A Antropologia afro-brasileira no diálogo Sul‑Sul: História do Centro de Estudos Afro‑Orientais

Jocélio Teles dos Santos

Universidade Federal da Bahia

2021

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Santos, Jocélio Teles dos, 2021. “A Antropologia afro-brasileira no diálogo Sul‑Sul: História do Centro de Estudos Afro‑Orientais”, in Bérose - Encyclopédie internationale des histoires de l'anthropologie, Paris.

URL Bérose : article2320.html

Publié dans le cadre du thème de recherche «Histoire des anthropologies au Brésil», dirigé par Stefania Capone (CNRS, CéSor) et Fernanda Arêas Peixoto (Universidade de São Paulo)

Em setembro de 1959, o pensador e filósofo português Agostinho da Silva (1906-1994) agitaria a cena intelectual e acadêmica ao propor a Edgard Santos, reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a criação do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO).

Agostinho da Silva havia sido perseguido pelo regime salazarista nos anos quarenta. Em 1943 foi preso pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), polícia política criada em 1933 [1], e na prisão ficou incomunicável durante dezoito dias. Em 1944 partiu em direção à América do Sul, passando pelo Brasil, Uruguai e Argentina. Radicado no Brasil em 1947, estabeleceu-se inicialmente em São Paulo. Nos anos seguintes, trabalhou no Instituto Osvaldo Cruz e ensinou na Faculdade de Filosofia Fluminense, ambas instituições localizadas na cidade do Rio de Janeiro. Entre 1952 e 1954 ensinou na Universidade Federal da Paraíba. O seu trânsito entre intelectuais brasileiros e universidades federais pode também ser observado na sua presença em colóquios, congressos e eventos, como a Exposição do 4º. Centenário da Cidade de São Paulo (1954), e na sua atuação como docente na Universidade Federal de Santa Catarina (1958).

Como veremos a seguir, a proposição de Agostinho da Silva anunciava o lugar que viria a ter o CEAO na história da antropologia na América Latina, resultando em fecundas experiências de grande alcance nas relações entre o Brasil, África e Ásia, com repercussões em escala nacional e internacional, bem como nos planos antropológico e político.

O pioneirismo no estabelecimento da relação Sul-Sul

A criação do CEAO trazia uma era de efervescência nos estudos afro-brasileiros e africanos no Brasil, estabeleceria uma nova relação acadêmica com os países considerados do Terceiro Mundo, além de uma profícua relação da universidade com os terreiros de candomblé da capital baiana. A partir de então, o CEAO tornou-se o locus de uma expressiva produção institucional de estudos etnográficos realizados em Salvador, bem como em países africanos, com uma forte influência de antropólogos, mesmo que contasse na sua equipe com historiadores e linguistas.

Convém lembrar que, nas décadas anteriores, os estudos afro-brasileiros já constituíam uma tradição na antropologia brasileira com trabalhos desenvolvidos em Salvador por Raimundo Nina Rodrigues (1892-1906), Arthur Ramos (1903-1949), Manuel Querino (1851-1923), Edison Carneiro (1912-1972) e Luiz Viana Filho (1908-1990). A consolidação desses estudos pode ser observada, desde os anos trinta, quando da realização do 1º Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Recife, em 1934, sob a coordenação de Gilberto Freyre (1900-1987) e do 2º Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Salvador, por Edison Carneiro, em 1937. Necessário salientar que os dois congressos tiveram uma participação de lideranças afro-religiosas e visitas aos terreiros de candomblés nas duas cidades.

O final dos anos cinquenta foi também um período de estímulo governamental para uma nova política externa africana. A criação do CEAO por Agostinho da Silva pode ser vista, portanto, como um instrumento político-acadêmico ao nível local, nacional e internacional, assim por ele informado:

“[Foi graças] à imaginação, à iniciativa e à habilidade, digamos política, do reitor Edgar Santos, que já fora Ministro de Educação, que me veio a ideia [de lhe perguntar] se estaria ele disposto a estudar o criar-se em sua universidade um centro de estudos africanos que seria o primeiro da América do Sul; e das outras até o México” (Silva 1995:5).

A gestão do reitor Edgar Santos (1894-1962) representou um período de ebulição na academia. A Universidade da Bahia havia sido criada em 1946, abrigava a primeira Faculdade de Medicina do país (1808) e suas escolas anexas (Odontologia e Farmácia); a Faculdade Livre de Direito da Bahia (1891); a Escola Politécnica da Bahia (1897) e a Faculdade de Filosofia da Bahia (1941). Em 1950 passou a ser denominada Universidade Federal da Bahia.

O cenário institucional nos anos cinquenta revela uma agitação da cena cultural da capital baiana com a criação de escolas voltadas ao ensino das artes e de institutos de extensão cultural. Uma visão de cunho humanista provocava as estruturas rígidas de ensino numa das instituições mais tradicionais do ensino superior brasileiro. Por exemplo, no ano de 1955 deu-se a fundação dos Seminários Livres de Música, funcionando como uma escola livre, com professores visitantes convidados, muitos deles do exterior, como o alemão Hans-Joaquim Koellreuter (1915-2005) e o suíço Ernst Widmer (1927-1990). [2]

