Nos trilhos da ruralidade brasileira e portuguesa: uma biografia intelectual de Colette Callier‑Boisvert

Sónia Ferreira

Universidade NOVA de Lisboa
CRIA

2019

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Pour citer cet article

Ferreira, Sónia, 2019. “Nos trilhos da ruralidade brasileira e portuguesa: uma biografia intelectual de Colette Callier‑Boisvert”, in Bérose - Encyclopédie internationale des histoires de l'anthropologie, Paris.

URL Bérose : article1774.html

Publié dans le cadre du thème de recherche « Histoire de l’anthropologie et archives ethnographiques portugaises (19e-21e siècles) », dirigé par Sónia Vespeira de Almeida (CRIA/NOVA FCSH, Lisbonne) et Rita Ávila Cachado (CIES-IUL, Lisbonne)

Colette Callier-Boisvert, etnóloga [1] francesa nascida a 21 de Dezembro de 1938 em Bangui na República Centro-Africana, contribuiu de forma marcante para a história da antropologia portuguesa através de uma investigação, iniciada na década de 60 na região do Alto Minho, que introduz questões inovadoras sobre mobilidade (migrações), género (lugar das mulheres) e mudança social.

A autora iniciou os seus estudos superiores em línguas e civilizações ibéricas na Universidade de Aix-en-Provence e em Etnologia na Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Paris (Musée de l’Homme). Tendo realizado, em 1965, uma tese de doutoramento na Sorbonne sob a orientação de Roger Bastide, intitulada “La migrante d’origine rurale à Recife, Brésil” (1965), inaugurou um ciclo de investigação que a acompanhará durante meio século.

A sua carreira académica dividiu-se entre dois grandes terrenos de pesquisa, no Brasil (Pernambuco: Recife e zona do Agreste) e em Portugal (Alto Minho), sendo que a investigação em Portugal precede cronologicamente a que realizará no Brasil. Iniciando-se em 1962, a conselho do então orientador Roger Bastide, o terreno português teria a função de familiarizar a autora com a prática etnográfica. A passagem por Portugal virá contudo a apresentar-se como muito relevante, consolidando-se ao longo de trinta anos de visitas intermitentes e acabando por se desenvolver em paralelo com a pesquisa realizada no Brasil. Importa mesmo sublinhar que os dois terrenos não se encontram apartados nas reflexões críticas de Callier-Boisvert, que refere como a ruralidade portuguesa lhe “permitiu ver o Nordeste do Brasil com um olhar já formado sobre as realidades lusitanas’ (1999: 12). Na realidade, os dois terrenos coexistem, permitindo não só o cruzamento de reflexões como a interpenetração de temáticas (mobilidade, parentesco, mudança social, etc).

No Brasil (1963), a sua pesquisa incidiu sobre o Nordeste do país, o Recife e o Agreste pernambucano, focando-se em temáticas como as migrações oriundas de regiões rurais e as dinâmicas urbanas em cidades de pequena escala e vilas. Nestas, analisou, entre outros, os sistemas de caciquismo e clientelismo, o lugar social e político das mulheres e a solidariedade e a estigmatização nas relações sociais. Nos anos 2000, Callier-Boisvert continua a pesquisar sobre o Brasil, numa reflexão continuada sobre o dinamismo dos modos de sociabilidade numa sociedade rural do interior de Pernambuco (Agrestina), datando de 2017 a sua última visita ao terreno.

Em Portugal, dedicou-se ao estudo de comunidades rurais com particular enfoque no Soajo (Alto Minho), freguesia sobre a qual produzirá Soajo, entre migrations et mémoire. Études sur une société agro-pastorale à l’identité rénovée (1999) [2], uma das suas obras mais relevantes. Esta, apesar de centrada numa única freguesia, não é considerada pela autora como tendo um carácter monográfico; por um lado, por não se orientar por uma abordagem holista, por outro por não ser um texto que revisite um terreno já anteriormente estudado [3]:

“Prefiro propor esta obra compósita, feita de contributos sucessivos, como um ensaio sobre a dinâmica de uma micro-sociedade centrado sobre a análise de um certo número de questões. A dimensão monográfica surge ’no final’, não pela exaustividade da abordagem mas pela uniformidade do objecto de estudo” (1999: 15).

