Rivalidades e diálogos em torno da etnografia malinowskiana de Jomo Kenyatta

Anne‑Marie Peatrik

CNRS, LESC, Université Paris Nanterre

2020

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Pour citer cet article

Peatrik, Anne–Marie, 2020. “Rivalidades e diálogos em torno da etnografia malinowskiana de Jomo Kenyatta”, in Bérose - Encyclopédie internationale des histoires de l'anthropologie, Paris.

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Facing Mount Kenya. The Tribal Life of the Gikuyu (1938), de Jomo Kenyatta, é a primeira monografia académica, de âmbito antropológico, produzida por um africano sobre o seu próprio povo, obra celebrada por uns, condenada por outros, quando não ignorada [1]. A história desta monografia é singular, já que outros textos, e os respetivos autores, mantêm com a mesma relações de oposição ou associação, em particular durante a fase de elaboração de Facing Mount Kenya e aquando da primeira receção que lhe foi reservada, desde os anos 1930 até ao rescaldo da Segunda Guerra Mundial (Peatrik 2014) [2].

Tudo somado, esses escritos bastante diversos fazem parte da trajetória de Facing Mount Kenya. A sua existência é aliás indissociável do posicionamento implícito ou explícito que os respetivos autores mantêm relativamente à obra de Kenyatta, na medida em que se confrontaram, por vezes de forma muito violenta, no campo da representação legítima ou da verdade etnológica ou antropológica dos Kikuyu. Em contrapartida, essas versões concorrentes tiveram um efeito sobre o próprio estatuto da Facing Mount Kenya, sobre os seus sucessivos modos de existência. O presente artigo é dedicado a descortinar essas influências entrelaçadas, reveladoras da vida oculta ou esquecida de uma obra capital da história da antropologia.

Desses textos ou dos seus autores, essencialmente desconhecidos hoje em dia – exceto, é claro, por parte dos historiadores quenianos que os preservaram do esquecimento –, reteremos três em particular: Parmenas Mockerie (An African speaks for his People, 1934), o próprio Jomo Kenyatta (My people of Kikuyu and the life of Chief Wangombe, 1942; Kenya: the Land of Conflict, 1945), e Louis Leakey (The Southern Kikuyu before 1903, 1939ms, 1977).

Uma primeira constatação deve ser feita. Estes textos formam um conjunto de referências heterogéneas, agregadas sob o efeito da insurreição anticolonial dita Mau Mau que teve início entre os Kikuyu em 1952 - cerca de quinze anos após a publicação inicial de Facing Mount Kenya, em 1938 - e conduziu em 1963 à independência do Quénia. Inscritos nesta cronologia alargada, esses escritos entram depois numa série de entrecruzamentos a posteriori, sendo objeto de leituras académicas retrospetivas, sobretudo por politólogos e historiadores (Clark 1989, Berman & Lonsdale 1991) em busca das origens do pensamento político dos insurrectos e dos líderes independentistas. Recorde-se que Kenyatta, um aluno de Malinowski e Kikuyu ’destribalizado’ aos olhos de alguns, seria o primeiro presidente da República do Quénia em 1964; e que Louis Leakey, ’Kikuyu branco’ antes de se tornar paleontólogo reputado e assaz conhecido, se opusera ao movimento Mau Mau e à independência do Quénia. Estes dois protagonistas confrontaram-se através das suas respetivas obras, gerando uma intertextualidade reveladora de uma tensão entre antropologia e política como raramente se observa em situação colonial.

Essas leituras retrospetivas e retroativas, por mais instrutivas que sejam, impedem por vezes o acesso às intenções iniciais dos autores, aos seus quadros conceptuais e operações analíticas, aos seus modos de escrita e reconstituição. No entanto, é possível detetar algo nesse universo que remete para os saberes antropológicos constituídos antes da consolidação académica da disciplina e no período anterior às descolonizações. Em particular, a qualidade antropológica de Facing Mount Kenya, reduzida com demasiada frequência às limitações da idealização funcionalista, sairá reforçada no presente artigo. Com efeito, os textos em questão serão contemplados tanto pelo que dizem ou revelam acerca dos antropólogos em situações coloniais como no que se refere à antropologia produzida durante esses anos.

Resta-nos precisar uma questão metodológica. A trajetória de Facing Mount Kenya inscreve-se em três grandes etapas facilmente identificáveis: a realização por Johnstone Kenyatta – então ex-funcionário municipal Kikuyu, mandatado em Londres por uma associação tribal (a Kikuyu Central Association - KCA) para defender os interesses territoriais do seu povo – de uma tese mestrado em antropologia na London School of Economics sob a direção de Bronislaw Malinowski, tese que não despertou grande interesse aquando da sua publicação. Um segundo momento, que ocorre muito depois, é marcado pela fama de Kenyatta, em conexão direta com a crise da descolonização: enquanto autor e líder independentista, Jomo ’Lança Ardente’ (Burning Spear) tornou-se mundialmente conhecido e a difusão de Facing Mount Kenya teve um sucesso sem precedentes, também a par da crescente popularidade da própria antropologia, que então vivia tempos áureos. A partir da década de 1990, a obra ganha uma terceira vida (mas não a última...): confundida com as derivas e os excessos da hegemonia dos Kikuyu no Quénia, Facing Mount Kenya tornou-se o livro da discórdia nacional. Eis, em poucas palavras, o destino singular do que começou por ser um mestrado em antropologia, realizado quase que at home na década de 1930 por um súbdito do Império britânico.

Os textos que constituem o objeto do presente artigo são então contrapontos, uma espécie de duplicações ou fantasmas de Facing Mount Kenya, formando como que uma sincronia, ainda que se inscrevam numa faixa temporal que vai até à crise Mau Mau – ao mesmo tempo limite cronológico e fonte de interferências interpretativas que devem ser destrinçadas. Haverá um enfoque nas condições de produção desses textos, nos respetivos autores enquanto indivíduos, na difusão e receção dos seus trabalhos. No entanto, tal não é suficiente, uma vez que também é necessário compreender as posições respetivas e as ligações entre esses protagonistas. De que forma podemos avançar nessa intertextualidade que parece ter sido descurada pela sociologia da literatura (Sapiro 2014)?

A obra Adieu au voyage (2010) de Vincent Debaene representou um estímulo nesta reflexão exploratória, em virtude dos dois registos de escrita identificados pelo mesmo entre os etnólogos franceses a partir dos anos 1930, a começar por Marcel Griaule (Les Flambeurs d’homme, 1934) e Michel Leiris (L’Afrique fantôme, 1934) – havendo embora bastante mais casos. Diversos etnólogos produziram duas versões diferentes a partir das pesquisas que tinham levado a cabo, uma subscrevendo critérios de objetividade e rigor e a outra traindo a preocupação de testemunhar a experiência vivida junto dos povos indígenas e de restituir o ambiente da sociedade, versões essas que correspondem a dois registos que viriam gradualmente a diferenciar-se: um científico e o outro literário. As duplicações e fantasmas de Facing Mount Kenya mostram-nos os Kikuyu no espelho da antropologia colonial, isto é, nos espelhos das versões concorrentes. Algumas duplicações não são exatamente da mesma ordem que as identificadas por Debaene, mas a forma como este compara textos que, falando embora do mesmo assunto, têm estatutos diferentes, permite-nos avançar no nosso argumento.

Há que evocar, enfim, o fio condutor do meu próprio interesse por Facing Mount Kenya. Ao investigar os Meru do Quénia (Peatrik 1999, 2019) – primos afastados dos Kikuyu –, vi-me confrontada com um vazio etnográfico a seu respeito, a exemplo do que acontece com outras populações do Quénia, conforme viria a constatar mais tarde. Daí surgiu a minha preocupação em compreender as razões pelas quais os povos e sociedades dessas regiões foram tão pouco estudados, em particular as suas singulares instituições políticas baseadas em classes geracionais, desconhecidas durante muito tempo, captadas de forma distorcida ou demasiado tarde. O que fazer então com Facing Mount Kenya emergindo como uma montanha, um Inselberg incongruente nesse quase deserto etnográfico? Em que duradouro imbróglio se viu envolvida a antropologia como produtora de conhecimento nessa colónia de povoamento?

O território importuno de Parmenas Githendu Mockerie

O livro de Parmenas Githendu Mockerie [Mukiri], An African speaks for his People, opúsculo de 95 páginas publicado em 1934, é o primeiro contraponto a surgir na trajetória de Facing Mount Kenya. Tem uma especial ligação com o de Jomo Kenyatta, ligação tingida aliás de polémica na medida em que este foi acusado de se ter inspirado precisamente nesse texto sem fazer qualquer referência ao mesmo. An African speaks for his People ter-lhe-ia inclusive suscitado a ideia de dar o seu próprio contributo no mesmo sentido. Mockerie, Kikuyu e companheiro de viagem de Kenyatta, terá sido de facto o primeiro autor africano a assumir o papel de advogado do seu próprio povo (Calder 1983).

Na galeria de athomi (neologismo kikuyu que designa ’aqueles que aprendem/sabem ler’ e por extensão os letrados), nomeadamente da primeira geração de jovens educados por missionários e geralmente subtraídos às suas familias, Mockerie emerge ele próprio como um verdadeiro contraponto a Kenyatta, também ele athomi e poucos anos mais velho. Elementos relativos ao seu percurso são fornecidos nesse texto e numa autobiografia de cerca de dez páginas, The Story of Parmenas Mockerie of the Kikuyu Tribe, Kenya, written by himself. The Life of an African Teacher. Escrito na mesma altura, esta história de vida apareceu em 1936 numa compilação de dez histórias de africanos coligidas por Margery Perham, historiadora, cientista política do Império colonial britânico e aluna de Malinowski (Goody 1995: 27).