A perspectiva humanista pode ser visualizada ainda na criação da Escola de Teatro, em 1956, com cursos de formação e aperfeiçoamento em teatro, e no propósito de fazer convergir para a Bahia figuras artísticas do cenário nacional e do exterior. Uma delas, o fundador da escola, Martim Gonçalves (1919-1973), radicado no Rio de Janeiro e conhecido pela montagem de dramaturgos “marginais” críticos da sociedade como Oscar Wilde, Roger Vitrac e Jean Genet. As ações na Escola de Teatro extrapolavam os espaços internos da universidade, como pode ser visto na profícua relação da arquiteta Lina Bo Bardi(1914-1992), diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, criado em 1960, e do jovem cineasta Glauber Rocha(1939-1981), um dos principais nomes do Cinema Novo. Um espaço lido como de avant-garde na Bahia. [3]

Ainda em 1956, outra instituição se juntava às de música e teatro. Na criação da Escola de Dança buscava-se incentivar o ensino e pesquisa das “artes coreográficas” para a formação de profissionais, aliada a realização de estudos sobre o folclore brasileiro na dança moderna. [4]

Necessário salientar que no ano da criação do CEAO, em 1958, existiam os “Institutos de Extensão Cultural”, localizados na Faculdade de Filosofia e que eram resultados de convênios entre a UFBA e governos europeus e o norte-americano. Qual a sua finalidade? Fomentar a língua portuguesa em cursos regulares ou de verão, a cultura brasileira, a civilização e as artes, pela oferta de bolsas de estudos para estudantes da pós-graduação. Desse modo, o Instituto Franco-Brasileiro (1956), o Instituto de Estudos Portugueses (1956), o Instituto de Cultura Hispânica (1956), o Instituto de Estudos Norte-Americanos (1959), o Instituto Alemão (1959) e o Instituto de Estudos Britânicos (1960) promoviam a “vinda de autoridades culturais para conferências alusivas aos países que representam e outras promoções de caráter didático ou cultural”. [5]

A percepção de Agostinho da Silva era clara e direta. Nos anos noventa ele relembraria que, em 1958, momento em que se encontrava em Florianópolis como professor na Faculdade de Filosofia e na direção da Secretaria de Educação do Estado de Santa Catarina, um desembargador lhe afirmou que alguns catarinenses manifestavam interesse pela história de Angola. Na conversa, dizia lamentar que “nos tempos em que estávamos, embora se tivessem feito excelentes trabalhos sobre o africano no Brasil, se soubesse tão pouco do que fora África antes e depois da chegada dos portugueses e, sobretudo, do que era a África nossa contemporânea e do que poderia ser ela no futuro, já que era a vizinha de frente do Brasil e talvez se tornasse, por conhecimento e cooperação a estabelecer, sua ótima companheira para todo Atlântico Sul” (Silva 1995:5).

Ainda em Florianópolis, os seus contatos acadêmicos com professores da UFBA se sucederam, e Agostinho da Silva recebeu de Edgar Santos uma passagem aérea e o convite para uma estada na Bahia. Se a proposta inicial era a criação de um Centro de Estudos Africanos, o reitor propôs ampliá-lo, incluindo os estudos orientais. A proposta se coadunava com o que foi manifestado pela UNESCO aos diplomatas brasileiros: difundir o conhecimento sobre o “Oriente”. O interesse era fazer da UFBA o “veículo” do contato do Brasil com a China, com o Japão, Macau e Timor-Leste, buscando estabelecer relações entre o hemisfério norte e o sul. [6]

Resistência e manifestação de racismo institucional

Há de se notar que havia oposição à criação do Centro na maior instância da universidade, o Conselho Universitário. Isso pode ser verificado no depoimento de Agostinho da Silva, quando relata qual foi a estratégia traçada pelo reitor para que ele pudesse ser contratado pela UFBA. Ao invés de ser remunerado como diretor do CEAO, receberia como professor de filosofia na Escola de Teatro:

“...ficaria na Bahia como instalador e diretor do centro, em trabalho que abarcasse África e Oriente, com a recomendação [do reitor] de que, não parecendo haver do Conselho Universitário grande interesse pelo centro, não saísse muito do subterrâneo em que ele funcionaria e recebesse vencimentos, não pelo cargo mas por cadeira [disciplina acadêmica] que pudesse ensinar; como não havia nenhuma adequada, propus eu, e o aceitaram o reitor e a Escola de Teatro, recentemente fundada, que nela se introduzisse o que iria inventando e que se chamaria Filosofia do dito Teatro” (Silva 1995:6)

Como docente naquele período, lembrou vinte e cinco anos após a criação do CEAO, que mesmo “nada ensinando eu de África, porque não a sabia nem convinha inventá-la”, criou a biblioteca do órgão, organizou exposições como a de arte do Japão e proporcionou a concessão de bolsas a “quem estivesse disposto a ir à África para África aprender” (Silva 1995:7). [7] Nessa direção, ofícios enviados continuamente por Agostinho da Silva a países africanos e asiáticos são um bom indicador de uma política de articulação Sul-Sul, nos quais ele apresentava o CEAO a inúmeras instituições e manifestava interesse por intercâmbios e possíveis relações institucionais.

Agostinho da Silva permanece como diretor do CEAO até agosto de 1961. Por razões políticas internas à Universidade – o reitor Edgar Santos não foi reeleito – e em um contexto de renúncia do então presidente da república Jânio Quadros transferiu-se para Santa Catarina, posteriormente para a capital do país, Brasília, onde fundou o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília, em 1962.