Este distanciamento da monografia de revisitação deve-se também ao carácter múltiplo dos seus encontros com o terreno que, estendendo-se por quarenta anos de observação, produzem questionamentos temáticos e posicionamentos epistemológicos que necessariamente se vão acumulando.

Metodologicamente Callier-Boisvert situa a sua abordagem entre uma “etnologia do próximo” e uma “etnologia do exótico”, aliando a aproximação intensiva aos locais e aos seus habitantes com o seu estatuto de estrangeira. Realiza estadias de terreno prolongadas, próximas da prática etnográfica “clássica” no sentido de Malinowski (1884-1942), mas desenvolve em paralelo, quer no contexto português quer no contexto brasileiro, uma importante abordagem de antropologia histórica com pesquisa intensiva em arquivos. No Brasil, analisa o lugar das mulheres no início da colonização através da correspondência entre missionários jesuítas (1994a, 1998) e a classificação e nomeação dos gentios [4] (2000a, 2000b). No Soajo, a pesquisa nos arquivos paroquiais (1988, 1994b) dá origem a um conjunto de reflexões na área do parentesco, nomeadamente sobre a taxa de filhos ilegítimos enquanto indicador de hierarquias de género ou sobre o calendário matrimonial como revelador da alteração de comportamentos em relação ao casamento. Estes textos, ao introduzirem uma discussão comparativa com outros contextos (Grécia, França), inserem a discussão da autora numa antropologia europeia das sociedades camponesas.

Os trabalhos de Callier-Boisvert enquadram-se em termos gerais no movimento de renovação da tradição folclorista francesa [5], atualizando, na senda do trabalho de Marcel Maget [6], o olhar antropológico sobre as comunidades camponesas. Contudo, a orientação preferencial destes estudos era, a partir dos anos 60, e contrariamente ao que observamos em Callier-Boisvert, para locais situados no interior da França, revertendo o anterior movimento centrífugo [7]. Neste contexto, a influência posterior do estruturalismo imporá ainda uma agenda particularmente preocupada com o ritual ou o parentesco visível, na obra de Callier-Boisvert, em textos como “Remarques sur le système de parenté et sur la famille au Portugal” (1968). Tratando um objecto privilegiado da etnologia francesa deste período (Chiva, 2007: 105), esta sua análise permite-lhe igualmente enquadrar variáveis como a vida económica e política, a organização do trabalho e a tecnologia.

O Brasil do Agreste – género, clientelismo, poder

Nos anos 60, o êxodo rural para os grandes centros urbanos é uma realidade que não escapa às ciências sociais brasileiras; e o trabalho de Callier-Boisvert inscreve-se nesta corrente, como refere a própria: “Em 1963 inscrevo-me na continuidade desses estudos que tinham demonstrado a predominância das mulheres no êxodo rural, dedicando a minha primeira pesquisa à integração, nos diferentes bairros, dos migrantes que habitavam no Recife” (2014: 151). Esse trabalho evidenciou um duplo movimento de assimilação: uma suburbanização das migrantes nas zonas centrais (alagados) e periféricas (morros) e uma ruralização da cidade, sobretudo nas suas margens. É a partir deste estudo que nascerá o seu interesse pela área do Agreste, região de proveniência de uma parte das suas entrevistadas. Assim como para o terreno português, a importância do modelo dos estudos de comunidades rurais impõe-se neste contexto, acrescido pelas discussões teóricas e estudos de caso sobre os “camponeses” na América Latina. De resto, a sua formação no Instituto Etnológico de Paris assentava numa perspectiva americanista, associando a esta uma formação sobre sociologia rural e parentesco que será bastante visível na sua produção científica.

A escolha da região do Agreste, em particular do município de Agrestina, deve-se à necessidade de colmatar uma invisibilidade “académica”, já que a zona da Mata e a do Sertão eram alvo de olhares permanentes por parte dos cientistas sociais. Através do município escolhido, sem originalidade aparente, encontra um espaço social representativo da região: três quartos da população são pequenos proprietários praticando a policultura e a criação de gado, os residentes em espaço urbano são pequenos comerciantes, prestadores de serviços ou artesãos.