Mockerie era membro da Kikuyu Central Association (KCA) e originário de Fort Hall (Muranga), no centro do território kikuyu, uma região menos diretamente afetada pela apropriação colonial de terras do que aquela donde era proveniente Jomo Kenyatta, tendo acompanhado este último na sua segunda viagem a Londres na primavera de 1931. Os ativistas da KCA, considerando que Kenyatta não dera suficientes notícias aquando da sua primeira estadia em Inglaterra, julgaram pertinente o reforço da delegação. Ofereceram a Mockerie a oportunidade de obter formação adicional – ele era professor – e financiaram a sua viagem.

Companheiros de viagem, indubitavelmente o foram; mas é deveras incerto que tenham seguido o mesmo caminho. Os temperamentos e as expectativas dos dois protagonistas divergiam demasiado. Depois de ter frequentado vários cursos e uma vez realizadas algumas deslocações a outros países da Europa, Mockerie decidiu regressar ao Quénia. Sem ver chegar Kenyatta, que estava fora de Londres há algum tempo (ninguém sabia que tinha ido a Moscovo), Mockerie gastou todo o dinheiro das duas viagens de regresso na compra de um só bilhete de primeira classe. Mais tarde – conforme testemunham os seus escritos, embora escasseiem os dados sobre essa matéria – Mockerie estava profundamente imbuído da importância da educação; e ocupou cargos de responsabilidade na administração das escolas quenianas ou mesmo na administração colonial (Murray-Brown 1974: 360 n. 4).

Publicado com a chanchela da Hogarth Press, a editora fundada por Leonard e Virginia Woolf, e com prefácio do Prof. Julian Huxley [3], An African speaks for his People é um testemunho de inegável interesse documental. O texto propriamente dito tem 65 páginas, seguido de um apêndice de 20 páginas intitulado “Memorandum from the Kikuyu Land Board Association”.

No seguimento do relato da sua viagem a Londres, marcado por episódios reveladores de várias formas de segregação racial e por evocações muito indiretas do seu companheiro de viagem, Mockerie apresenta a vida dos Kikuyu (capítulo II), a começar pela religião, o efeito da cristianização nas práticas dos Kikuyu e o papel histórico e contemporâneo dos “mahometanos” estabelecidos na colónia do Quénia. O Capítulo III (“Kikuyu Tribal Institutions”) é uma peça fundamental. Na mesma veia clara que o relato dos seus anos de formação tribal antes de entrar na órbita dos missionários, no qual expôe, entre outras, as suas façanhas de caça [4] (1936: 159-163), Mockerie evoca de uma forma muito simples, como sendo questões óbvias: o sistema itwika (1934 : 36-43) – ou transmissão de poderes entre gerações políticas – e as suas modalidades democráticas; a dívida da geração em ascensão para com a geração cessante e a importância das prestações rituais; finalmente, o bloqueio, desde a conquista colonial, das atividades da geração dominante. Mockerie, é certo, provinha da secção no seio da qual ocorria, a cada trinta ou quarenta anos, em Gathanga, o ritual central de transmissão [5]. Os três últimos capítulos, dedicados ao próprio regime colonial, tratam do controlo branco do Conselho Legislativo do Quénia, da prioridade que devia ser dada à escolaridade obrigatória dos africanos nas escolas públicas, de um inquérito ’para estudar as leis tribais, os costumes e a música dos Kikuyu [6]’ que foi obstaculizado pelos numerosos pedidos de autorização exigidos pelas autoridades coloniais (ver nota 2) e, finalmente, dos problemas relativos à posse da terra com que se viam confrontados os Kikuyu.

O tom geral do texto lembra o de uma grande reportagem, como as que estavam em voga nesses anos, com a diferença de que o repórter oferecia um testemunho sobre o seu próprio povo, conforme indicado pelo artigo indefinido – An African… – utilizado no título do opúsculo. Consciente da diversidade do Quénia, o autor adverte que fala dos Kikuyu, porquanto os conhece melhor, mas que não se limita a eles. Dentro do mesmo espírito, e potenciando a capacidade de recuo, Mockerie adota um ponto de vista comparativo, com referència ao Uganda, um reino e protetorado sob administração indireta britânica onde ele prosseguira os seus estudos, no Makerere College; também ao Senegal, cujos representantes eleitos, assim o descobriu na Europa, tomavam assento no Parlamento francês; e finalmente à situação na metrópole de Londres. As relações de dominação colonial são pensadas em termos abrangentes de ruling/privileged classes/races (classes e raças dominantes e privilegiadas) em contraposição às que eram subject/unprivileged (dominadas e desfavorecidas). E mesmo na evocação de situações injustas ou mesmo iníquas – como a dos squatters, camponeses que se viam obrigados a deixar as suas terras e a instalar-se nas plantações dos brancos e a trabalhar nas mesmas para conseguirem pagar os impostos introduzidos pelo conquistador – o tom permanece calmo e o estilo sóbrio, em uníssono com a fotografia do frontispício que mostra o African teacher de fato e gravata, sentado à mesa e absorvido na leitura. Podemos avaliar o impacto constrastado que teria, alguns anos mais tarde, a fotografia de Jomo Kenyatta em pose de ’Lança Ardente’ (Peatrik 2014: 79), verificando se estava bem afiado o objeto do mesmo nome.

As últimas páginas do texto de Mockerie fazem uma transição para o “Memorandum” anexo (1934: 76-95), cujo tom é muito diferente, já que emanava da Kikuyu Land Board Association (por sua vez enquadrada no âmbito da Kikuyu Central Association, KCA). Esse texto esclarece os males da conquista, em particular a lista de compromissos não cumpridos, incluindo a última “Native Land Trust Ordinance” de 1930 e a crescente desconfiança relativamente ao Estado colonial. Saliente-se que Mockerie e Kenyatta não haviam chegado a ser recebidos como delegação. O texto publicado no apêndice procurava de alguma forma compensar esse fracasso; e o testemunho de Mockerie torna-o mais atraente, como aconteceria com uma demonstração ao vivo.

O prefácio de quatro páginas por Julian Huxley eleva o estatuto da obra. Figura da intelligentsia progressista, biólogo evolucionista, Huxley realizara uma viagem ao Quénia na década de 1930 para avaliar quais as áreas que poderiam constituir os primeiros parques naturais [7]. Quanto à Hogarth Press, estava longe de ser neutra. Encabeçada pelo casal Leonard e Virginia Woolf, membros desse círculo progressista que se reunia desde 1904 no bairro de Bloomsbury, ligado ao Partido Trabalhista e ao socialismo reformista dos Fabianos [8], a Hogarth Press publica textos politicamente empenhados e vanguardistas. Foi o caso, em 1924, do livro Kenya, de Norman Leys, médico escocês com folha de serviço na colónia, tratando-se do mais anticolonial escrito publicado até à data sobre o Quénia e que viria a constituir um marco na questão do anti-imperialismo. Mockerie foi apresentado por uma pessoa próxima de Norman Leys a Leonard Woolf, que aceitou sem entusiasmo publicar An African speaks for his People, já que o interesse do livro lhe parecia demasiado limitado. Os livros sobre o Quénia tinham a reputação de vender bem, mas faltam informações sobre a divulgação e receção desse testemunho publicado em 1934 [9]. A reedição da obra em 1977 nos Estados Unidos da América provavelmente não terá sido alheia à crise de popularidade de Jomo Kenyatta, um líder desgastado por catorze anos de presidência e cuja legitimidade foi questionada, a começar pela de ser o primeiro africano a falar em nome do seu povo. A edição da etnografia de Louis Leakey nesse mesmo ano de 1977 também pode ter algo a ver com essa redescoberta de Mockerie. Leakey, na verdade, faz referência ao mesmo, como iremos ver.

Em contrapartida, a leitura dos escritos de Mockerie permite refutar os rumores a respeito de Facing Mount Kenya e até mesmo reiterar o estatuto desta obra enquanto texto científico, bem como a posição única de Kenyatta. À falta de provas tangíveis, é difícil todavia imaginar que este não tenha sequer lido o opúsculo de Mockerie, sabendo que aí figura em posição de relativo destaque o memorando da KCA; ou até mesmo a compilação de histórias de vida de Africanos coligidas por Margery Perham (1936), onde os testemunhos escritos pelos próprios africanos (quatro em cada dez histórias de vida, incluindo a de Mockerie) se distinguem dos recolhidos por antropólogos (entre os quais Audrey Richard e Monica Hunter). Estas leituras terão antes reforçado a sua intenção de elaborar algo mais do que uma reportagem ou um relatório inútil, perdido entre muitos, bem como de evitar um testemunho demasiado biográfico e necessariamente curto. Torna-se então evidente a pertinência da sua opção de produzir uma monografia antropológica enquanto ato de conhecimento metódico sob a égide do mundo académico, assim como a determinação necessária e o esforço que teve de fazer para atingir os seus objetivos: 340 contra 65 páginas. Naturalmente, Kenyatta poderia – a par das diminutas referências que cita além de Aristóteles, Lord Lugard e alguns relatórios administrativos – ter mencionado o opúsculo de Mockerie, mas o facto é que o tipo de escrita jornalística produzida por este dificilmente encontrava legítimo lugar no aparato editorial de uma obra de cariz universitário.