A partir de então, assumiria a direção do CEAO o historiador Waldir Freitas de Oliveira (1929-). Muitos dos planos e ações lançadas por Agostinho da Silva continuariam na sua gestão e naquelas que o sucederam. Este foi o caso do estímulo a estudantes africanos a se dirigirem a instituições universitárias brasileiras, como a Universidade Federal da Bahia, e a outras instituições do ensino superior localizadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e no Recife, a exemplo da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade de Brasília. No contexto de abertura de embaixadas brasileiras em países africanos, ainda nos primeiros anos da década de sessenta, Agostinho da Silva ajudou a redigir o acordo que previa a concessão de cinquenta bolsas do governo federal para estudantes africanos que, em seus países de origem, podiam escolher que carreiras e instituições frequentariam no Brasil; e os primeiros estudantes concentraram-se em cursos como Odontologia, Ciências Econômicas, Sociologia e Política e Filosofia. [8]

Mas nem tudo foram flores nessa novidade que se institucionalizava no intercâmbio. Preconceito racial haveria de ser registrado na vinda dos estudantes. Se Edgar Santos manifestou a Agostinho da Silva o desinteresse do Conselho Universitário pelo CEAO, o reitor que o sucederia, Albérico Fraga (1904-1989), cuja gestão teve lugar entre 1961 e 1964, seria alvo do seguinte comentário de Pierre Verger (1902-1996) a Vivaldo da Costa Lima (1925-2010), em 20 de outubro de 1961:

“A situação do CEAO é bastante confusa, e não tem, nem muita vida, nem muito futuro na conjuntura atual. Só Agostinho poderia dar lhe um novo impulso... se chega a tratar com o novo magnífico [reitor] (...) e não será muito fácil, porque parece bem que por temperamento e inclinações pessoais, o dito Magnífico não possui nenhum interesse por pessoas de uma cor diferente daquela que ele exibe (cuja integridade não conheço, por nunca tê-la visto) (...) Ele, o Magnífico, parece mesmo ficar irritado diante da possibilidade de alguém se interessar por pessoas de cor e pretos em específico...então, o CEAO lhe deve parecer uma espécie de pesadelo...uma coisa inoportuna, pelo menos”. [9]

No mês seguinte Pierre Verger voltaria a fazer uma afirmação de modo mais contundente sobre o racismo do reitor:

“Agostinho tem agora uma posição no Ministério da Educação no Rio, no setor de Ensino Superior, com uma grande liberdade de ação (...) virá dentro de uma quinzena de dias cuidar da organização da chegada dos Bolsistas da África. O Magnífico não estava disposto a fazer nada por pessoas, consideradas por ele como de raça inferior. Nem mesmo queria que o curso de Rossi para ensinar-lhes em três meses lhes fosse dado. Agostinho ganhou”. [10]

Em comunicado pessoal ao CEAO, em 2008, Waldir Freitas de Oliveira chegou a tecer a seguinte afirmação, atribuída na época a Albérico Fraga: “a Bahia tem tanto preto, para que mais estudantes africanos por aqui?”. Tratava-se de uma versão do que Verger registrara em outubro de 1961: “o Magnífico ficou furioso – telefonou ao O.T.[jornalista Odorico Tavares] várias vezes (...) o seu pensamento expressado assim: ‘já tem suficientes negros na Bahia, para que trazer outros mais agora?’”. [11]

Se muitos estudantes africanos chegavam ao país na década de 1960, pesquisadores do CEAO também viajavam à África. O que aponta o desenvolvimento de novas pesquisas e a inserção institucional de brasileiros em universidades africanas.

Pesquisas, intercâmbios, inserção internacional, e a Afro-Ásia

O antropólogo Vivaldo da Costa Lima deslocou-se para a Nigéria, o Daomé, o Gana e a Costa do Marfim (1961-1963), atuando como “leitor” nas Universidades de Ibadan e do Gana; o também antropólogo, Júlio Braga [12], no ano de 1968, ficaria entre o Benin, a Nigéria e o Senegal, contando com uma bolsa de pesquisa do Instituto Fundamental da África Negra (IFAN), e na década seguinte defenderia sua tese de doutorado na Université Nationale du Zaïre (1977). Yeda Pessoa de Castro (1937-) e Guilherme Castro [13] foram para a Nigéria e Gana, em 1962 (posteriormente, Yeda Castro realizaria doutorado em Línguas Africanas, na Universidade Nacional do Zaire). Pedro Moacir Maia (1929-2008) ensinaria língua portuguesa na Universidade de Dacar, entre 1961-1970; Paulo Farias (1935-) cursaria o mestrado em African Studies, na Universidade do Gana, entre 1964 e 1966, com o apoio também do IFAN (Reis 2017).

Pierre Verger foi um parceiro habitual do CEAO ao longo de toda a década de sessenta, estivesse ele em Salvador, Paris, Dakar ou Ibadan. Isto pode ser observado em sua densa correspondência com Vivaldo da Costa Lima, desde o ano de 1961; as cartas que trocaram são exemplos fecundos da relação do antropólogo e fotógrafo francês com o centro. Elas contêm detalhes sobre o que ocorria no CEAO: atividades como palestras e conferências; cursos para um público externo, dificuldades internas; o cotidiano da cidade do Salvador; o dia a dia de terreiros de candomblé, como o Terreiro do Opô Afonjá (a realização de seus diversos rituais e a dinâmica religiosa ali contida); os meandros da diplomacia brasileira com os pesquisadores do CEAO; o seu desejo, ainda que manifesto de modo irônico, era criar a “ERIA ‘Escola de Reafricanização para Intelectuais Africanos Desafricanizados’”, que, como ele escreve ao amigo, “teria sede na Bahia e dona Senhora [mãe-de-santo do terreiro do Afonjá] como principal, e você [Vivaldo] encarregado de raspar [iniciar] a gente”. [14]

