra o texto da historiadora Mariza de Carvalho Soares, significativamente intitulado “Guerra Santa no País do Sincretismo”.

Os temas do pluralismo e da diversidade religiosa não impactam o ISER apenas como objetos de pesquisa, mas fazem parte de seu próprio projeto institucional. Nesse aspecto, há mudanças importantes na passagem para a década de 1990 que apontaram para uma ampliação dos diálogos. O projeto “Diversidade Religiosa no Brasil” envolveu uma parceria com o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), uma entidade que reunia basicamente a Igreja Católica e igrejas protestantes históricas. [11] Em 1992, o ISER é o âmbito no qual surge o Movimento Inter-Religioso (MIR), com um escopo muito mais amplo de tradições e grupos religiosos. O MIR tem sua origem em mobilizações ocorridas durante a realização da ECO-92, quando se realiza a Vigília “Um Novo Dia pela Terra”, com a presença de representantes de vinte e cinco tradições religiosas, incluindo o Dalai Lama. Em seguida, terá participações na Ação da Cidadania e em iniciativas do Viva Rio, conduzindo eventos culturais e religiosos (ver Comunicações do ISER, nº. 63). A composição ampliada do MIR reflete-se na sensibilidade aprofundada para a diversidade religiosa, notadamente no âmbito das pesquisas do ISER. Estão em sintonia com isso os projetos sobre os universos do catolicismo e espiritismo, bem como os grandes estudos sobre os evangélicos, e ainda a preocupação com as novas formas de intolerância religiosa, expressos nas publicações já citadas.

Paralelamente, continuam a ocorrer as atividades do Grupo de Catolicismo (GEC) coordenado por Pierre Sanchis, com resultados em três volumes publicados pela editora Loyola (Sanchis, 1992). O tema privilegiado no começo da década é o do sincretismo, já consagrado nas discussões sobre religião no Brasil. Essa é uma das razões que fazem desse grupo uma referência para diálogos internacionais, com aproximações com Ralph della Cava, John Burdick (Syracuse University) e Kenneth Serbin (University of San Diego), estudiosos do catolicismo. Mas o impacto do crescimento evangélico também se faz sentir nos trabalhos desse grupo, incluindo a interlocução com pesquisadores estrangeiros como Paul Freston (Oxford Centre For Mission Studies, Inglaterra). A presença de práticas sincréticas nos cultos de algumas igrejas pentecostais passa a fazer parte da agenda de pesquisas. Os resultados estão expostos na revista Comunicações do ISER de 1994 e em uma coletânea publicada em 2001, intitulada Fiéis & Cidadãos – Percursos de Sincretismo no Brasil (Sanchis, 2001). O impacto desse grupo também é revelado pela programação do principal evento brasileiro na área das ciências sociais, o encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS). Rubem César Fernandes, Pierre Sanchis, Regina Novaes e Pedro Ribeiro de Oliveira fazem apresentações no grupo de trabalho “Religião e Sociedade” da ANPOCS ao longo da década de 1990.

Outro fato da década é a transformação da Equipe de Assessoria às Organizações de Base e Entidades Religiosas em uma entidade autônoma, o ISER Assessoria. Em sua nova condição, o grupo manteve o foco no universo católico, atuando, por exemplo, junto às paróquias e dioceses. Manteve também uma característica importante de vários grupos que pertenceram ou continuavam a pertencer ao ISER: a articulação entre ativismo ou atuação junto à sociedade civil e produção de conhecimento. Dois de seus integrantes, em parceria com a Editora Vozes, organizaram livros que se tornaram referências para discussões sobre o campo religioso brasileiro e suas transformações (Teixeira e Menezes, 2006, 2009, 2013)