Enquanto textos enquadrados no universo editorial da metrópole, traindo a um tempo a ligação e o afastamento dos dois mundos, estavam igualmente marcados por uma certa tensão quanto à escolha da língua utilizada para apresentar os costumes e os assuntos kikuyu. Sob o impulso dos missionários protestantes, a língua Kikuyu foi muito cedo passada à escrita para facilitar a disseminação do Novo Testamento na língua vernácula (Peterson 2004). Notícias sobre usos e costumes kikuyu mescladas de reflexões sobre as tradições ancestrais já tinham sido publicadas na língua kikuyu (ver a nota 4). O próprio Kenyatta se entregara a esse género de escrita desde 1928, nomeadamente no seu jornal Mwiguithania (idem). Ao chegar a Londres, começou logo que pôde a escrever artigos de jornal em inglês (um dos quais foi publicado em 1934 na Negro Anthology, ver adiante), com a intenção óbvia de ser escutado pelo público metropolitano, mas também para deixar a sua marca numa corrida entre letrados kikuyu para ver qual escreveria primeiro em inglês de forma significativa. Sem o emergente intelectual Kenyatta, sem a rivalidade entre os dois companheiros de viagem, talvez o texto de Mockerie nunca tivesse sido escrito.

Kenyatta, o Kikuyu destribalizado

O encontro entre Johnstone Kenyatta e Bronislaw Malinowski não foi fortuito. As suas expectativas eram complementares e os dois homens, assim reza a tradição, sentiram-se imediatamente conectados. Em Dezembro de 1934, Kenyatta estava há bastante tempo em Londres e viajara extensamente por toda a Europa. Quanto a Malinowski, acabava de regressar de uma viagem de três meses, longamente planeada, à África do Sul e Oriental. Viu em Johnstone Kenyatta o informante alfabetizado que o esclareceria sobre a surpreendente polémica que estalara em torno da clitoridectomia entre os Kikuyu (ver nota 15), enquanto este viu nele o professor que o supervisionaria para um diploma universitário sobre o seu povo - povo que ele queria dar a conhecer aos seus interlocutores ignorantes. Com uma bolsa de estudos do International Institute of African Languages and Cultures que Malinovski lhe conseguiu obter (ver nota 11), Johnstone pôde continuar os estudos e defender a sua tese de mestrado em antropologia no final de 1937, a qual seria publicada em setembro do ano seguinte (Peatrik 2014: 73-76). O que impressiona de imediato na leitura desse texto é a sua densidade. Enquanto monografia rica em dados inéditos, Facing Mount Kenya só nos faz lamentar que outros trabalhos da mesma qualidade não tenham sido realizados acerca de outros povos do Quénia durante esse mesmo período, de tal forma são raras ou medíocres as etnografias que lhes dizem respeito.

Com um prefácio de Malinowski e outro do próprio Kenyatta (xv-xxi), este texto de 339 páginas é composto por treze capítulos de tamanho desigual, seguidos de um glossário e um índice temático e onomástico. Em jeito de bibliografia, como já foi dito, raras referências são indicadas em notas de rodapé. O próprio livro, sendo escrito por um Kikuyu que se apresenta com essas credenciais, é a referência. Trata-se em suma de uma obra auto-referencial, fazendo eco da máxima de Malinowski: ’Anthropology begins at home’.

O plano da obra encadeia sucessivamente as seguintes temáticas: narrativas sobre as origens do povo Kikuyu e a organização da família (cap. I: 20 p.); leis fundiárias (cap. II: 32 p.); atividade económica, agricultura, criação de gado, trocas e artesanato, incluindo o relativo à música (cap. III e IV: 44 p.); princípios e práticas educativas (cap. V: 30 p.); iniciação dos jovens e rituais femininos (cap. VI: 34 p.); vida sexual pré-matrimonial (cap. VII: 28 p.) e instituições matrimoniais (cap. VIII: 22 p.); sistema de governo e procedimentos judiciais (cap. IX: 45 p.). Uma parte final trata da religião ancestral (cap. X: 35 p.), das novas religiões (cap. XI: 10 p.), das práticas mágicas e médicas (cap. XII: 28 p.). O último capítulo (9 p.), como qualquer conclusão digna desse nome, retoma estes diferentes aspetos, fornecendo uma imagem mais coerente da sociedade do que a sugerida no corpo do texto.

Como exemplificação da qualidade da investigação, selecionamos desse vasto quadro os desenvolvimentos (cap. I e IX) sobre as instituições de idade e geração, descritas de forma cuidada e questionadas com pertinência: é o caso de certas informações inesperadas, mas comprovadas, como as relativas à possibilidade de ainda ser guerreiro aos quarenta anos; ou as que revelam a continuidade estabelecida entre as classes de idade e a instituição familiar, não por irresistível inclinação de Kenyatta para uma visão de harmonia social, mas por genuína intuição - que aliás a antropologia iria subestimar, em particular devido às posteriores teorias centradas nas linhagens e nomeadamente com enfoque na interseções entre as linhagens e as classes de idade. Deve-se ter em mente que Kenyatta estava a procurar apresentar modalidades de organização política sobre as quais, a bem dizer, ninguém tinha ideia – à exceção de Mauss (1931). A questão da transferência dos poderes geracionais itwika é tratada com rigor, mas deixa de lado um conceito kikuyu de soberania geracional, bûrûri/thî, talvez por lhe suscitar dúvidas segundo um critério académico. O anticolonialismo da obra, sendo bem real, é na vedade expresso de forma indireta. Pela sua simples existência, um tal escrito científico produzido por um africano é já de si anticolonialista; prova disso é a descrição metódica que faz da sociedade kikuyu, contrária às ideias partilhadas por quase todos os colonos de que essas populações primitivas eram anárquicas e bárbaras. Ou ainda os capítulos ou as passagens que expressam com grande economia de meios o caráter absurdo e inaceitável da conquista imperial e da dominação por parte dos colonos: a parábola do homem pobre e do elefante (Kenyatta 1938: 47-52), a contradição inerente à dominação colonial (ibid.: 197), ou as modalidades da guerra indígena comparadas com as do Ocidente (ibid.: 205-215).

Publicado em setembro de 1938, Facing Mount Kenya foi um fracasso comercial, nomeadamente para Kenyatta, que esperava tirar benefícios financeiros dos seus direitos de autor. Apresentada com uma foto no frontispício cuidadosamente composta para atrair o comprador, na qual o autor aparece vestido de chefe africano a verificar quão afiada está a sua lança (retrato na origem da alcunha Burning Spear/Lança Ardente), esta exaustiva monografia antropológica, um pouco austera como convinha a esse tipo de trabalho, na verdade não se presta a uma abordagem imediata e na altura não foi ao encontro do público (Peatrik 2014 : 80-85).

Sem dinheiro, forçado pela deflagração da Segunda Guerra Mundial a ficar em Inglaterra, Kenyatta mudou-se para o campo, onde encontrou emprego numa quinta como trabalhador agrícola. Casou-se com uma inglesa, Edna G. Clarke, e um filho nasceu desta união com uma ’Branca’, impensável se tivesse ficado no Quénia. Enquanto o conflito atingia uma escala planetária e à medida que as perspetivas de retorno se tornavam cada vez mais remotas, Kenyatta foi tentado pela escrita e iniciou um romance intitulado White Man’s Magic. Esta (auto)biografia romanceada de um africano chamado Kenjimoo (como que um diminutivo de Kenyatta) nunca viu a luz do dia (Murray-Brown 1974: 211, 364 n. 6). Kenyatta, porém, escreveu dois pequenos livros de um estilo muito diferente: em 1942, My People of Kikuyu and the Life of Chief Wangombe (60 páginas); e em 1945, Kenya: The Land of Conflict, uma brochura de 26 páginas.

O primeiro opúsculo foi uma resposta ao pedido de uma associação cristã (United Society for Christian Literature) que desejava publicar brochuras sobre países africanos escritas pelos próprios africanos (Murray-Brown 1974: 364 n. 7) [10]. O formato imposto era de sessenta páginas, mas o tom, a mudança de registo, deve-se de facto a Kenyatta. Desde a primeira página, informa que adotará o tom do ’story-teller’, do contador de histórias ’(...) que por vezes reveste a realidade dos ornamentos da mitologia’ (Kenyatta 1942: 1). Num estilo muito mais fácil de ler do que Facing Mount Kenya, a narrativa é composta por duas partes: um quadro das instituições políticas; e a biografia de um homem exemplar, Wangombe, o que permite apresentar a sociedade através da vida de um personagem, originário da fronteira norte do território kikuyu. Kenyatta recorre provavelmente a Wangombe para servir de contraponto a Waiyaki, célebre herói nascido na fronteira sul do território, evocado em Facing Mount Kenya (1938: 46), paradigma do líder morto em prisão perpétua, cuja confiança fora traída pelos colonos (Lonsdale 1995: 240-291).

Voltando às formas de governo kikuyu, tema central dessas sessenta páginas, Kenyatta justapõe dois enfoques distintos, embora os combine de forma bastante sui generis: um enfoque no sistema geracional, que identifica como ’early forms of government’ (antiga forma de governo), a seus olhos uma prática desaparecida da qual dá uma visão sintética e mais distante do que em Facing Mount Kenya – um pouco à maneira de Mockerie – com alguns comentários que traem uma espécie de irritação. Ao falar do itwika, interroga-se: ’Porquê tanto barulho em torno das festas cerimoniais e das transmissões puramente formais? ’(Kenyatta 1942: 11). Em seguida, um enfoque no ’sistema de chefia kikuyu’ enquanto facto contemporâneo, embora de forma artificiosa, pois Kenyatta sabe perfeitamente que tais instituições não existem entre os Kikuyu, mas que é necessário, assim o obriga a modernidade, legitimar de uma forma ou de outra os líderes anticolonialistas que falam em nome de seu povo, uma vez que é a sua representatividade que está em causa (My People of Kikuyu como um reflexo do título de Mockerie, An African speaks for his People). Kenyatta evoca os escalões etários percorridos pelos homens, o que sustenta o seu argumento; o mesmo acontece com ’A vida do chefe Wangombe’, as suas façanhas como pastor e guerreiro, o seu casamento e ascensão, a sua morte súbita pouco tempo depois da conquista colonial. Neste emaranhado, Kenyatta acaba por se situar no epicentro de uma questão crucial da antropologia política, que já não aborda contudo enquanto antropólogo, mas como ator social. É de facto um mini-tratado da política Kikuyu, sob a forma de uma narrativa, que Kenyatta apresenta neste texto, de forma discreta mas deliberadamente polémica.