Mesmo que, em outubro de 1962, Verger tivesse uma bolsa de pesquisa concedida pelo Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) [15], ele era considerado um pesquisador vinculado ao CEAO. Como resultado dessas relações estreitas com o centro, ele seria integrado formalmente ao Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia, ainda que não ministrasse aulas. [16]

Mas não somente pesquisadores foram agraciados com bolsas. Deoscoredes Maximiliano dos Santos (Mestre Didi), uma persona do mundo afro-religioso baiano, recebeu bolsa concedida pela UNESCO ao CEAO. Em 1967, ele realizaria estudo comparativo no Daomé e na Nigéria, envolvendo “aspectos litúrgicos da religião negra no Brasil e na África”. [17] E vale lembrar que Mestre Didi foi registrado como pesquisador do CEAO, o que é um exemplo significativo de como o centro se articulava com determinados candomblés, notadamente com aqueles de tradição iorubá. Mestre Didi (1917-2013) era filho de Maria Bibiana do Espírito Santo (Mãe Senhora – 1890-1967), líder do Opô Afonjá, e se tornaria, posteriormente, Alapini, título honorífico dado ao sacerdote supremo do culto aos Egungun, ancestrais masculinos da tradição nagô, além de famoso escultor.

Outro exemplo da mesma articulação pode ser notado na criação, em novembro de 1968, da Associação de Amizade Brasil-Nigéria. Entre os sócios fundadores encontravam-se os pesquisadores do CEAO, as mães-de-santo do Opô Afonjá e do terreiro do Alaketu, respectivamente, Ondina Valéria Pimentel (1916-1975) e Olga Francisca Régis (1925-2005), e o escritor Jorge Amado (1912-2001). [18] No plano institucional, a relação com o terreiro do Alaketu era bastante intensa, e um evento na Reitoria da Universidade Federal da Bahia – quando foi realizado um concerto de José Maceda (1917-2004), diretor do departamento de música asiática, da Universidade das Filipinas – revela que no programa constava “a exibição das ‘filhas-de-santo’ do candomblé de Olga de Alaketu e da própria ialorixá, em danças típicas da liturgia afro-brasileira” [19]. Por várias vezes, eu mesmo ouvi o seguinte comentário de funcionários do CEAO: muitos dos pesquisadores e professores daquele período tinham algum cargo honorífico no Alaketu. E relembro que Agostinho da Silva já registrara a sua frequência nesse terreiro de candomblé (Silva 1995: 7). Daí se depreende as recepções que os dois terreiros ofereciam aos estudantes-bolsistas de países como Nigéria, Senegal, Gana e Camarões, no início dos anos sessenta (Verger 2008: 258).

Com o intuito de fomentar a cooperação acadêmica, o CEAO estabeleceu convênios com os centros de pesquisa africanos das universidades de Birmingham e Edimburgo, em 1965. A visita a instituições estrangeiras pode ser notada no registro, nesse mesmo ano, de palestras e conferências proferidas por Rolf Reichert, responsável pelo Departamento de estudos islâmicos do CEAO, no Institut des Hautes Études de l’Amérique Latine, em Paris; na Universidade Karlovy (Tchecoslováquia); na Katedra ved Zemích Asie e Afrik, na Universidade de Istambul; no Instituto de Estudos Islâmicos da Universidade de Damasco; na Universidade de Al-Zhar(Egito); na Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Túnis; na Faculdade de Letras da Universidade de Argel e na Faculdade de Letras da Universidade de Mohammed V (Marrocos). [20]

Há exemplos de governos, como o de Israel, convidando Waldir F. de Oliveira, diretor do CEAO, e Vivaldo da Costa Lima a realizarem excursões a regiões do país, como da “Galiléia ao Neguev e à faixa ocupada de Gaza” [21], além de visitas à Universidade Hebraica de Jerusalém e à Universidade de Beersheba, visando um intercâmbio (em 1967). Em um fluxo inverso, o CEAO recebia professores e especialistas estrangeiros; no período 1965-1976, por exemplo, passaram pelo centro: William Bascom (1912-1981), Anani Dzidzienyo (1941-2020), Jean Ziegler (1934-), Ousmane Silla (1931-), Jean-Pierre Angenot (1941-2018), Joseph Olabiyi Yai (1939-2020), Roger Bastide (1898-1974). [22]

A essas visitas acadêmicas devem ser acrescidas a participação de Waldir F.de Oliveira em eventos como o 1º. Congresso Internacional de Africanistas, em Acra, no ano de 1962; o Colóquio Brasil-Japão, realizado na Universidade de São Paulo, em julho de 1965, sob o patrocínio da UNESCO; o Colóquio sobre a situação dos estudos orientais nas universidades e institutos de investigação da América Latina, na Argentina (Mar del Plata), setembro de 1966; o 1º. Festival Mundial de Artes Negras, de 30 de março a 23 de abril de 1966, em Dakar, promovido pelo governo de Leopold Senghor e a UNESCO; a reunião do Comitê Interuniversitário dos Estudos Orientais na América Latina, em 1969, na Cidade do México [23]. Vivaldo da Costa Lima participaria, em julho de 1970, da Assembly for International Inter-Ethnic Studies, promovida pelo Center for Comparative Race and Ethnic Studies da State University of New York at Buffalo, e que contou com a colaboração do Center for Multi-Racial Studies da Universidade das Índias Ocidentais, com sede em Barbados. [24]

Um bom indicador da produção intelectual do CEAO é a revista Afro-Ásia, criada no ano de 1965, que se tornaria o primeiro periódico da América Latina voltado à publicação de artigos, documentos, informações e resenhas sobre temáticas afro-brasileiras, africanas e asiáticas, e que contava com correspondentes em centros de pesquisa na África, como a Université de Dakar, o Institute of African Studies da University of Ghana, ou ainda o Núcleo de Estudos Angolano-Brasileiros, em Angola.