O impacto do ISER no debate antropológico sobre religião também é assinalado pela formação acadêmica daqueles que atuaram em pesquisas do ISER durante a década de 1990. Eis alguns exemplos, todos de pessoas que fizeram seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, um dos mais conceituados no Brasil. Marcelo Camurça, que atuou junto ao MIR e em pesquisas sobre associativismo, fez sua tese sobre organizações comunistas na época da ditadura e utilizou a antropologia da religião para analisá-las. Carlos Alberto Steil, integrante do ISER Assessoria, realizou um estudo sobre um santuário que se tornou referência no campo da antropologia da peregrinação. Clara Mafra, que participou da equipe principal do “Novo Nascimento”, trabalhou sobre vários aspectos da religiosidade evangélica no Brasil e em Portugal. Emerson Giumbelli, que atuou em projetos sobre associativismo, empreendeu uma pesquisa também sobre evangélicos em perspectiva comparativa, discutindo seu impacto para as configurações da liberdade religiosa no Brasil e na França. Renata Menezes, outra integrante do ISER Assessoria, fez seu doutorado sobre uma festa tradicional católica do Rio de Janeiro, focando nas formas de devoção. Com exceção de Menezes, todas as teses foram orientadas por Otávio Velho e seus autores e autoras tornaram-se docentes de graduação e pós-graduação em importantes universidades brasileiras e continuaram, com seus trabalhos, a impactar o campo de pesquisas sobre religião. [12]

O ISER continuou a editar a revista Religião & Sociedade, que em 1995 passa a ter como editora principal Regina Novaes. José Jorge de Carvalho, antropólogo e professor da Universidade de Brasília, que também participa brevemente da editoria da revista, torna-se coordenador do projeto “Movimentos Religiosos no Mundo Contemporâneo”. O projeto, amparado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), reuniu, entre 2001 e 2006, pesquisadores que trabalhavam em centros universitários do Rio de Janeiro, de Brasília e de Porto Alegre. Beneficiou-se da rede de pesquisadores articulada pelo ISER e contribuiu para a modernização de Religião & Sociedade, cuja periodicidade vem sendo mantida desde 1997. Na década de 1990, a revista teve o apoio financeiro do CNPq e da FINEP, ambas agências públicas de apoio à pesquisa.

Pode-se fazer três destaques da trajetória de Religião & Sociedade nos anos 1990. Primeiro, a tradução de uma conferência de Marshall Sahlins (1992), reforçando a marca antropológica da revista. Segundo, outra tradução, de Collin Campbell (1997), que atesta a importância da temática da Nova Era naquela década. Por fim, o número 18 (2), que celebra os 20 anos da revista e traz uma entrevista com Rubem César Fernandes (1997) tratando da história da publicação.

Décadas de 2000 e 2010: religião, direitos humanos, violência e segurança no contexto brasileiro e “iseriano”

No começo dos anos 2000, teve início o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja eleição se deu a partir de uma ampla aliança nacional entre religiosos, movimentos sociais e partidos políticos de esquerda e centro-esquerda. Vários antropólogos do ISER aproximaram-se desse governo, unidos pela valorização da diversidade e pela garantia de direitos para minorias étnicas, raciais e sociais. Se, por um lado, a presença do Partido dos Trabalhadores no governo federal (2003-2016) favoreceu a relação com a sociedade civil organizada, possibilitando a realização de parcerias para a execução de pesquisas e programas sociais, por outro, esse foi um período desafiador para organizações que se sustentavam prioritariamente com recursos vindos de outros países. A razão desse desafio foi que, a partir de meados dos anos 2000, a cooperação internacional mudou seu foco geográfico de atenção e vários apoios dados a organizações na América Latina e Caribe foram paulatinamente perdendo fôlego, sendo remanejados para países africanos. Com isso, a realização de pesquisas com fundações ligadas a empresas nacionais e de capital misto passou a ser mais frequente na instituição, sobretudo na área de Meio Ambiente, estabelecida já na década de 1990. Nas demais áreas do ISER, notadamente nas de Religião no Espaço Público e Segurança, os recursos para pesquisas, monitoramento e ação direta vieram prioritariamente de fundações europeias e norte-americanas como ICCO – Organização Intereclesiástica para a Cooperação ao Desenvolvimento – e Fundação Ford, assim como de editais públicos.