O segundo escrito tem uma origem muito diferente, diretamente ligada ao fim da guerra e às crises coloniais que então ressurgiam. Kenyatta estabelecera laços cada vez mais estreitos com os afro-americanos em Londres e com o International African Service Bureau (IASB). Fundada em 1935 em resposta à crise etíope, esta associação reunia ativistas do pan-africanismo, um movimento que aspirava reunir todos os africanos, onde quer que estivessem, e cujo líder nesses anos foi George Padmore, uma das figuras-chave do anticolonialismo afro-caribenho e anglófono (Boukari-Yabara 2014). A estatura de Kenyatta cresceu, como autor, como político e como um autêntico africano entre esses militantes; e foi aí que Facing Mount Kenya encontrou o seu primeiro e verdadeiro público.

Padmore pediu a Kenyatta para escrever uma brochura sobre a situação no Quénia, o que daria lugar às 26 páginas, escorreitamente impressas, de Kenya: The Land of Conflict (1945) que o IASB publicou em outubro de 1945 por ocasião da reunião em Manchester do 5º Congresso Pan-Africano, onde, como prova da sua notoriedade, Kenyatta ocupou um lugar de destaque.

Trata-se de uma brochura militante que recuparava o argumento do Memorandum da KCA de 1934 (publicado como apêndice no opúsculo de Mockerie) com vários acrescentos, sendo necessário compará-la igualmente com o breve texto intitulado ’Kenya’, assinado por Johnstone Kenyatta e publicado na memorável Negro Anthology de Nancy Cunard (1934: 803-806). O tom claramente anticapitalista desse artigo da pluma de um Kenyatta que então usava o nome próprio Johnstone (Peatrik 2014: 77-78), sustentado em dados precisos sobre grandes empresas do Quénia colonial, veio a desaparecer no texto de 1945. No entanto, o conteúdo anticolonial deste último é muito mais pronunciado.

A brochura de 1945 é enriquecida com alguns elementos históricos retirados de Facing Mount Kenya e com uma atualização sobre os vários conflitos: a corrida ao ouro em Kakamega (Quénia ocidental) e a expropriação dos africanos; conflitos relacionados com o excesso de pastoreio na região de Kamba; tensões fundiárias entre os Taita; recrutamento de africanos para o exército britânico, trabalhos forçados e fome – tudo isto devidamente enquadrado pelo tratamento privilegiado reservado aos brancos na vida económica e nas instâncias políticas. Em face de um tal quadro das injustiças cometidas contra os africanos, traçado de forma tão vigorosa, a conclusão do texto é surpreendente na sua moderação: onde se esperaria um apelo à quase-revolução, o texto fala antes de reforma e autonomia. Mas estamos em 1945, a pura e simples independência das colónias é impensável. Um efeito similar é produzido pela mensagem que se extrapola em jeito de slogan da fotografia de Burning Spear na capa. A palavra do autor é enfim legitimada no prefácio do próprio Georges Padmore: ’O Sr. Kenyatta é o autor de Facing Mount Kenya – um estudo antropológico da vida tribal dos Kikuyu – e está bem qualificado para falar em nome dos africanos.’

O que podemos retirar de todas estas circulações e dos seus efeitos relativamente ao estatuto de Facing Mount Kenya, à sua posição na história da antropologia? A comparação entre a monografia de 1938 e esses dois (ou mesmo três) breves textos é especialmente útil para compreendermos certos aspetos da produção do conhecimento antropológico nesses anos [11]. É como se Kenyatta, nos dois escritos em questão, tivesse dado rédea solta a si próprio, permitindo-se o que não tinha podido fazer na monografia [12]. Uma vez concluída a monografia e demonstrada a sua capacidade enquanto súbdito colonial africano para levar a cabo uma investigação e pertencer à elite académica, Kenyatta retoma o mesmo assunto, mas mobilizando outros registos retóricos: adota a posição do contador de histórias para desenvolver a narrativa de My People of Kikuyu and the Life of Chief Wangombe; depois aperfeiçoa o modo de exposição a um tempo didático e acusatório que lhe permite cultivar o tom do ativista anticolonial em The Land of Conflict. Em suma, esta seria uma outra versão de um mesmo texto a juntar às duas identificadas por Debaene: uma científica, a outra literária e ainda, neste caso, uma versão política.

Mas levando em consideração os textos de Mockerie, verificamos igualmente que Kenyatta assumiu, de certa forma, os recursos de escrita de que o primeiro fizera uso (ainda que modestamente) e aos quais o próprio Kenyatta tivera de renunciar no âmbito da sua monografia académica. Isto reforça ainda mais a ideia de que Kenyatta conhecia os escritos de Mockerie. A menos que estes diferentes textos representassem várias alternativas de escrita em voga ou em competição nesse período: escrita científica, escrita política, escrita literária como uma tripla tradução de um mesmo conteúdo antropológico. Kenyatta, recorde-se, foi tentado em dada altura pela literatura e pela ficção romanceada. O athomi também adquirira gosto pela escrita.

Este jogo de registos pode também explicar uma certa desconfiança que existe em relação a Kenyatta enquanto etnógrafo. Naqueles dois textos, no primeiro em particular, Kenyatta alcança resultados eficazes através da confusão dos registos de escrita. Mistura habilmente fantasia e dados muito precisos, inclusive mais vívidos do que em Facing Mount Kenya, mas o leitor médio não tem as ferramentas para separar o trigo etnográfico do joio retórico; e essa mistura de géneros faz recair a dúvida sobre o todo, tanto mais que estes dois escritos, em virtude do tamanho, do tom e do baixo preço, serão mais difundidos e lidos do que Facing Mount Kenya, que é um livro tão denso quão espesso, de leitura menos acessível e reservado em suma a uma elite intelectual.

Louis Leakey, o Branco Kikuyuizado

Se, na década de 1930, desfrutou na Europa duma forma de liberdade de que estava privado no Quénia, Kenyatta o africano destribalizado viu-se forçado pela deflagração da guerra a permanecer mais tempo do que imaginava na distante Inglaterra. Enquanto isso, Louis Leakey, o White African [13] ’kikuyuizado’, regressado da metrópole em 1937, retomara a sua viagem às terras altas do Quénia em busca de fósseis humanos, de costumes kikuyu e de meios de subsistência.

Estas duas personalidades complexas, projetadas para primeiro plano devido à crise Mau Mau, constituem um curioso binómio, forjado no plano das suas rivalidades etnográficas e das suas práticas no domínio da antropologia. Os dois quenianos conheciam-se o bastante para se evitarem, mas viram-se mutuamente confrontados nos círculos de Londres. O precoce antagonismo entre os dois, agudizado por Leakey, é ilustrativo do drama da situação colonial: estavam em causa duas versões opostas da identidade kikuyu, ou duas perspetivas concorrentes, sendo cada um delas respetivamente encarnada por um e pelo outro em nome dos verdadeiros Kikuyu/Africanos [14].

Antes de se tornar, durante a década de 1950, no famoso paleontólogo que lançou a corrida em busca de homens e hominídeos préhistóricos, Louis Seymour Bazett Leakey levou uma existência bastante turbulenta [15]. Filho de missionários da Church Mission Society, nascido no Quénia em 1903, não muito longe do local de nascimento de Kenyatta, Leakey teve uma infância e uma adolescência próximas das dos jovens Kikuyu, cuja experiência compartilhou. Fluente na língua deles, incorporado aos treze anos num grupo etário, apaixonou-se ao mesmo tempo por coleções fósseis. Obrigado a romper com esse modo de vida rústico e livre, partiu para Inglaterra após a Grande Guerra a fim de proosseguir estudos. Na Universidade de Cambridge, frequentou durante um ano um curso que combinava arqueologia e antropologia, durante o qual seguiu os ensinamentos de Alfred C. Haddon, zoólogo de formação, reputado pelo seu trabalho etnográfico junto dos povos do Estreito de Torres e representante duma tendência que ainda conjugava a antropologia física e a antropologia material e cultural. Leakey regressou ao Quénia para realizar escavações e defendeu em 1930 a sua tese de doutoramento dedicada à pré-história. Foi nessa altura que a sua vida se tornou mais complicada. Envolvido numa controvérsia sobre a fiabilidade dos seus achados, que o desacreditaria durante muito tempo, viu-se ainda estigmatizado de outra forma quando se separou de sua esposa e deixou para trás os dois filhos a fim de se casar com outra mulher. Tendo perdido todo o apoio e sem quaisquer recursos, procurou regressar ao Quénia o mais depressa que pôde (Berman e Lonsdale 1991: 150-152, 156).

A sua fluência em Kikuyu já fizera com que fosse reconhecido como especialista desse grupo étnico. Chegara a lecionar em Londres, publicando inclusive sobre os Maasai e os Kikuyu (1931), e começara aí a figurar como contraditor do representante da Kikuyu Central Association, Johnstone Kenyatta, particularmente aquando da crise da clitoridectomia e do concomitante e súbito impulso anticolonial, sendo que o primeiro analisava o caso como resultando da perniciosa influência dos missionários, enquanto o segundo entendia ser uma consequência da crise de autoridade dos anciãos [16].