De acordo com o seu editor Waldir F. de Oliveira, a revista vinha suprir uma lacuna em relação aos estudos africanos e asiáticos no Brasil e na América Latina. Destacava que os dois continentes estavam marcados nos países latino-americanos por uma imagem do passado “com os ‘safari’ cheios de perigos e emoção ou com os rotundos mandarins chineses ou com os areais imensos e de certo modo românticos do Saara ou ainda com os faquires e os encantadores de serpentes da Índia distante” (Oliveira 1965:5). E sendo historiador, não poupava os colegas:

“[Há]...nações jovens e livres ao lado de nações rejuvenescidas [que] se elevam ao mesmo nível das demais nações, iguais em direitos e em valor e surpreendentemente ricas de tradições e de um passado histórico sobre o qual, criminosamente, silenciaram quase sempre os historiadores ocidentais (...) E no entanto, grandes estados floresceram na África Negra antes da chegada ali dos europeus e a história da Índia não se confunde com a história da colonização daquele país, nem a China ou o Japão apenas passam a ter importância, após a sua descoberta pelos homens brancos da Europa” (Oliveira 1965:1).

As atividades de extensão da universidade incluíam a oferta de cursos de hebraico, índi, japonês, russo, árabe, ikebana, e de línguas africanas como iorubá, quicongo e quimbundo, abertos, principalmente, aos adeptos dos terreiros de candomblé, e sem a exigência de escolaridade comprovada.

O apoio governamental foi fundamental para compreender a execução dos projetos que se instalavam no CEAO. Isto pode ser visto, no ano de 1961, com a concessão de bolsas aos estudantes oriundos de países como Nigéria, Gana, Senegal, Guiné-Bissau, Serra Leoa, Camarões e Cabo Verde, bem como as pesquisas que tinham o propósito de realizar trabalho de campo in loco, com registros etnográficos e linguísticos, na Bahia, e em países africanos.

No órgão foram criados setores de pesquisa, como o de Estudos Históricos, cujo coordenador, Paulo F. de Morais Farias, integraria, em 1969, o Centre of West African Studies, da Universidade de Birmingham. O Setor de Linguística, sob a responsabilidade de Yeda Castro e Guilherme de S. Castro, voltava-se para pesquisas sobre o vocabulário português de libertos retornados a África, no século XIX, e que fundaram uma comunidade “brasileira” em Lagos.

Diálogo com as pesquisas na tradição antropológica afro-brasileira

Desde a sua criação, as pesquisas desenvolvidas no CEAO se inseriam na tradição antropológica afro-brasileira, com mais ênfase naquela voltada às religiões afro-brasileiras. O Setor de Estudos Antropológicos e Sociológicos concentrava a orientação a projetos de pesquisa na perspectiva da “contribuição das culturas africanas no processo civilizatório brasileiro”, como afirmava o seu coordenador Vivaldo da Costa Lima (2003:09). Tratava-se de revisar sistematicamente, com base na etnografia, os trabalhos clássicos de Raimundo Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Manuel Querino, Edison Carneiro e Luiz Viana Filho. Todos eles elencados como de interesse da antropologia, da sociologia, da história e do folclore. O programa de antropologia incluía o estudo das raças e dos problemas raciais, bem como uma introdução do que seriam as teorias da cultura vigentes à época.

Esse exercício da disciplina antropológica buscava refletir aspectos teóricos e metodológicos, com base em uma pesquisa realizada pelo CEAO sobre o universo dos terreiros de candomblé na cidade de Salvador, que deu origem a um levantamento inédito de dados quantitativos dos terreiros da capital baiana. Realizado nos anos sessenta, infelizmente não foi publicado, mas parte dele foi trabalhada por Vivaldo da Costa Lima, em sua dissertação de mestrado, “A família-de-santo nos candomblés jeje-nagôs da Bahia: um estudo de relações intra-grupais”. O levantamento de dados quantitativos sobre os terreiros de candomblé respondia a uma demanda existente nos estudos afro-brasileiros desde décadas anteriores. E que pode ser observado em pesquisas realizadas anteriormente por Melville Herskovits (1895-1963) e por Edison Carneiro.

O interesse de Herskovits pela Bahia estava amparado em certa acepção teórica comparativa. Envolvia os “modos de vida na Bahia” e o que lhe havia interessado durante pesquisas realizadas entre os daomeanos, iorubanos, grupos do “Novo Mundo”, e também na Guiana Holandesa, no Haiti, em Trinidad-Tobago e nos Estados Unidos. É provável que essa busca incessante por africanismos em diversas culturas tenha feito com que Herskovits deixasse de lado dados quantitativos coletados ou a ele disponibilizados. Isso explica a ausência de dados numéricos em suas publicações, mas que aparecem em três listagens de terreiros de Salvador, em seu nome, no período 1939-1941. Os registros indicam periodicamente os dias das visitas aos terreiros de candomblé (de janeiro a dezembro), além de apontar o responsável pelo terreiro, o endereço e dar a indicação manuscrita da nação identificada (ketu, caboclo, angola, ijexá, congo, jeje, espírita). Somente no ano de 1939 constam mais de 100 terreiros localizados em trinta áreas ou bairros da cidade [25]. Desconheço a utilização que o antropólogo norte-americano fez desses dados, ainda que numa conferência que proferiu na Faculdade de Filosofia da UFBA, em 1942, tenha ressaltado os seis meses de trabalho “intensivo” de campo realizado. [26]

A entrada tardia de dados quantitativos nas etnografias afro-religiosas pode ser compreendida tanto pelo que se depreende sobre o lugar da antropologia nas pesquisas etnográficas até então realizadas, os seus limites e impossibilidades, e pela competição acadêmica manifestas entre os “de dentro” e os “de fora”. Refiro-me tanto aos que estavam na academia brasileira quanto na norte-americana. Afinal, o trânsito entre pesquisadores americanos interessados na “problemática do negro brasileiro” era intenso naquele período.