Como resultado dessas e de outras mudanças ocorridas na sociedade brasileira nas duas últimas décadas, em particular o crescimento no número de evangélicos no Brasil observado em dados e pela atuação ostensiva de algumas de suas lideranças no espaço público, as relações entre política institucional e religião passam a chamar ainda mais a atenção de estudiosos de diferentes campos, notadamente da antropologia e da sociologia. No Rio de Janeiro, sob o governo (1999-2002) de Anthony Garotinho (PDT), radialista evangélico, conhecido como líder populista, o tema do ensino religioso nas escolas públicas ganhou destaque, ampliando os debates acadêmicos e políticos sobre laicidade, secularismo e intolerância religiosa. No bojo das ações que este debate público suscitou, em outubro de 2000, integrantes do ISER e assessores do Deputado Estadual Carlos Minc (PT-RJ) organizaram uma audiência pública sobre o tema. Regina Novaes, além de coorganizadora da audiência, compôs a mesa principal na qual políticos, religiosos e especialistas se apresentaram. Em 2002, o ISER realizou um encontro para discutir o assunto, convidando deputados que divergiam quanto à implementação do ensino religioso nas escolas do estado do Rio de Janeiro, religiosos de variadas matrizes e especialistas com a finalidade de ampliar o espaço de diálogo social sobre o tema, garantindo o livre exercício da palavra e a valorização do diálogo inter-religioso sob o prisma da construção de uma sociedade pluralista. Em 2004, a área de Religião no Espaço Público do ISER, com apoio da ICCO, convida Emerson Giumbelli e Sandra Carneiro, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ, para produzirem novos dados sobre o tema, resultando em publicações e participações junto a uma rede de organizações da sociedade civil e de acadêmicos. Destaque pode ser dado à publicação “Ensino Religioso no Estado do Rio de Janeiro – Registros e Controvérsias”, Comunicações do ISER, nº 60 (Giumbelli e Carneiro, 2004); uma gama de antropólogos em formação no campo dos estudos da religião se vale ainda hoje deste trabalho em suas investigações, reforçando uma tradição de parte da antropologia no Brasil de refletir sobre temas atuais da agenda sociopolítica com vistas à contribuição qualificada na elaboração de políticas públicas.

Com a gestão de esquerda em âmbito nacional, foram criados muitos conselhos com vistas à ampliação da participação popular na deliberação sobre políticas públicas em diferentes áreas: da segurança pública e população LGBTQI+ até juventude. Em 2005, Regina Novaes foi convidada a integrar o governo federal assumindo a presidência do CONJUVE, Conselho Nacional de Juventude. Vale lembrar que, no Brasil, os violentos anos 1990 foram marcados pela ocorrência de uma gama de chacinas mundialmente conhecidas, como a Chacina da Candelária e a de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, e a Chacina do Carandiru, em São Paulo, que catapultaram a importância da realização de estudos e ações em benefício de um grupo social principalmente vitimizado pela violência do período: os jovens, sobretudo negros e moradores de favelas e periferias. Também pelo ISER, entre 2001 e 2002, Regina Novaes realiza uma série de pesquisas, em colaboração com Cecília Campello do A. Mello, sobre o tema da juventude explorando dimensões relativas à esfera familiar, religiosa, política e subjetiva. Uma importante parceria com a Fundação Perseu Abramo (SP) [13] e o IBASE (RJ) [14] foi responsável pela ampliação desta agenda na instituição.

As pesquisas e ações realizadas no ISER guardam profunda sintonia com mudanças identificadas nos estudos da religião no Brasil. Estes passaram a ganhar atenção continuada de antropólogos, resultando no interesse progressivo em análises cuja interface das religiões com a ecologia, a mídia, a política, a juventude e a violência ganhava centralidade.

Na esteira dessas renovadas interfaces da religião com a sociedade, o ISER dá início a uma série de trabalhos cujo foco são as relações entre instituições religiosas e o sistema prisional e socioeducativo. Este trabalho teve a participação de Ana Maria Quiroga, antropóloga e professora da UFRJ e PUC-RJ, de Flávio Conrado, antropólogo formado pela UFRJ e militante progressista evangélico, e Christina Vital da Cunha, atualmente professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (RJ), e que ingressara no ISER em 2002 para coordenar os trabalhos da equipe de jornalistas moradores de favelas cariocas do site Favela Tem Memória. Vários convênios ocorreram a partir de então resultando em publicações e pesquisas que contaram posteriormente com a participação de José Pedro Simões Neto, sociólogo e professor da UFRJ, Emerson Giumbelli e Paola Lins de Oliveira, doutora em Antropologia. Aí, parte da atenção era dada aos egressos do sistema prisional e aos processos de conversão pelos quais passavam na prisão. Interessava identificar o suporte dado por igrejas, sobretudo evangélicas, no retorno destes egressos à vida social. A atuação dos chamados agentes religiosos junto aos detentos e à administração penitenciária foi foco da análise e posterior parceria do ISER na prestação de suporte aos órgãos públicos pela garantia do cumprimento do direito constitucional de jovens e adultos a terem assistência religiosa em espaços de confinamento. Esta foi mais uma iniciativa institucional que contou com antropólogos e sociólogos na produção de diagnósticos e pesquisas que iam na direção da defesa da diversidade e da promoção de direitos humanos. Deles resultaram as publicações Religiões e Prisões (Quiroga, Vital da Cunha, Conrado, 2005), e Pescador de Homens: o perfil da assistência religiosa no sistema socioeducativo (Simões, 2010).