A problemática inicial centrava-se na análise das estruturas de poder locais, analisando, entre outras, as sociabilidades familiares, tanto em meio urbano como em meio rural, e procurando compreender a pertinência da distinção urbano/rural na análise das relações sociais. Algo que abandonará mais tarde em virtude da falta de pertinência dessa diferenciação. Na realidade, o espaço social encontrava-se dividido, não a partir da dicotomia urbano/rural, mas pelas figuras das famílias das elites locais que dividiam entre si o apoio e a subserviência da população, uma clivagem que neste período atravessava todos os aspectos da vida social da comunidade de Agrestina e que colocava desafios particulares ao observador:

“Para não demonstrar preferência, eu multiplicava os contactos com as famílias dos dois lados, sem contudo poder escapar à vigilância da contabilização das minhas relações. O meu estatuto de estrangeira e de etnóloga conferia-me uma certa liberdade para passar de um lado ao outro" (2014: 159).

A partir dos anos 90, Callier-Boisvert centra a sua investigação no Agreste em três temas que incidem sobre transformações do meio urbano: 1) a situação das mulheres; 2) as estruturas de poder local; 3) o desenvolvimento urbanístico. As suas reflexões no campo do género tinham já grande peso no trabalho desenvolvido em Portugal, mas também o terão no Brasil, onde o papel da mulher na sociedade agrestina constituirá uma reflexão central do seu trabalho. Este debruçar-se-á não apenas sobre as questões da família (organização, hierarquia, gestão da fecundidade), mas também sobre o lugar das mulheres no espaço público e na política local. Analisando a partir dos anos 2000 as relações de clientelismo (2007), Collier-Boisvert está particularmente atenta à variada produção histórica dos cientistas sociais brasileiros nesse domínio, como Maria Isaura Pereira de Queiroz, Raymundo Faoro, Marcos Vinicios Vilaça, ou Roberto Cavalcanti de Albuquerque. Esta questão estará no centro das estadias de terreno mais recentes (2002 e 2004), durante as quais analisará não só as relações clientelares como os papéis de género, nomeadamente a mobilização feminina nas eleições municipais de 2004.

Num artigo recente que sintetiza o percurso da sua investigação no Brasil, Callier-Boivert finaliza de forma auto-reflexiva: “Como concluir uma pesquisa tão prolongada no tempo e em que cada retorno tem repercussões no questionamento e na interpretação? (2014: 170).

O Portugal do Alto Minho: género, migrações e património

A investigação iniciada em Portugal na década de 1960 dará origem a um conjunto importante de publicações, para além da supracitada obra sobre o Soajo. Como, por exemplo, o artigo ’Soajo. Une Communauté Féminine Rurale de l’Alto Minho’ (1966), ou artigos generalistas sobre os estudos rurais em Portugal, em particular “La Vie rurale au Portugal. Panorama des travaux en langue portugaise” (1967), texto de síntese bastante exaustivo que procura conferir visibilidade à produção portuguesa na área. Mais tarde, Callier-Boisvert regressa ao Soajo (1994a, 1994c, 1994d, 1996) em textos que aprofundam a organização comunitária e a posse e gestão da propriedade, nomeadamente através da análise dos sistemas de irrigação. Neste âmbito produz importantes registos visuais, como dois filmes etnográficos intitulados “Trabalhos colectivos e regadio: a limpeza das poças e dos regos em Soajo, Alto Minho” (77m) em 1993 e “As Maias de 94, cavadas e lavradas em Soajo” (119m) em 1994, assim como um conjunto considerável de fotografias. Para além desta investigação que ocupa um lugar maior na sua produção sobre a ruralidade portuguesa, importa ainda destacar outras contribuições sobre temáticas de âmbito religioso, como a Romaria de São Bartolomeu do Mar – “Survivances d’un bain sacré au Portugal” (1969) – ou a festa de São Martinho – “A propos de la Saint-Martin, fête de transition” (1989).

Em termos cronológicos, os primeiros terrenos de Callier-Boisvert em Portugal ocorrem entre 1962 e 1964, sendo retomados vinte e três anos depois em 1987, prolongando-se até 1998. O afastamento físico de Portugal durante a década de 70 não a distancia contudo do contexto português, pois a partir de 1973 vai “renovar os laços com os camponeses portugueses” (1999: 12) ao produzir investigação sobre famílias da região de Poitiers oriundas do norte de Portugal, nomeadamente do Minho (Callier-Boisvert e Bretell, 1977; Callier-Boisvert, 1978, 1981, 1987). Em França, Callier-Boisvert coordenou ainda o grupo de antropólogos, formado em 1987, especialistas em antropologia portuguesa que integram o Centro de Estudos Portugueses da École des Hautes Études en Sciences Sociales, dirigido à época por Jean Aubin. O Grupo dinamiza sessões universitárias, promove publicações e organiza encontros científicos como o Colóquio “Ethnologie du Portugal: Unité et Diversité” (1992), que dará origem a uma relevante publicação (1994e). É neste contexto que Callier-Boisvert retoma o seu terreno português do Alto Minho, entre 1987 e 1998, após mais de duas décadas de ausência.