Dados numéricos sobre os terreiros de candomblé somente aparecerão com a publicação de Candomblés da Bahia, de Edison Carneiro, em 1948. Se, anteriormente, a preocupação com estatísticas seguia o padrão estabelecido por Nina Rodrigues e Arthur Ramos - ou seja, bastava indicar a procedência africana dos candomblés -, na segunda metade dos anos quarenta, Edison Carneiro procurava demonstrar quantitativamente, ainda que em uma página, dados que fossem atuais naquele período. Assim, apresentava uma estimativa para os terreiros de candomblé e essa relação com o número de habitantes da cidade do Salvador:

“Há hoje cerca de cem candomblés na Bahia – e, se se estabelecer média de 300 pessoas para cada, teremos a média geral de 30.000 pessoas ligadas aos candomblés, numa cidade que só em 1950 ultrapassou a cifra de 400.000 habitantes” (Carneiro 1986:51).

Com isso, os dados quantitativos tornavam-se menos ilustrativos e passavam a compor a etnografia, dialogando com as observações sobre o universo afro-religioso baiano. Pelo fato de ter sido um dos fundadores da União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia, Carneiro classificou numericamente os 67 terreiros ali inscritos, indicando um quadro dos nomes das respectivas nações, fornecido através de auto declaração das lideranças. [27] Trata-se da primeira quantificação desse universo, sua distribuição, bem como a indicação de números relacionados às filhas-de-santo e à condição socioeconômica.

A pesquisa realizada pelo CEAO, na primeira metade dos anos sessenta, foi sistemática, com um questionário aplicado, onde constavam dados sobre a organização social, a filiação, os ritos existentes e o panteão. O registro indicava a existência de 756 terreiros de candomblé naquele momento (Lima 1977:4-5). Tratava-se, portanto, de uma contínua resposta de novos especialistas a uma problemática que atravessava a antropologia desde os anos trinta.

O material coletado foi utilizado na atividade docente. Conceitos da disciplina da antropologia sociocultural eram ilustrados nas aulas com o auxílio dessa pesquisa inédita, recorrendo aos dados empíricos resultantes da mesma. Desse modo, Lima (2003) aponta que no programa de Antropologia II, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, foi dedicada uma unidade sobre o estudo de sistemas familiares, teorias sobre formação da família, casamento e sua tipologia, grupos familiares e suas variáveis, exogamia e relação com o incesto, sistemas de descendência e a terminologia do parentesco: “surgiu, assim, a oportunidade para relacionar os conceitos da Antropologia referentes às estruturas familiares e aos sistemas de parentesco com os trabalhos da pesquisa do CEAO, estendendo e completando, desse modo, a experiência didática” (Lima 2003:11).

Somente em 2006, haveria um mapeamento dos candomblés publicado pelo CEAO. Devido à representatividade do CEAO, consolidada desde a sua criação, a Prefeitura Municipal de Salvador, com o apoio do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, buscou a instituição para a realização de um levantamento detalhado, no intuito de elaborar políticas públicas de preservação e revitalização ambiental, cultural e religiosa. Constituiu-se assim um censo inédito com a identificação de 1410 terreiros e o cadastro de 1164 deles (v. Santos 2006), resultando na produção de dados socioeconômicos, culturais e ambientais. Nos anos seguintes, experiências de mapeamento das religiões afro-brasileiras foram replicadas em outros estados em função de demandas do ativismo afro-religioso no país.

Continuidades em novos projetos e programas

Nos anos que se seguiram à criação do CEAO, como vimos, observa-se a relevância do órgão para os estudos afro-brasileiros e africanos no Brasil. Em 1969, em um texto comemorativo dos dez anos de sua existência, Thales de Azevedo (1904-1995) afirmava que estava sendo “recriada nessa casa a escola baiana de estudos africanos e orientais” [28], referindo-se aos estudos pioneiros desenvolvidos em décadas anteriores, já conhecidos pelos trabalhos de diversos antropólogos, anteriormente citados. Eu acrescentaria aqui o registro do primeiro Curso de Especialização em Estudos Africanos no país, nível de pós-graduação, autorizado pelo Conselho Universitário a funcionar em setembro de 1970, e destinado, preferencialmente, a historiadores, geógrafos ou cientistas sociais. [29] Uma experiência que não teve continuidade nas décadas seguintes. Somente em 2005 seria criado um programa interdisciplinar de pós-graduação, com mestrado e doutorado, em Estudos Étnicos e Africanos. Uma iniciativa inédita no país que abrigaria, paulatinamente, professores dos departamentos de antropologia, sociologia, museologia, pedagogia, etnomusicologia, história, letras e estudos de gênero, e que atrairia estudantes e professores-visitantes de países africanos de língua oficial portuguesa, nomeadamente Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Cabo Verde. [30]