Em Londres, foi todavia em torno da pessoa de Malinowski e das suas conceções inovadoras em matéria de antropologia que a rivalidade entre os dois piorou. No início dos anos 1930 (Berman e Lonsdale 1991: 159-160), Leakey, em busca de financiamento, enviara a Malinowski um projeto para a criação de um East African Scientific Research Institute, abrangendo todos os campos de pesquisa, da antropologia à geologia, passando pela arqueologia, a paleontologia, a zoologia, etc., que se propunha fundar no Quénia e, é claro, dirigir. Tendo dúvidas quanto à solidez dos conhecimentos antropológicos de Leakey e estando pouco convencido da importância de projetar, em paralelo, um museu de história natural [17], o que considerava ser um conceito ultrapassado, Malinowski não apoiou a candidatura de Leakey, contrariamente à de Kenyatta a uma bolsa de estudos do IIALC, não o esqueçamos. Numa sessão em novembro de 1935 do famoso seminário de Malinowski na London School of Economics, dedicada à crise da clitoridectomia entre os Kikuyu, a apresentação de Kenyatta, com Leakey na assistência, redundou numa vigorosa altercação que começou em Inglês e, subindo de tom, terminou em Kikuyu. Este incidente talvez nunca tenha acontecido, mas esse tipo de confrontação e as invetivas em Kikuyu, sejam reais ou apócrifas, dão-nos bem o pano de fundo das relações entre estes dois contemporâneos [18].

Leakey conseguiu obter uma bolsa do Rhodes Trust [19] para levar a cabo uma pesquisa antropológica sobre os Kikuyu, o que lhe proporcionou alguns recursos e lhe permitiu regressar ao Quénia [20]. Ao mesmo tempo que retomou as escavações, realizou um grande levantamento etnográfico entre 1937 e 1939, de acordo com métodos muito específicos - voltaremos a este assunto. O facto de se ver ultrapassado por Kenyatta, cuja monografia tinha acabado de ser publicada em 1938, indispunha-o profundamente. A rivalidade entre os dois ganhou então uma dimensão acrescida, especialmente porque, sem ser nomeado preto no branco, Leakey terá sentido a alfinetada do autor, que na introdução se referia aos ’professional friends of the African [21]. Quanto ao seu próprio manuscrito sobre os Kikuyu, concluído em 1939, Leakey não conseguiu arranjar-lhe editor. A verdade é que não estava disposto a reduzi-lo (teria 1400 páginas, ao ser finalmente publicado em 1977), pelo que nenhuma editora aceitou publicá-lo sem cortes. Sê-lo-ia somente a título póstumo, mais exatamente cinco anos após a sua morte em 1972. Este é um primeiro contraste com Kenyatta, porquanto apenas alguns meses separam a defesa da sua tese de mestrado da publicação do livro. Outra diferença assinalável é a falta de enquadramento e de sentido crítico por parte de Leakey na condução do seu trabalho antropológico. Numa palavra, ele autovalidou-se, legitimando-se e à sua pesquisa pelo simples facto de estar familiarizado com o povo Kikuyu, de ser um quase-Kikuyu e um arqueólogo, num contexto disciplinar que o fazia ver a antropologia, na sua vertente cultural, como uma extensão da arqueologia e da antropologia física. Podemos ver claramente o desfasamento dessa proposta em relação à nova antropologia social defendida por Malinowski e, convém não esquecer, por Radcliffe-Brown. A rivalidade com Kenyatta, ativista da KCA, agora mestre em antropologia e autor duma monografia publicada, foi uma fonte constante de emulação na realização da sua pesquisa e na elaboração do manuscrito, talvez até o principal estímulo da sua empresa. Se Kenyatta nunca tivesse existido como autor, possivelmente Leakey nunca se teria entregue à mesma da mesma maneira.

Embora não tenha sido publicado, o manuscrito ganhou vida de acordo com modalidades particulares. Leakey deu-o a conhecer, permitindo que algumas pessoas, não muitas, o consultassem, o que era uma forma de atestar pelo menos a sua existência e a sua dimensão. Difundido desta forma, o manuscrito acabou por ganhar uma certa auréola, uma autoridade que ajudou a estabelecer a reputação de Leakey no Quénia como especialista dos Kikuyu. No contexto muito peculiar da Segunda Guerra Mundial nas colónias, e vivendo ainda de expedientes, Leakey, mobilizado pelo Exército, integrou os serviços secretos. Aproveitando ou sofrendo o efeito da sua própria competência, vigiou as potenciais ações subversivas dos ’nativos’, especialmente dos membros da KCA – a associação foi proibida durante e até mesmo depois da guerra – os quais terão sido tentados a juntar-se ao inimigo [22].

O pós-guerra foi para Leakey uma fase de renascimento profissional e social. Nomeado diretor do Coryndon Memorial Museum (museu de Nairobi) em 1944, organizou em 1947 o primeiro grande colóquio de pré-história africana em Nairobi (First Pan-African Congress of Prehistory and Quaternary Studies). Deixou de ser visto como um marginal na sociedade colonial, permanecendo ao mesmo tempo um ’professional friend of the African’, um acérrimo defensor do ponto de vista dos Africanos. E quando surgiu a ameaça da insurreição Mau Mau, que levou à proclamação do estado de emergência em outubro de 1952, ele parecia ser o especialista por excelência nestas matérias [23]. Foi consultor em numerosas ocasiões, solicitado por altos responsáveis, publicou inúmeros artigos em diversos jornais e escreveu dois livros a partir de materiais diretamente extraídos do famoso manuscrito e com grande sucesso comercial: [24]Mau Mau and the Kikuyu em 1952 e Defeating Mau Mau em 1954.

Desenvolvendo a ideia de que os juramentos Mau Mau, usados pelos rebeldes para recrutar apoiantes, eram uma perversão da tradição e resultavam das muitas frustrações impostas aos africanos para benefício de políticos sem escrúpulos, Leakey contribuiu para apontar Kenyatta (que regressara ao Quénia em setembro de 1946, ao fim de muitas hesitações, tendo sido recebido triunfalmente) como o instigador do movimento, bem como para a sua detenção em outubro de 1952. Requisitado em julgamento como intérprete oficial Inglês-Kikuyu, mas refutado pela defesa por ter escrito um livro (o de 1952) contra o acusado, Leakey foi forçado a deixar o tribunal (Murray-Brown 1974 : 262). Isso não afetou a sua autoridade de Kikuyu branco face ao Kikuyu ’destribalizado’, Kenyatta, que foi condenado a nove anos de prisão. Praticando uma espécie de antropologia aplicada, Leakey inspirou a política de reabilitação dos ajuramentados Mau Mau (Berman e Lonsdale 1991: 190).

Aquando da independência, uma conquista duramente alcançada nesta colónia de povoamento, Leakey pediu e obteve a cidadania queniana. Ao tornar-se o primeiro presidente do Quénia independente, não manifestou abertamente ressentimento em relação às atitudes de Leakey: ’Forget and forgive’ era o lema do ’Mwigwithania’ (o Conciliador). A crise Mau Mau, multidimensional, também havia sido uma guerra civil intra-étnica; e as opiniões dos rivais e inimigos Kenyatta e Leakey não divergiam em todos os pontos. E finalmente, Kenyatta, uma vez alcançada a independência, não queria que os brancos partissem. De facto, o Quénia não conheceu um êxodo comparável ao dos pieds-noirs que fugiram da Argélia em grande número. À frente do Nairobi National Museum, Leakey prosseguiu a sua carreira de paleontólogo, que foi impulsionada graças à descoberta em 1959, em Olduvai, na Tanzânia, das mais antigas ossadas humanas associadas a instrumentos (Sutton 2006: 294). Conseguiu então concretizar o seu projeto de criação de um museu de história natural, esboçado no início da década de 1930.

Que conclusões tirar da crise da descolonização, incontornável enquanto desfecho retroativo, que tem sido objeto de pesquisas históricas muito inovadoras nos últimos anos [25]? O que fazer deste conflito do ponto de vista antropológico? O que revela do ponto de vista da política ou da sociologia do conhecimento neste período? As suas consequências podem ser detetadas a vários níveis.

O posicionamento de Leakey enquanto paleontólogo e antropólogo contribuiu, no contexto do confronto colonial, para trocar as voltas ao estatuto da antropologia no Quénia, com uma perpetuação das categorias da antropologia pré-malinowskiana. Continuou a haver uma assimilação, quase até aos dias de hoje, entre a antropologia ou etnologia como ciência colonial e a antropologia física, a par de uma confusão persistente entre os Homo cada vez mais antigos e o Homo sapiens sapiens destas regiões [26].

As repercussões mais imediatas desse confronto foram as duas publicações de 1952 e 1954, escritas a ritmo veloz para esclarecer ou mesmo explicar a crise Mau Mau, de tal forma Leakey estava seguro das suas ideias a esse respeito. Devendo a própria existência a esta crise, ambos os textos permitem levantar a questão-chave da utilização ou manipulação dos costumes para fins louváveis ou condenáveis, assunto que tem originado uma série de obras consistentes e variadas. Em suma, esses dois textos interferem na presente análise, mas não se enquadram no seu âmbito (ver Peatrik 2014 : 87-93). Aquele que retém a nossa atenção é o texto original, anterior ao fenómeno Mau Mau. Pela sua simples existência e pela posição que ocupa relativamente ao texto de Kenyatta, esse manuscrito concluído em 1939 – publicado em 1977 em três volumes, num total de 1.400 páginas e de 650.000 palavras [27] – tem relevância direta para a questão da escrita antropológica em situação colonial nos anos 1930.