A partir de 1997 o ISER deu início a uma colaboração com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cada recenseamento da população, realizado decenalmente, pesquisadores e colaboradores da área de Religião no Espaço Público do ISER vêm sendo convidados a analisar dados gerados a partir da pergunta “qual sua religião ou culto?”. Trata-se de mais um reconhecimento da importância social e acadêmica do ISER no tema da religião. Por ocasião das reuniões entre as equipes, vêm sendo discutidas questões relativas às categorias a serem aplicadas aos grupos religiosos, à avaliação de desvios aos padrões estatísticos, à metodologia de aplicação dos questionários, etc. A classificação dos evangélicos, segmento de maior crescimento nas duas últimas décadas, esteve especialmente no foco das discussões. Marcelo Camurça, Clara Mafra, Christina Vital e Clemir Fernandes (teólogo e doutor em Ciências Sociais) participaram, em diferentes momentos, dos censos de 1990, 2000 e 2010, que resultaram em publicações como o artigo de Clara Mafra intitulado “Censo da Religião: um instrumento dispensável ou reciclável?” (2004) e a revista Comunicações do ISER, nº 69, “Religiões em conexão: números, direitos, pessoas” (Menezes e Vital da Cunha, 2014), além de debates em seminários e congressos acadêmicos, como encontros anuais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais.

Em 2005, em parceria com o Viva Rio e o Small Arms Survey, uma organização internacional atuante na defesa do controle do uso de armas no mundo, o ISER realiza uma gama de pesquisas sobre a circulação de armas no Brasil com uma equipe multidisciplinar que contava com a participação de Christina Vital e Mauricio Lissovsky, professor da Faculdade de Comunicação da UFRJ, entre outros. Esta iniciativa se desdobrava em meio a um debate nacional sobre o estatuto do desarmamento e ao processo de elaboração e execução do referendo que aconteceria naquele ano no Brasil. Na campanha pelo desarmamento, o ISER, além de pesquisa, atuou na coleta de armas doadas pela população em postos instalados em igrejas evangélicas e católicas no Rio de Janeiro. Alguns dos resultados estão disponíveis em Referendo: do sim ao não. Uma experiência da democracia brasileira (Mota e Crespo, 2006).

Em 2007, o ISER se envolveria em uma rede internacional de pesquisas sobre mudanças climáticas financiadas pelo British Council. Nesse período, lança-se como organização com expertise em pesquisa qualificada na área das ciências humanas capaz de elaborar mapeamentos, diagnósticos e monitoramento de políticas públicas e sobre o impacto ambiental de ações de empresas privadas de capital nacional ou misto em território amazônico e nos limites da Mata Atlântica. Mais recentemente, sob a coordenação de Clemir Fernandes, atual secretário adjunto do ISER, e Pedro Strozenberg, advogado e secretário executivo entre 2008 e 2020, o ISER coordena uma ação em parceria com a Organização das Nações Unidas, com foco na mobilização de lideranças religiosas pela preservação das matas em seus países. Esta iniciativa conta com líderes de cinco países que concentram as florestas equatoriais responsáveis pela produção das chuvas no mundo.

Também em 2007, a revista Religião & Sociedade completou 30 anos e foi incorporada ao Scielo – Scientific Eletronic Library Online, um dos maiores portais de disseminação de produção científica nacional e internacional. Ao longo desse período, Religião & Sociedade continuou a ser um dos mais prestigiados periódicos sobre o tema da religião no Brasil e América Latina, com destaque para a produção de antropólogos e sociólogos. Em 2005 um trio de antropólogos assumiu os trabalhos de editoria em substituição a Regina Novaes: Emerson Giumbelli, Patrícia Birman e Clara Mafra. A antropóloga Paola Lins atuou na secretaria da revista entre os anos 2005 e 2016, sendo fundamental para a inclusão da revista em uma série de indexadores internacionais. Após o falecimento de Mafra em 2013, a antropóloga e professora do Museu Nacional da UFRJ, Renata Menezes, assumiu o seu lugar e ali permaneceu por dois anos até se chegar à composição atual da editoria com Emerson Giumbelli, Christina Vital e Carly Machado, antropóloga e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Na secretaria da revista encontra-se Lívia Reis, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ.