Vemos, portanto, como ao longo das décadas seguintes propostas de continuidade ao que fora originalmente traçado e desenvolvido para o centro continuavam na ordem do dia. Fosse na contínua edição do periódico Afro-Ásia [31], no estímulo ao intercâmbio institucional, na vinda de professores e pesquisadores visitantes, ou nos cursos e palestras oferecidos a um público externo à universidade. Bem como na criação do Museu Afro-Brasileiro, vinculado ao CEAO. [32]

Nascido de um programa de cooperação cultural entre o Brasil e países africanos, o museu, fruto de convênio firmado entre o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Educação e Cultura, o governo do Estado da Bahia, a Prefeitura Municipal de Salvador e a UFBA, teve o objetivo de desenvolver estudos sobre a temática afro-brasileira. O projeto foi desenvolvido nos anos setenta, mas a sua montagem e inauguração datam de 1982. O seu acervo, constituído de mais de 1100 peças de cultura material africana e afro-brasileira (esculturas, tecidos, objetos em metal, indumentária e instrumentos musicais), foi resultado de pesquisas realizadas entre as décadas de setenta e oitenta, em diversos países africanos, e também de peças “compradas ou doadas pela comunidade afro-baiana, por representantes” dos terreiros de candomblé e grupos culturais (Catálogo 2004: 5).

Com a emergência dos movimentos negros no Brasil, na segunda metade dos anos setenta, e ainda durante o período final do regime militar (1964-1985), destaco o intenso diálogo do centro com o ativismo, seja com as pautas de conteúdo estritamente “político”, através de debates acirrados sobre relações raciais e práticas dos próprios movimentos acerca do combate ao racismo, ou nas discussões de natureza “cultural”, como as trazidas pelos blocos afro, cujas lideranças buscavam no CEAO informações sobre os países e lideranças africanas que, por exemplo, seriam homenageadas no desfile anual do carnaval baiano.

Acrescentem-se ainda os ativistas vinculados aos terreiros de candomblé que, nos anos oitenta, diante dos ataques de igrejas neopentecostais, notadamente a Igreja Universal do Reino de Deus, foram estimulados a se reunir nas dependências do órgão para a reedição do Fórum Baiano contra a Intolerância Religiosa, no ano de 2000 (inicialmente, as reuniões contavam com a presença de setenta a oitenta pessoas). Como registrou Santos (2007: 115s), o movimento, que passou a se chamar “contra a intolerância religiosa”, era formado por adeptos de diversos terreiros de candomblé, ativistas negros, católicos, protestantes, espíritas, muçulmanos, judeus, parlamentares, representantes de partidos de esquerda e instituições formais, como o Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra, órgão vinculado à Secretaria de Justiça, sindicatos e associações, como a de Sociólogos da Bahia. Devido ao crescimento do movimento, posteriormente, as reuniões foram transferidas para outros espaços institucionais.

Acrescento o estabelecimento do convênio com o Council on International Exchange Education (CIEE) para o intercâmbio intercultural de estudantes oriundos de várias universidades norte-americanas (2000-2012), o apoio da Fundação Ford para: i) atividades e cursos do CEAFRO – Programa de Educação para a Igualdade Racial e de Gênero do Centro de Estudos Afro-Orientais(1995-); ii) pesquisas e publicações sobre a adoção e a avaliação das ações afirmativas (sistema de cotas) para estudantes das escolas públicas, negros e indígenas em universidades públicas estaduais e federais (2010-2013). E recursos tanto da Fundação Ford quanto do South-South Exchange Programme for Research on the History of Development (SEPHIS-Amsterdam) para o estabelecimento da Fábrica de Ideias - Curso Avançado em Estudos Étnicos e Raciais(2002-). [33]

Certamente, pela minha própria experiência advinda do período em que fui diretor do CEAO (2003-2007), as novas ações não significavam meros consensos, muito pelo contrário, dissensões e tensões internas à Universidade Federal da Bahia se manifestavam, se atualizavam, e se observadas à luz da história do centro, pareciam ser retroalimentadas. Se essas confluências e divergências forem vistas no âmbito das histórias da antropologia afro-brasileira, posso afirmar que eu estive diante de um fenômeno de longa duração, aqui desenhado como sendo, primeiramente, de caráter institucional. E busquei aqui apontar a importância de um órgão que desde a sua criação foi muito mais que acadêmico. No âmbito da Universidade Federal da Bahia se constituiu um espaço institucional de diálogo e intercâmbio antropológico e político, humanista e social, entre o Brasil, África e Ásia, com profundas repercussões no plano local, nacional e internacional envolvendo pesquisadores e instituições universitárias de distintos países. Desse modo, o CEAO ocupa um lugar singular na história disciplinar e no estímulo interdisciplinar.

Referências bibliográficas

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[1A partir de 1945, a polícia política do regime português do Estado Novo passou a designar-se PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), sigla por que é mais conhecida.

[2Notícia histórica da Universidade da Bahia, Departamento Cultural da Reitoria, Coleção Ufba 70 anos. Salvador: Edufba, 2016.

[3Ver Santana, Jussilene. 2011. “Martim Gonçalves: uma escola de teatro contra a província”. Tese de Doutorado, Ufba; Risério, Antonio. 1995. Avant-garde na Bahia. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi.

[4Notícia histórica da Universidade da Bahia, Departamento Cultural da Reitoria, Coleção Ufba 70 anos. Salvador: Edufba, 2016.