Eis uma interrogação preliminar: até que ponto os três volumes estão em conformidade com o manuscrito? Além da homogeneização da transcrição dos termos kikuyu e de várias verificações junto dos anciãos, o considerável trabalho editorial realizado pelas duas supervisoras implicou uma certa reorganização – sem todavia ir ao ponto de mexer na estrutura do manuscrito: ’Foi necessário reorganizar o manuscrito, que estava exatamente como Leakey o havia deixado aquando das suas discussões e entrevistas com os anciãos’ (Leakey 1977 : viii). Em seguida explicam: ’A metodologia específcia deste livro, a investigação e as ferramentas teóricas estão em conformidade com o estado do manuscrito de 1939’ (ibid. : ix). Um último retoque significativo foi a substituição da conjugação no presente pelo uso de formais verbais no passado. Em suma, pode concluir-se que o texto não está muito longe do seu estado original.

Da consulta destes três volumes emergem algumas particularidades – e trata-se deveras de uma consulta, já que uma leitura linear é praticamente impossível. Esta é outra diferença notável relativamente a Facing Mount Kenya, talvez até a maior diferença, pois quase engloba por si só todas as outras.

Na sua antepalavra, Leakey (ibid.: xi-xv) expressa o sentimento de que lhe escondiam muitas coisas, o que o perturbou de forma persistente durante a sua pesquisa. É certo que falava Kikuyu fluentemente, é certo que pertencia a uma classe de idade e que estava a começar a progredir nos escalões da antiguidade kikuyu, mas, aparentemente, isso não foi suficiente para que os seus interlocutores dissessem tudo o que tinham a dizer. Uma tal confissão pode fazer-nos sorrir – que etnógrafo nunca teve a impressão de que os seus interlocutores o estavam a enganar ou a reter informação ? – mas é instrutiva. Ela diz-nos algo sobre os próprios Kikuyu, que, como muitos povos destas regiões, praticavam regularmente rituais de iniciação que envolviam a aquisição, sob juramento, de saberes secretos destinados a testar os noviços e a selar um pacto ou um vínculo. Mas nos anos 1930, o segredo iniciático estava longe de ser uma categoria desenvolvida pela antropologia (Jamin 1977). Leakey foi, em suma, vítima de um primeiro desconhecimento, o das implicações da iniciação e da obrigação de permanecer em silêncio sob risco de perder a vida. Ainda assim, aquilo que julgou ter compreendido sobre os juramentos e a ’religião’ dos Kikuyu veio a estar na base das suas recomendações a respeito da reabilitação dos ajuramentados Mau Mau, método a que foi todavia posto um termo porquanto favorecia, contrariamente aos fins pretendidos, subsequentes ações por parte dos rebeldes Mau Mau [28].

Algo mais pode ser detetado em relação com o método de coleta do ’Kikuyu branco’. Foi com base nos conhecimentos adquiridos durante os seus anos de juventude que coligiu e completou as suas informações junto de uns quantos anciãos de sua escolha, dispostos a responder. Perante este arranjo, Leakey (que também conduzia escavações) baseou-se nas capacidades de mediação do ’chefe’ Koinange [29], com quem o seu pai e depois ele próprio mantiveram excelentes relações, praticando dessa forma uma etnografia de varanda e não de observação participante. Mas a sua juventude kikuyu não era suficiente para torná-lo o investigador competente que achava ser ipso facto. E é aí que surge um desfasamento adicional em relação a Kenyatta. É certo que este também foi buscar à sua juventude kikuyu material para a sua etnografia; ele também tinha uma base a partir da qual completar informações lacunares – tinha aliás contado com o apoio do seu meio-irmão, que permanecera no território, e com quem manteve correspondência (Kenyatta 1938 xvii). A diferença é que ele recebeu formação universitária de primeira classe e teve o devido enquadramento a esse nível. A questão da observação participante e da natureza da relação etnográfica, da formação recebida e do patamar dos conhecimentos e conceitos duma disciplina em franco processo de consolidação, formam assim o primeiro pano de fundo para a análise da etnografia de Leakey e da leitura que dela se pode fazer.

A outra grande questão, que decorre da anterior, diz respeito à economia da investigação no seu conjunto, tal como aparece nos três volumes. O objetivo do autor, nos anos 1930, consistia em abarcar um panorama da vida dos Kikuyu antes da chegada dos Brancos [30]: ’O estudo das leis e costumes kikuyu antes da chegada do homem branco... ’(Leakey 1977: 18). A esse trabalho de arquivista da oralidade seguir-se-ia necessariamente uma segunda parte: ’Uma investigação sobre as mudanças na vida, no pensamento e nos costumes kikuyu causados pela chegada do homem branco [31]’ (ibid.). Cada um destes termos, que correspondem a categorias significativas, poderiam ser examinados: a distinção entre ’law’ e ’costum’, a expressão ’coming of the white man’ para designar a conquista colonial, comparada noutra passagem com a chegada dos Romanos (ibid.: xii) portadores de uma civilização que fez evoluir os bárbaros britânicos segundo uma narrativa muito popular à qual Leakey aderia profundamente.

O nosso etnógrafo propõe enfim uma obra cujo objetivo é enciclopédico, dividida em secções que não deixam de fazer lembrar, sobretudo nos volumes I e III, as das Notes and Queries in Anthropology (não obstante as melhorias introduzidas nas edições do século XX, em particular a de 1929). Daí o método de leitura por consulta, nomeadamente a partir do índice e do muito extenso índice temático (73 páginas), muito revelador da intenção de Leakey e da sua visão do trabalho etnográfico. Na mesma linha, convém frisar que lamenta não ter podido integrar a descrição de certas técnicas e saberes artesanais, o que teria exigido um volume adicional (ibid.: xiii). Em suma, não há nenhuma dimensão saliente, nenhum fio condutor, a não ser por defeito, quando afirma de passagem que a família é a força organizadora da sociedade (ibid.: 1-3), em contraponto à obra de Kenyatta, que dava primazia, por um lado, à questão da terra (cap. II) e, por outro, ao sistema kikuyu de governo (cap. IX).

Poderíamos continuar a dissecar o texto de Leakey pelos seus erros ou opções datadas (mesmo para o seu tempo), mas ficaria a faltar a referência a um aspeto surpreendente que torna a leitura daquelas secções não apenas difícil, mas deveras fecunda, de tal forma os detalhes abundam: a forma como ele descreve os rituais e nomeadamente os ritos de passagem do ciclo de vida, especialmente no segundo volume, que surge menos disperso do que os outros. Leakey decompõe em sequências o mais pequenas possível todos os factos e gestos que acredita serem constitutivos desses rituais, como se lhe fosse obrigatório o esforço de isolar o elemento indivisível de cada processo ou gesto para obter uma descrição satisfatória. Ele encara a atividade ritual como uma atividade material. É tentador ver nisso a marca do trabalho do arqueólogo para quem o real é a soma dos restos recolhidos, dispostos de tal forma que indicam o todo donde provêm. Confrontado com o fluxo que é cada ato ritual, Leakey aplica uma grelha de leitura simétrica inversa. Assim, nestas páginas intermináveis e indigestas, encontrei os pormenores cruciais que me permitiram clarificar certos aspetos dos rituais funerários (Peatrik 1991) e, sobretudo, as implicações das modalidades híbridas de constituição do sistema etário e geracional kikuyu, provavelmente o mais complexo a ser decifrado na África Oriental (Peatrik 1994).

Um efeito final produzido por estes três volumes merece ser comentado. Leakey não dispunha de qualquer gramática ou vocabulário para analisar as modalidades e dinâmicas da sociedade ou do sistema kikuyu, mas a forma mais ou menos desajeitada como reúne as suas descrições produz uma espécie de vade-mécum que acaba por cobrir ou por conter observações pertinentes, ainda que implícitas: é o caso dos rituais que surgem como uma força motriz na produção do social e do político entre os Kikuyu. Ou a maneira como o autor se desembaraça de certos dados colocando-os ora no início ora no final da obra, dados cuja importância ele pressentiu, sem contudo conseguir integrá-los de outra forma. Em jeito de intróito, Leakey apresenta a biografia de um ancião (Kabetû wa Wawerû), um procedimento suscetível de comparação com as histórias de vida coligidas por Margerie Perham (1936) ou com a sua própria biografia (1937) mas que traduz sobretudo, sem que o nosso autor se apercebesse já que nunca tirou partido disso, um quebra-cabeças característico dessas sociedades (que aliás ele nunca designa como tais) onde a vida dos indivíduos espelha ou tende a espelhar a vida da sociedade e vice-versa (Peatrik 1995). Se por um lado a economia política global do ituîka - ou itwika, as duas transcrições existem - lhe escapa completamente, por outro não deixa de fornecer alguns elementos muito úteis a esse respeito. É assim que, sobre um assunto tão complexo, se sente à vontade para dar alfinetadas, na página 1281, aos ’two Kikuyy writers’, Parmenas Githendu Mockerie e Jomo Kenyatta – igualmente citados na pouco extensa bibliografia (Leakey 1977 : 1285): trata-se de uma breve passagem, mas um tanto insidiosa, uma vez que, independentemente da integridade académica de as citar, nivela a obra de Kenyatta pela reportagem de Mockerie.