Considerando as métricas oferecidas pelo portal Scielo em dezembro de 2000, o texto de Religião & Sociedade publicado após 2007 que recebeu mais citações foi o escrito por Machado (2015) sobre a participação política de pentecostais evangélicos e carismáticos católicos. De acordo com o levantamento de Vital da Cunha (2017), que compila resultados considerando os quarenta anos da revista, católicos e evangélicos são os grupos religiosos mais presentes nos textos de Religião & Sociedade. Considerando os quatro períodos do levantamento (1977-1986; 1987-1996; 1997-2006; 2007-2016), o catolicismo era dominante como tema nos dois primeiros períodos, sendo alcançado, e mesmo ultrapassado, pelos evangélicos nos dois últimos.

O tema da intolerância religiosa ganhou atenção da academia notadamente a partir do episódio que ficou conhecido como o “Chute na Santa”, quando um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus atacou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no dia 12 de outubro de 1995 em transmissão ao vivo pela rede de televisão Record, ligada a essa igreja. Vale lembrar que Nossa Senhora Aparecida foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira Principal em 16 de julho de 1930, por decreto do Papa Pio XI. As repercussões destes atos foram inúmeras, na academia e na sociedade civil, com a formação de muitos núcleos de combate à intolerância religiosa. Em 2008, no Rio de Janeiro, foi criada a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, liderada pelo historiador e babalawo [15] Ivanir dos Santos. Desde sua criação, a comissão conta com o apoio do ISER na realização de eventos, ações e pesquisas organizados por Christina Vital, Clemir Fernandes e Paola Lins em parceria com o Movimento Inter-Religioso e com a antropóloga e pesquisadora Ana Paula Miranda, professora da UFF. Destas parcerias resultaram as Comunicações do ISER nº 63 e 66, respectivamente, “MIR: memórias, ações e perspectivas do Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro” (Fernandes, Conrado, Wiik e Nascimento, 2009) e “As máscaras da guerra da intolerância” (Veiga e Silva, 2012).

O acompanhamento do catolicismo no Brasil, tão significativo na agenda do ISER em décadas anteriores, renova sua importância com a visita do Papa Francisco ao país durante a realização da Jornada Mundial da Juventude em 2013. Para a ocasião, foi realizada uma pesquisa coordenada por Cecília Mariz, socióloga e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro em parceria com o ISER, Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e Universidade Federal de Juiz de Fora com recursos da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. Nessa pesquisa, foram produzidos dados quantitativos e qualitativos comparando a percepção de jovens católicos com jovens de outras religiões sobre questões de sexualidade e direitos reprodutivos. Os dados foram coletados durante a realização da Jornada Mundial da Juventude, da Marcha para Jesus (evento evangélico) e da Caminhada pela Liberdade Religiosa (evento cujo protagonismo de religiosos de matriz afro-brasileira é notável), todos realizados em 2013 na cidade do Rio de Janeiro. Publicações e debates nacionais e internacionais resultaram desse esforço coletivo de trabalho sobre emergências das religiões na cidade, como o artigo “Jornada Mundial da Juventude Rio 2013: ressignificando espaços da cidade e identidades religiosas” (Mariz, Gonzalez, 2017).

A partir de 2007 ganhou fôlego institucional um conjunto de pesquisas sobre religião e política, ora com foco na mídia, ora na formação de frentes parlamentares religiosas. Essas pesquisas contaram inicialmente com o apoio da Fundação Ford e, a partir de 2011, com o apoio da Fundação Heinrich Boll. Somou-se mais recentemente a este apoio a CONECTAS, organização não governamental de capilaridade internacional na promoção e defesa dos direitos humanos. A equipe contou desde o início com Christina Vital e a cada momento com uma rede de jovens pesquisadores, como Paulo Victor, à época doutorando em antropologia pelo Museu Nacional/UFRJ, atualmente professor do departamento de antropologia da UFRN, e, mais recentemente, Ana Carolina Evangelista, cientista política e atual secretária executiva do ISER. Uma gama de publicações e eventos resultou destas pesquisas. Os livros Religião e política: uma análise da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil (Vital da Cunha, Lopes, 2012) e Religião e Política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições 2014 (Vital da Cunha, Lopes, Lui 2017) tiveram grande repercussão no debate público sobre o tema contribuindo para o entendimento recente sobre a atuação de evangélicos na sociedade. Tais publicações contribuíram também para o fortalecimento da participação do ISER em uma rede de pesquisadores latino-americanos sobre o tema da religião na política.