[5Notícia histórica da Universidade da Bahia.2016. Departamento Cultural da Reitoria, Coleção Ufba 70 anos. Salvador: Edufba, 2016, p.69.

[6Segundo seu filho, Pedro Agostinho, as referências culturais na Bahia dos anos cinquenta e sessenta eram, nos “extratos dominantes”, muito mais europeias e estadunidenses, do que africanas: “na ideologia desses grupos [esta referência], estava mais para senzala do que para casa-grande” (Agostinho 1995:19).

[7Como lembra Oliveira (1996: 265), os trabalhos de Agostinho da Silva estavam mais circunscritos à temática luso-brasileira, apresentando trabalhos no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado na, então, Universidade da Bahia, em agosto de 1959, ainda que tenha participado da mesa-redonda “Problemas africanos de interesse luso-brasileiro”.

[8Afro-Ásia.“Informações”. 1965. Afro-Ásia, n.1, p.127s.

[9Afro-Ásia. “Cartas de Pierre Verger a Vivaldo da Costa Lima”. 2008. Afro-Ásia, n.37, p.254. O convênio com países africanos previa um curso de aprendizado da língua portuguesa para estudantes oriundos de países de língua oficial inglesa e francesa.

[10Afro-Ásia. “Cartas de Pierre Verger a Vivaldo da Costa Lima”. 2008. Afro-Ásia, n.37, p.255.

[11Afro-Ásia. “Cartas de Pierre Verger a Vivaldo da Costa Lima”. 2008. Afro-Ásia, n.37, p.256.

[12Datas não identificadas

[13Datas não identificadas

[14Afro-Ásia. “Cartas de Pierre Verger a Vivaldo da Costa Lima”. 2008. Afro-Ásia, n.37, pp.241-290, p.249.

[15Afro-Ásia. “Cartas de Pierre Verger a Vivaldo da Costa Lima”. 2008. Afro-Ásia, n.37, p.275.

[16Ainda que não ministrasse aulas, Pierre Verger ingressou como docente na Ufba nos primeiros anos da década de 1980, através de um pedido do vice-reitor, José Calazans Neto(1915-2001), a Jeferson Bacelar(1950-), então chefe do departamento de antropologia (1981-1982), e que na década seguinte seria diretor do CEAO (1995-1998). Esta inserção formal era motivo de tensão explícita no departamento. Quando ali ingressei, em novembro de 1992, isso testemunhei nas reuniões ordinárias. Para Verger receber o salário da UFBA era necessário que o pleno departamental referendasse mensalmente a sua presença como docente na instituição. Muitos colegas manifestavam posição contrária. Alegavam que Pierre Verger nas suas publicações e no espaço público não indicava, nem mesmo reconhecia, a vinculação com a UFBA. A solução era colocar a decisão em votação, e após muita discussão a maioria dos professores terminou por referendar o pagamento do salário mensal.

[17Afro-Ásia. “Pesquisadores do CEAO na África”.1967. Afro-Ásia, n. 4-5, p.115.

[18Afro-Ásia. “Associação de Amizade Brasil-Nigéria”. 1968. Afro-Ásia n. 6-7, p.148.

[19Afro-Ásia. “Musicologia”. 1968. Afro-Ásia, n.6-7, p.147.

[20Afro-Ásia. “Informações”.1966. Afro-Ásia, n.2-3, p.180.

[21Afro-Ásia. “Visita a Israel”, 1967. Afro-Ásia, n. 4-5, p.115.

[22Essas relações perpassavam a doação de livros por pesquisadores para a biblioteca do centro, como pode ser observada na “Carta de William Bascom a Waldir Freitas de Oliveira, 30 de março de 1967” (Schomburg Center for Research in Black Culture, New York Public Library).

[23Afro-Ásia. “Informações”.1966. Afro-Ásia, n. 2-3, pp.177-179; “Informações”.1969. Afro-Ásia, n.8-9, p. 132.

[24Afro-Ásia. “Informações”. 1970. Afro-Ásia, n.10-11, p.159.

[25“Herskovits, Melville, 1939-1941. “Candomblés. Ano-1939. Ano 1940. Ano 1941”, Datilografado. (Schomburg Center for Research in Black Culture, New York Public Library).

[26Herskovits, Melville, 2008 (1943). Pesquisas etnológicas na Bahia, Salvador, Museu de Arte da Bahia, republicado em Afro-Ásia.1965, n. 4-5, pp.89-106; v. também Afro-Ásia. “Informações”. 1965, Afro-Ásia, n.4-5, p.115; “Carta de Mrs. Melville J. Herskovits para Waldir Freitas de Oliveira, 08 de janeiro de 1966” (Schomburg Center for Research in Black Culture, New York Public Library); e “Carta de Mrs. Melville J. Herskovits para o United States Consulate, Salvador, Bahia, Brazil.1967”(Schomburg Center for Research in Black Culture, New York Public Library) sobre a visita de Frances Herskovits, em 1967, para checar comparativamente as notas inéditas do trabalho de campo dela e do seu marido, e publicar um livro sobre “o negro baiano”.

[27A União de Seitas Afro-Brasileiras da Bahia foi fundada em 03 de agosto de 1937, sendo seu primeiro presidente o babalaô Martiniano do Bonfim, e Edison Carneiro foi o Secretário Geral; ver Oliveira e Lima(1987:153,160).

[28Afro-Ásia. “Décimo aniversário do Ceao”.1969. Afro-Ásia, n. 8-9:137.

[29Afro-Ásia. “Informações”. 1970. Afro-Ásia n.10-11:159s.

[30Posafro (www.posafro.ufba.br)