Para a história da antropologia portuguesa, a obra de Colette Callier-Boisvert insere-se no conjunto dos denominados “estrangeiros” (Leal, 2006), autores que produziram leituras antropológicas sobre a ruralidade portuguesa, afastando-se das realizadas no país até ao momento. Estas eram fortemente assentes no eixo cultura popular (de matriz rural) e identidade nacional, um binómio analítico que marcou a disciplina em Portugal desde meados do século XIX até à década de 70. Até esse período, como referem Brian O’Neill e Joaquim Pais de Brito, “Portugal permaneceu relativamente periférico como campo de investigação antropológica” (1991: 12). O trabalho de Callier-Boisvert ocorre precisamente neste contexto de renovação disciplinar, onde algumas pesquisas isoladas levadas a cabo por autores internacionais [8] ou por portugueses que fazem a formação académica avançada no estrangeiro, começam a surgir. Em simultâneo e com um carácter mais institucional desenrola-se o trabalho do Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, cuja figura de proa é Jorge Dias.

Callier-Boisvert, tal como os outros “estrangeiros” e “estrangeirados” (Leal, 2006), abre a realidade portuguesa a comparações analíticas indispensáveis para perceber a sua inserção em regiões culturais e em processos sociais mais vastos. Ao estabelecer comparações entre Portugal e a realidade rural da Europa Ocidental, nomeadamente de França, destaca a particularidade da realidade portuguesa, que consiste, para estes autores “estrangeiros”, num laboratório. Considera poder aí observar nos anos 60 processos já ocorridos noutras sociedades camponesas europeias, tais como os fenómenos migratórios, o êxodo rural, os processos de modernização e/ou de patrimonialização que, no contexto português, se desenrolaram de forma rápida e massiva, aproximando aldeias e vilas portuguesas das congéneres europeias em apenas três décadas.

No domínio específico das migrações e do género, serão três mulheres, antropólogas e estrangeiras, a deixar legados importantes para a história da antropologia portuguesa. Estas são Colette Callier-Boisvert (França), Caroline Brettell [9] (1986 [10]) (Canadá/EUA) e Sally Cole [11] (1971) (Canadá), as duas primeiras chegando a publicar em co-autoria um texto (1977) sobre a imigração portuguesa em França. A questão migratória terá particular destaque na obra de Callier-Boisvert sobre o Soajo, nomeadamente o modo como reforçou o peso económico e social das mulheres na vida da freguesia, provocando alterações nas estruturas económicas e sociais. A emigração constitui-se como factor estruturante da comunidade rural; e a leitura de Callier-Boisvert, um olhar em profundidade sobre as implicações desse fenómeno nas alterações dos papéis de género, revela assim uma preocupação por questões nem sempre destacadas nas monografias deste período. A sua obra debate e acentua dois vectores analíticos pouco considerados neste tipo de estudos: a) as relações de género, nomeadamente as alterações do papel da mulher nestes contextos; b) a emigração como realidade que desencadeia processos de mudança social.

Os processos migratórios são bastante antigos no Soajo, com migrações internas para centros urbanos como Lisboa, a emigração transatlântica (Brasil, Venezuela, EUA e Canadá) e mais tarde europeia (França e Suíça). A autora apresenta na obra sobre o Soajo (1999) um quadro cronológico onde não só organiza os fluxos migratórios por fases (três gerações – 1880-1930; 1940-1970; pós 1970) como por destinos, aos quais se juntam, para além dos acima referidos, a Austrália e a Nova Caledónia no pós Segunda Guerra Mundial, Cuba como porta de entrada para os Estados Unidos via Brasil entre os anos 40 e 70 ou Andorra no pós anos 70. O quadro apresentado pela autora permite-nos não só perceber quais eram os destinos directos como os circuitos mais complexos, onde os migrantes atravessam países e continentes em etapas distintas, permitindo a partir de uma microescala perceber tendências mais vastas da história da emigração portuguesa. A autora questiona ainda conceitos e temáticas chave da antropologia das migrações: residentes/não residentes; emigração de regresso e multi-localidade; casa/lar; participação na vida política e construção da cidadania; memória e construção do lugar; remessas de dinheiro e aquisição de bens.