Estas diferenças assinaláveis revelam o fosso que separava Leakey/Haddon de Kenyatta/Malinowski, mas isso não deve fazer-nos esquecer tudo o que aproximava os nossos dois rivais. As suas formas contrastadas de proceder, indicativas das profundas mutações na antropologia naqueles anos 1930, respondiam a um objetivo similar em termos de investigação: a busca dos autênticos Kikuyu para dar a conhecer este povo e corrigir os erros e injustiças cometidos contra o mesmo, fosse para melhorar o regime civilizador dos Brancos, no caso de Leakey, ou para (re)conquistar a independência, no caso de Kenyatta. Na colónia de povoamento que era o Quénia, a administração permaneceu, até ao final da década de 1940, hostil às pesquisas dos antropólogos, enquanto os ’nativos’ não tinham o direito de se deslocarem livremente, de se reunirem ou trocarem ideias. Num contexto tão pouco propício, a empresa do conhecimento antropológico encaixou-se nos interstícios do controlo colonial, ao mesmo tempo estimulada e delimitada pelos interesses da conquista e da legitimação da apropriação das terras africanas. O papel de Londres enquanto metrópole europeia, enquanto lugar onde era possível tomar a palavra e propagá-la, correspondeu ao de uma segunda instância onde essa exigência de conhecimento encontrou espaço para se concretizar.

Cruzando a biografia de Facing Mount Kenya, os textos sobre os quais nos debruçámos, conhecidos pelos historiadores, não constituem uma revelação. Em contrapartida, a análise comparativa dos respetivos autores e dos seus processos de escrita, a par da questão da difusão das obras, permitiu-nos trazer à luz do dia uma comunidade de destino esquecida, feita de rivalidades, de fluxos de ideias subjacentes, de influências recíprocas, constitutivas de modos de existência simultâneos ou ainda retroativos. As ligações detetadas entre os escritos de Mockerie, de Kenyatta e de Leakey, a exploração dessa intertextualidade, reforçam o estatuto científico de Facing Mount Kenya e revelam o efeito catalizador provocado pela pessoa e pelo projeto de Kenyatta. Em todos os casos, os projetos de escrita foram motivados por intenções políticas. A tensão estruturante entre a escrita científica e a escrita literária, identificada por Debaene, surge desmultiplicada numa situação colonial, mais precisamente no Quénia, pela dianteira que assumiu a escrita política. No entanto, a tentação literária não está ausente nem dos projetos de Kenyatta, nem dos dos seus parceiros de trajetória; no espaço assim gerado, uma última entidade entra em cena sob a forma de biografia, autobiografia ou auto-etnografia. Cada experiência de vida foi uma fonte de dados, o lugar ocupado no mundo por cada um desses autores deu-lhes respetivamente matéria para analisar. Os respetivos percursos tornaram-se objeto de reflexão, matéria a ser expressa e narrada, tanto mais que nestes universos da África Oriental o curso da existência individual – como já foi referido – fornecia (e de alguma forma ainda fornece) a escala da reprodução da sociedade. As atribulações e as querelas em torno da autoridade dos três rivais associados, sendo reveladoras do fazer etnográfico e da produção do conhecimento antropológico em situação colonial nos anos 1930, enquadram-se nas transformações da história da etnologia, pelo que a sua restituição pretende ser um contributo, através de novas ferramentas, para o desenvolvimento de uma antropologia dos próprios saberes antropológicos e etnográficos.

Epílogo

Na introdução à sua monografia, Kenyatta agradece nos seguintes termos a Raymond Firth, autor de We, the Tikopia (1936) e então assistente de Malinowski na London School of Economics (LSE): ’I am indebted to Dr. Raymond Firth for his careful reading of the manuscript and his technical advice on anthropological points [32].’ (1938 : xvii) Firth é também ele um agente, embora frequentemente esquecido, de Facing Mount Kenya. O We do título da sua monografia já implicava a questão do autor dos saberes antropológicos. Prosseguindo a sua carreira na LSE, Firth, que tudo indica ter continuado a corresponder-se com Kenyatta, tornou-se professor na mesma e, por ocasião de um seminário em 1966, cunhou o termo ’auto-etnografia’ referindo-se a Facing Mount Kenya e a Jomo Kenyatta, mas também à sua altercação em Kikuyu com Leakey. Assim o testemunha David Hayano (1979: 99-100), que assistiu ao seminário de Firth e que, num artigo exploratório sobre a questão da etnografia em casa, defende um uso renovado da auto-etnografia, uma forma limítrofe da biografia (Fabre, Jamin, Massenzio 2010).

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[1Traduzido do Francês por Frederico Delgado Rosa. Originalmente publicado em C. Laurière & A. Mary (org.), Ethnologues en situations coloniales, Les Carnets de Bérose, nº 11, Paris, Bérose – Encyclopédie internationale des histoires de l’anthropologie, 2019, pp. 330-362. Ver: http://www.berose.fr/?Ethnographies-rivales-les-Kikuyu-dans-le-miroir-de-l-ethnologie-coloniale-Kenya

[2Ver Peatrik, 2014.

[3NdT: Biólogo e divulgador científico britânico, escritor e humanista, viria a ser o primeiro diretor-geral da UNESCO. Ver adiante.

[4Os leitores da época aprociavam sobremaneira os relatos de caça nos trópicos. O de Mockerie relembra que os Kikuyu, além da agricultura e da pecuária, podiam praticar a caça, uma forma de desafiar a racionalidade administrativa colonial que delimitava e rotulava as tribos de acordo com hipotéticas especializações económicas.

[5Informações dispersas sobre a transmissão intergeracional de energia (itwika) estavam disponíveis em algumas publicações. Em 1934, Githendu poderia ou deveria ter consultado os exploradores missionários W. Routledge e K. Routledge (1910: 237-238) que evocam um misterioso culto chamado ’Ai-twî-ka’ [itwika] prestado a uma cobra; o administrador colonial C. W. W. Hobley (1922/1938: 209-219), num capítulo intitulado ’ The constitution and working of councils’, que liga a progressão nos escalões etários à celebração da ’ great itwika feast’ (212); ou a missionária Consolata C. Cagnolo (1933: 120-125) que fala do ’great secret called Itweka ’ e põe a ridículo a atmosfera de mistério mantida pelos anciãos. Duas outras fontes, escritas em Kikuyu, também lhe eram acessíveis na altura (sendo hoje raridades de muito difícil ou impossível acesso): cópias do pequeno jornal Muigwithania, publicado em 1928/1929 por Kenyatta; e o breviário de usos e costume, de 85 páginas, feito em 1934 na sua região por Stanley Kiama Gathigira, com o título Mikaiire ya Gikuyu [’Costumes’ kikuyu] (ver Berman & Lonsdale 1998). A existência destes textos revela que, nesses anos, os Kikuyu escolarizados, além de escreverem em Kikuyu (Peterson 2004), eram propensos a dedicar-se a uma intensa atividade de conhecimento dos costumes, com uma preocupação em realizar pesquisas entre os seus compatriotas; esses esforços eram aliás dificultados com frequência pela administração colonial, que temia esse tipo de iniciativa (incluindo por parte dos antropólogos profissionais; veja-se o caso de Evans-Pritchard no Quénia, em 1936; Sutton 2006: 298). Sob este prisma, Kenyatta, ao escrever Facing Mount Kenya (1938), participou do movimento, ao mesmo tempo que o transcendeu, ficando uma vez mais demonstrada a importância de seu encontro com Malinowski e da formação recebida numa ciência antropológica em plena ebulição.

[6Mockerie 1934: 64. Tradução da autora; o mesmo se aplica às citações subsequentes.

[7http://en.wikipedia.org/wiki/Julian_Huxley Consultado em 26 de abril de 2015.

[8NdT: Membros da Fabian Society e, em sentido mais lato, adeptos do Fabianismo, movimento político-social britânico originado em finais do séc. XIX, de ideais socialistas, promotor de uma sociedade gradualmente reformada, mais democrática e justa.

[9Willis 1992: 230-231; Calder 1983; Dubino 2012: 234-235.

[10Pelo menos dois outros opúsculos foram publicados nesta colecção patrocinada pelas igrejas e destinada a um leitorado africano (Ashton 1943). Este tipo de texto curto, habitualmente muito ilustrado, dedicado a grupos étnicos ou povos específicos, tornar-se-ia bastante popular, pelo menos no Quénia. Na encruzilhada da antropologia e das práticas etnográficas dos missionários, esses escritos constituem um locus adicional de produção de saberes populares de âmbito etnológico em África, quer antes, quer depois das independências.

[11Analisamos estes textos de uma forma significativamente diferente da de Berman & Lonsdale (1998), que foram os primeiros a considerá-los do ponto de vista da história política.

[12Isso reflete-se numa carta de B. Malinowski, datada de novembro de 1936, escrita em apoio à candidatura de Johnstone Kenyatta a uma bolsa de estudos do IIALC (International Institute of African Languages and Cultures), na qual o professor apresenta o seu aluno da seguinte forma: ’Gostaria de enfatizar, a título oficioso, a grande importância dessa candidatura para o Instituto, que é uma instituição fundamentalmente apolítica. O Sr. Kenyatta começou a trabalhar no meu departamento há dois anos. O seu ativismo político distorcia então tudo o que proferia. Este obstáculo na sua forma de pensar foi, creio eu, corrigido pela aprendizagem sistemática da arte do distanciamento enquanto característica do método científico. A influência altamente despolitizante da antropologia científica teve efeitos notáveis... Uma vez que o Sr. Kenyatta exerce uma influência considerável nos estudantes africanos, e no Quénia junto dos africanos instruídos, a sua presença contribuirá não só para o progresso da investigação teórica mas também para a afirmação da antropologia’ (citado por Berman e Lonsdale (1991: 161) As cartas de recomendação são um exercício muito particular e a descodificação deste género de documento exige uma certa cautela. Não esqueçamos que o Presidente da IIALC era ninguém menos que Lord Lugard, um dos fundadores do Quénia colonial, e teórico da Indirect Rule. O certo é que o testemunho de Malinowski aponta claramente para o esforço especial que Kenyatta teve de fazer ao escrever Facing Mount Kenya sob a orientação dos seus professores, e isso é o que mais nos interessa.