Conclusão

Celebrar os cinquenta anos do ISER em 2020, durante uma crise sanitária mundial, constituiu um enorme desafio. A pandemia do coronavírus escancarou a histórica desigualdade da sociedade brasileira, a persistência do racismo estrutural e, também, o conservadorismo negacionista dos atuais governantes do país. Nessa difícil conjuntura, algumas lideranças religiosas evangélicas conservadoras manifestaram-se contra o isolamento social e o fechamento de Igrejas, questionando também a eficácia das vacinas, no que têm sido seguidos por alguns padres, bispos e grupos católicos.

Hoje, mais do que nunca, as pesquisas do ISER têm sido utilizadas por estudiosos e jornalistas em busca da compreensão da presença da religião cada vez mais visível no espaço público brasileiro. Nesse cenário, os pesquisadores do ISER, sem deixar de evidenciar os oportunismos políticos de religiosos conservadores, seguem procurando mostrar outras faces de sua atuação, por exemplo, as iniciativas solidárias de igrejas evangélicas que vêm atuando, durante a pandemia, em diferentes periferias urbanas, distribuindo alimentos e atendimento às populações mais vulneráveis.

Em 2020, em uma pesquisa sobre os candidatos que se apresentaram às eleições municipais acionando suas identidades religiosas, o ISER não se deteve apenas nos políticos conservadores, como identificou também outras vertentes que se autodefinem como progressistas. Trata-se de uma pesquisa em andamento, mas, certamente, a divulgação de seus resultados renderá boas interlocuções, tanto com novas gerações de pesquisadores das universidades, quanto com uma nova geração de jovens ativistas que inter-relacionam questões de gênero, raça, etnia e religião.

Pelo exposto vemos que, ao longo de sua história, o ISER foi demonstrando menor interesse pelas generalizações caras às grandes teorias das ciências sociais da religião e aproximando-se da abordagem antropológica; progressivamente, sua marca passou a ser a compreensão de símbolos, sentidos e pontos de vista de atores religiosos envolvidos em diferentes espaços e acontecimentos da sociedade brasileira.

A trajetória da instituição foi construída por meio de uma singular associação entre produção de conhecimento e promoção de ativismo social. Suas cinco décadas de existência refletem essas duas faces. Em alguns momentos com maiores recursos, muitas vezes executando atividades de grande repercussão positiva na academia e na sociedade. Em todas as oportunidades, o ISER procurou imprimir padrões acadêmicos de excelência a suas pesquisas encontrando maneiras de contribuir com iniciativas voltadas para a efetivação de direitos, da justiça social, da valorização da diversidade cultural e do reconhecimento do pluralismo religioso.

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Site consultado:

Publicações do ISER: https://www.iser.org.br/publicacoes




[1O Conselho Mundial de Igrejas (World Council of Churches, WCC) foi fundado em 1948, em Amsterdã. Com sede em Genebra, Suíça, é hoje a principal organização ecumênica em nível internacional. A Igreja Católica não faz parte do Conselho, mas mantém laços estreitos com a organização sobretudo nas atividades que dizem respeito ao Programa Dignidade e Direitos Humanos.

[2Como será mencionado posteriormente, a morte repentina de Duglas Teixeira Monteiro causou grande impacto no meio acadêmico brasileiro. Após a morte de seu fundador, em1978, o CER passou a se chamar Centro de Estudos da Religião Duglas Monteiro Teixeira.

[3O Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) se formalizou em 1974 sob a liderança de intelectuais protestantes tais como o sociólogo Jether Ramalho (1922-2020), o teólogo e Bispo Emérito Metodista Paulo Ayres e o teólogo Zwinglio Mota Dias. Buscando reunir e divulgar informações sobre valores ecumênicos e lutas por justiça social, criou a Editora Tempo e Presença. Em 1994, o CEDI desdobrou-se em quatro outras instituições, a saber: Ação Educativa; Instituto Sócio-Ambiental (ISA); Núcleo de Estudos Trabalho e Sociedade (NETS), sediados em São Paulo; e Koinonia, sediada no Rio de Janeiro.