O Soajo em destaque

Pela importância que a obra sobre o Soajo (1999, 2004) assume na produção da autora, cabe analisá-la mais aprofundadamente. A publicação constitui, a bem dizer, uma colectânea de artigos, alguns originalmente publicados em português e traduzidos e revistos para essa publicação, com uma amplitude temporal de trinta anos; integra textos publicados entre 1966 e 1996 e outros inéditos. Nas palavras da autora: “Esta obra constitui uma recolha de estudos, fruto de uma observação “no tempo longo” para a disciplina etnológica” (1999: 9). Tendo os terrenos de investigação ocorrido entre 1962 e 1998, a obra acompanha não só a evolução cronológica das temáticas abordadas como as mudanças ocorridas no próprio local de análise:

“O que me surpreendeu em 1962 foi a clara predominância das mulheres no seio da população soajeira, devido à emigração massiva dos homens e dos jovens, movimento precoce nessa região fronteiriça do Noroeste de Portugal, relativamente ao resto do país, que só conhecerá o mesmo fenómeno cinco a dez anos mais tarde. (...) No meu regresso ao terreno, retomei essa problemática centrada na mulher, focando o meu estudo sobre o tema das mães celibatárias e das crianças ilegítimas, que estava um pouco na moda no campo antropológico. No entanto, as pesquisas levadas a cabo a partir de 1987 são orientadas essencialmente para a análise das mudanças que pude observar nessa comunidade, em especial no que se refere as relações que a mesma mantinha com o ambiente circundante” (1999: 13).

A escolha do Soajo é justificada como terreno de pesquisa pelo interesse prévio da autora pelas questões das migrações e do êxodo rural. A freguesia é-lhe assinalada pelo seu antigo professor José da Silva Terra (Universidade de Aix-en-Provence) por ser um local que, desde 1962, apresenta um forte fluxo migratório para França, antecipando-se a um movimento que mais tarde se expandirá de forma massiva. Estes textos revelam assim a relação prolongada da autora com o terreno em causa e permitem aferir não só as mudanças operadas no próprio terreno como também os pressupostos analíticos e os interesses temáticos. Desde os anos 60 até 1998 a obra destaca três temas: 1) a questão demográfica como fio condutor para a temática da emigração, sendo esta resultado e catalisador da mudança social ao transformar a estratificação social e as relações de género; 2) a articulação entre comunitário/privado e individual/colectivo como escalas de construção do social e a relação entre organização social e configuração territorial, através da análise dos usos distintos da terra privada e comunal, da transmissão de direitos, da evolução do estatuto da propriedade e os sistemas de irrigação; 3) os processos identitários em situações de mudança. Estes últimos estão relacionados com o processo de patrimonialização da freguesia, através da sua integração no Parque Nacional da Peneda Gerês e da valorização do designado “património regional tradicional”. A obra integra as reflexões contemporâneas sobre processos de reconfiguração identitária associados à patrimonizaliação e turistificação de zonas rurais, como, por exemplo, os novos usos da tradição e as temáticas do desenvolvimento sustentável e da protecção e valorização do património cultural. No final dos anos 90, a autora chega a questionar a realidade local e a sua natureza “rural”: “É ainda uma sociedade agrosilvopastroral esta que se abre à curiosidade dos turistas?” (1999: 2018).

Ao longo da obra, Callier-Boisvert vai continuadamente inserindo a sua etnografia e as suas reflexões no conjunto mais vasto de obras e autores que, quer no passado quer no presente, trabalham sobre a realidade portuguesa. A obra entra em diálogo permanente com os antropólogos que constituem a história da disciplina em Portugal [12], mas igualmente os que a praticam no momento, os seus contemporâneos, como João de Pina Cabral, Joaquim Pais de Brito ou Brian O’Neill. A começar pela própria caracterização da aldeia:

“O Soajo é com efeito uma daquelas aldeias-comunitárias-tipo que serviram um certo discurso etnológico e que desencadearam um efeito de espelho na produção da identidade soajeira, o que não deixa de fazer lembrar o caso, paradigmático, estudado em Rio de Onor por Joaquim Pais de Brito (1996, op. cit.)” (1999: 21).