[13Título da autobiografia publicada em 1937 e que se tornou uma alcunha de Leakey. O Quénia era um tema popular entre o público britânico e os leitores eram ávidos desse tipo de saga (Dubino 2012: 232). Veja-se o sucesso de Out of Africa de Isak Dinesen (aliás Karen Blixen), nesse mesmo ano.

[14Cf. a nota exploratória de Benoît de L’Estoile (1997), esclarecedora a respeito a altercação ocorrida em 1951 entre Griaule e um africano chamado Taoré (ibid.: 98-100), embora menos convincente no que toca à Indirect Rule no contexto de uma colónia de povoamento.

[15A este respeito, baseio-me em dados disponíveis a partir das pesquisas pioneiras - inspiradas na corrente crítica da antropologia (Clifford e Marcus 1986) - realizadas pelos cientistas políticos e historiadores Carolyn M. Clark (1989) e, sobretudo, Bruce Berman e John Lonsdale (1991). Baseados em arquivos inéditos, esses trabalhos deverão em breve dar origem a um livro.

[16Na década de 1920, os missionários protestantes, particularmente os da Church of Scotland Mission, exigiram que os seus convertidos kikuyu abandonassem o costume da clitoridectomia. Com exceção da poligamia, a renúncia a muitos dos usos tradicionais não foi especialmente difícil para os convertidos que viviam a sua cristianização como uma promoção; contudo, aquela exigência, que mexia com a ontogenia e perturbava os imperativos matrimoniais, criou um conflito sem precedentes. Muitos cristãos Kikuyu deixaram as missões, fundaram as suas próprias igrejas e escolas (foi o começo das igrejas independentes e das escolas homónimas). A crise foi tal que a administração colonial conseguiu que os missionários protestantes renunciassem à sua campanha (Buijtenhuijs 1971: 84-86; 125-128).

[17A antropologia social defendida por Malinowski esteve na origem, recorde-se, da criação de centros de pesquisa em África, a começar em 1937 pelo Rhodes-Livingstone Institute na Rodésia do Norte (Brown 1973); seguindo-se, em 1948, o East African Institute of Social Research em Makere Kampala, no Uganda. Ambos foram dirigidos por antigos alunos de Malinowski.

[18As fontes relativas a esta altercação são tardias (Wax 1976; Hayano 1979: 99-100); Berman & Lonsdale (1991: 161 n. 19) não encontraram qualquer vestígio da mesma nos arquivos do seminário.

[19Fundação criada na Universidade de Oxford em 1903 a pedido de Cecil J. Rhodes, fundador da Rodésia, e um dos mais famosos protagonistas do projeto imperialista britânico. Malinowski, por sua vez, havia procurado obter fundos da Fundação Rockefeller, por conseguinte americanos, para financiar as bolsas de investigação do IIALC (criado em 1926).

[20Leakey formulou então um pedido de fundos adicionais ao IIALC, o qual foi rejeitado de forma ainda mais ácida por Malinowski, que pôs a ridículo as suas pretensões a ser antropólogo sob o pretexto de que falava fluentemente kikuyu: ’Poderia também confiar o estudo da história constitucional ou da organização económica do seu próprio país a um taxista de Londres’ (citado por Berman & Lonsdale 1991: 160).

[21Sublinhando que trazia à sua investigação um ponto de vista africano que os leitores descobririam com grande interesse, Kenyatta acrescentava a propósito de uma outra categoria de leitores: ’Ao mesmo tempo, estou bem ciente de que não poderia fazer justiça a todos sem ofender os ‘amigos profissionais dos africanos’ que consideram a sua amizade como um dever sagrado enquanto o africano se limitar ao papel do selvagem ignorante, a fim de que eles possam monopolizar a função de interpretarem os seus pensamentos e de falarem em seu nome. Para estas pessoas, o africano que escreve um estudo deste tipo intromete-se nas suas prerrogativas. É um coelho que se tornou caçador furtivo’ (Kenyatta 1938: xviii).

[22Berman & Lonsdale (1991: 152, 166, 174-178).

[23Uma seleção feita por H. E. Lambert ilustra a impressionante notoriedade adquirida por Leakey e pelo seu manuscrito. Este antigo District commissionner, justamente reputado pelo seu conhecimento da etnologia dos ’nativos’ quenianos, sentiu-se obrigado, na introdução ao seu livro (1956:v), cuja publicação foi motivada pela crise Mau Mau, a indicar que tinha consultado o referido manuscrito, quando na verdade as suas competências em muitas questões excediam largamente as de Leakey, sendo que estas duas personalidades da cena colonial subtilmente evitavam cruzar-se. A etnografia produzida pelos administradores coloniais, vertente adicional da antropologia em contexto colonial, é um campo promissor que os historiadores têm vindo recentemente a explorar (Berman 1992; Lonsdale 2015).

[24Paralelamente, e em ligação direta com a crise Mau Mau e a detenção de Kenyatta, Facing Mount Kenya também registou um rápido aumento no número de vendas (Peatrik 2014: 87-90).

[25Cf. a recensão de Hélène Charton (2011) das pesquisas recentes mais significativas: David Anderson, Histories of the Hanged. Britain’s Dirty War in Kenya and the End of Empire, 2005; Caroline Elkins Britain’s Gulag: The Brutal End of Empire in Kenya, 2005; David Branch, Defeating Mau, Creating Kenya, 2009; ver também Bethwell A. Ogot (2005) e o seu contributo para o debate sobre o Quénia.

[26É à sombra do prestigioso departamento de paleontologia, onde se concentravam créditos e prestígio, que foram desenvolvidas as coleções de etnografia do Museu Nacional de Nairobi, sob a direção de Leakey, assistido por Jean Brown, especialista em cultura material. O lado a-histórico da antropologia foi reforçado e a história pré-colonial praticamente não foi reconhecida como objeto de estudo (Sutton 2006; 2007). Este grande projeto aguarda o seu historiador-antropólogo, tanto mais que essa ala foi encerrada desde que o Parlamento queniano votou, em 2006, os novos estatutos dos museus nacionais. As salas de etnografia ’colonial’ do Museu de Nairóbi foram fechadas, sem qualquer outro plano alternativo que não seja a devolução das coleções aos museus locais. Um desperdício sem solução à vista por enquanto. Ao mesmo tempo, recorde-se que o destino contrastado de Facing Mount Kenya ajudou a selar esse desenvolvimento: o livro foi celebrado, bem como o seu autor, antes de experimentar um declínio muito acentuado e uma reversão da sua notoriedade no Quénia (Peatrik 2014: 93-102).

[27Dirigida por Gladys Beecher, irmã de Leakey, que se tornou esposa de um missionário, e Jean Ensminger, estudante de antropologia que viveu no Quénia. Ambas testemunham também a dificuldade em percorrer o manuscrito, de tal forma as páginas eram numerosas e o material abundante.

[28A prática dos juramentos era muito frequente na África Oriental e, de certa forma, ainda hoje existe. Juramentos de todos os tipos eram pronunciados nas mais diversas situações e mobilizavam uma gama muito ampla de usos e gestos, desde os mais inócuos às transgressões degradantes e deliberadamente impostas. Nesse contexto, a ênfase de Leakey nas suas obras de 1952 e 1954 quanto à barbárie dos juramentos Mau Mau como sinal de uma regressão no estado de civilização provocada pela desintegração dos costumes kikuyu após o choque colonial, além de ser equivocada, causou ainda mais perturbação nos espíritos, já que Leakey recomendava rituais de ’purificação’ para desvincular os ajuramentados. Leakey deu substância ao que pretendia combater e acabou antes por favorecer os juramentos. O reforço das aldeias, a informação, a promoção das rivalidades internas e o uso da força contribuíram muito mais eficazmente para a derrota militar (mas não política) dos rebeldes Mau Mau.

[29A personalidade de Koinange, que foi importante elo de ligação no que toca à etnografia de Leakey, é muito representativa das lutas constitutivas da arena política kikuyu, que tinha como uma das suas principais questões o conhecimento dos costumes kikuyu; essa é a razão pela qual politólogos e historiadores se interessararam sobremaneira pelos estudos de âmbito etnológico ou antropológico em torno dos Kikuyu. Koinange, um big man e chefe administrativo no centro de uma rede de influências, muito hostil à KCA, representa uma das principais fações que fragmentavam os Kikuyu. Um filho de Koinange, Peter Mbiyu, seria no entanto um dos mais sólidos aliados de Kenyatta. Githendu Mockerie era por sua vez representante de outra rede interna da KCA (Berman e Lonsdale 1991: 168-169, 176-178).

[30A data de 1903 indicada no título do livro corresponde na realidade à do ano do seu nascimento... no Quénia, recorde-se! Este pormenor diz muito, tanto sobre a posição do autor como sobre a dos brancos.

[31Concretizaria parcialmente essa ideia nos dois ensaios (acima mencionados) feitos a partir da sua etnografia e motivados pela crise Mau Mau.

[32’Estou grato ao Dr. Raymond Firth pela sua leitura atenta do manuscrito e pelos seus conselhos técnicos sobre determinados aspetos antropológicos.’