[4O centro de documentação Diffusion de l’information sur l’Amérique latine (DIAL), tem mais de quarenta anos de existência, reúne arquivos com notícias da imprensa francesa e da própria região. Divulga dossier sobre situações de pobreza, exclusões, direitos humanos, defesa da cultura, bem como experiencias e movimentos sociais alternativos. Também produz regularmente boletins de informações. Ver http://www.dial-infos.org

[5As CEBs são pequenos grupos organizados em torno das paróquias ou capelas por iniciativas de leigos, padres e bispos progressistas. Tiveram grande importância durante o regime militar como espaços de resistência, de formação religiosa-política e como celeiros de quadros políticos que vieram a participar de movimentos sociais e de partidos políticos, sobretudo no Partido dos Trabalhadores (PT). Sobre o assunto, ver Novaes (1997).

[6A expressão “cooperação internacional”, via de regra, se refere a agências do norte (europeias, norte-americanas e canadenses) que, após a segunda guerra mundial, passam a oferecer “ajuda” a Projetos que promovessem o “desenvolvimento” dos países do sul. Essas agências se apresentavam como confessionais, ecumênicas, seculares ou civis. Sobre o assunto ver Landim (1993).

[7Nos anos de 1980, a revista participava dos Encontros de Editores de Revistas Científicas - apoiados pelo Programa CNPq/Finep voltados para divulgação científica e tecnológica - realizados com o objetivo de aprimorar, ampliar e aperfeiçoar mecanismos de divulgação e distribuição.

[8Como veremos posteriormente, no decorrer do tempo, Comunicações do ISER ganhou novas características, publicando também resultados de pesquisas concluídas.

[9Posteriormente, contando com a parceria com o ISER, Patrícia Monte- Mór foi curadora de muitas edições anuais da Mostra Internacional de Cinema Etnográfico, iniciada em 1993 e, até hoje, considerada a mais importante do gênero já realizada no Brasil. Para levar adiante seu trabalho no ISER e na organização da Mostra, Patrícia Monte-Mor contou com a importante contribuição de Marc Henri Piault (1933-2020), antropólogo francês, internacionalmente reconhecido como especialista na área de antropologia e cinema.

[10Para a história do Viva Rio, consultar: http://vivario.org.br/linha-do-tempo/. Acesso em 25 de março de 2021.

[11Sobre o CONIC, consultar: https://conic.org.br/portal/apresentacao. Acesso em 25 de março de 2021.

[12Todas as teses foram convertidas em livros (Camurça, 2015; Steil, 1996; Mafra, 2002; Giumbelli, 2002; Menezes, 2004).

[13A Fundação Perseu Abramo (FPA) é um think tank brasileiro, criado em 5 de maio de 1996 pelo Partido dos Trabalhadores (PT) para desenvolver projetos de caráter político-cultural. Atualmente tem uma atuação importante na área de pesquisa social e econômica, realiza publicações e debates nos temas da política, economia, meio ambiente, periferias e atua em parceria com organizações nacionais e internacionais. Fonte: https://fpabramo.org.br/fundacao-perseu-abramo/. Acesso em 10 de dezembro de 2020.

[14O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) é uma organização de cidadania ativa, sem fins lucrativos. Efetiva a partir de 1981, foi fundada após anistia política por Herbert de Souza, o Betinho, e os companheiros de exílio Carlos Afonso e Marcos Arruda. O Ibase tem uma história institucional muito ligada à democratização do Brasil, em particular às lutas que permeiam a emergência da cidadania e a constituição da diversificada sociedade civil brasileira das três últimas décadas. Os grandes movimentos e campanhas cívicas deste período, foram também compromissos do Ibase e que marcam o sentido de atuação do instituto. Nos dias de hoje o Ibase atua prioritariamente na realização de pesquisas, seminários e publicações, priorizando a questão da desigualdade social e os mecanismos para o seu enfrentamento. https://ibase.br/pt/parceiros/. Acesso em 10 de dezembro de 2020.

[15Sacerdote do Culto de Ifá, também iniciado no candomblé Ketu.