Epílogo

Inserindo-se na história da antropologia portuguesa pelo interesse demonstrado por um estudo de comunidade com características até então destacadas pelos trabalhos anteriores de Jorge Dias (Vilarinho da Furna (1948) e Rio de Onor (1953)), actualizados pelos autores que vinham modernizando o campo (José Cutileiro, João de Pina Cabral, Joaquim Pais de Brito ou Brian O’Neill), Colette Callier-Boisvert traz um olhar duplo que não só acentua o papel das mobilidades como factores de mudança como feminiza a ruralidade portuguesa ao destacar o lugar central e singular que as mulheres do Soajo ocupam na gestão da família, do território e da comunidade.

Tendo contribuído de forma marcante para a história da antropologia portuguesa é necessário não esquecer uma obra que enriquece igualmente a antropologia francesa, na sua renovação da análise da ruralidade, assim como a antropologia brasileira, contribuindo para os estudos camponeses da América Latina. Paralelamente, o facto de ter abordado de forma sistemática e temporalmente longa questões de género, sistemas de parentesco, estruturas políticas, migrações e tecnologias agrícolas confere à sua obra uma abrangência assinalável.

Referências:

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[1Sobre a diferença entre o termo “etnologia” e “antropologia” no contexto francês ver Macdonald (2008).

[2A obra será publicada em francês em 1999 e em português em 2004 numa versão aumentada.

[3Como, por exemplo, a obra de Joaquim Pais de Brito (1996) sobre Rio de Onor.

[4Termo de origem teológica que no contexto da colonização portuguesa do Brasil se refere aos primeiros habitantes do território colonizado. Callier-Boisvert analisará a utilização e evolução do termo neste contexto.

[5Do qual é importante destacar “as pesquisas desenvolvidas no Museu Nacional de Artes e Tradições Populares (os Atp), criado em 1956 por Georges Henri Rivière, e no Centre de recherches collectives, dirigido por Lucien Febvre e André Varagnac.” (Chiva, 2007: 103).

[6Marcel Maget (1909-1994), colaborador de Georges Henri Rivière, dirigiu entre 1948 e 1962 o Laboratório de Etnologia Francesa do Museu Nacional de Artes e Tradições Populares (MNATP) (1956). O seu trabalho incidiu maioritariamente sobre as sociedades camponesas em França, contribuindo tanto pela abordagem empírica como pela terminologia utilizada (“etnografia metropolitana”; “etnografia francesa”) para a consolidação da etnologia francesa moderna no período do pós Segunda Guerra Mundial. Para informação mais detalhada consultar Weber (2014).

[7“A etnologia francesa desdenhou literalmente durante bastante tempo as sociedades rurais do seu país. A força da escola etnológica, com o seu movimento centrífugo, explicam em parte essa situação assim como o postulado segundo o qual para poder compreender as sociedades será necessário escolhê-las o mais diferentes possível da cultura do observador” (Chiva, 2007: 103).

[8Com a excepção de Colette Callier-Boisvert, a presença de investigadores franceses é praticamente inexistente.

[9Caroline Brettell tem trabalhado ao longo da sua carreira maioritariamente sobre migrações, com enfoque nas questões de género, entre outras. Sobre imigração portuguesa trabalhou em França (Paris) e no Canadá (Toronto), produzindo leituras comparativas interessantes.

[10Edição norte-americana; a edição e tradução portuguesa são de 1991.

[11Edição norte-americana; a edição e tradução portuguesa são de 1994. A carreira de Sally Cole vai ser marcada por trabalhos na área da antropologia feminista, tendo como terreno Portugal, Brasil e Canadá.

[12Surge evocada mais do que uma vez a viagem de Leite de Vasconcelos ao Soajo e a partilha desse “terreno etnográfico”: “É interessante notar quais as imagens que nos ficam dessa sobreposição de diferentes visões que percorrem um século de observação, de 1882, data da ’excursão ao Soajo’ de José Leite de Vasconcelos até à minha mais recente estadia em 1987.” (1999 : 61).