Ver na mais espessa escuridão: Antonio Colbacchini e os primórdios da etnografia bororo

Filipe Verde

ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa

2019

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Verde, Filipe, 2019. “Ver na mais espessa escuridão: Antonio Colbacchini e os primórdios da etnografia bororo”, in Bérose - Encyclopédie internationale des histoires de l'anthropologie, Paris.

URL Bérose : article1767.html

Publié dans le cadre du thème de recherche « Anthropologie des basses terres sud-américaines » (Bérose), dirigé par Isabelle Combès (IFEA, CIHA - Santa Cruz de la Sierra ; TEIAA Barcelona), Lorena Córdoba (CONICET, Buenos Aires - CIHA - Santa Cruz de la Sierra) et Diego Villar (CONICET, Buenos Aires - CIHA - Santa Cruz de la Sierra).

Antonio Colbacchini nasceu em Bassano del Grappa (Vicenza – Itália) em 1881 e descobriu a vocação religiosa muito jovem. Ingressou nos salesianos em 1896, que então eram dirigidos por Michele Rua, o primeiro sucessor de Dom Bosco, que havia fundado a Ordem em 1859. Formou-se em Turim em filologia e teologia e foi após o fim dos seus estudos que solicitou partir como missionário para o Brasil, onde chegou em 1898 (ver Montero 2007).

Os salesianos haviam-se instalado no Brasil quinze anos antes, mas durante muito tempo a vocação pedagógica que caraterizava a Ordem foi exercida por via de colégios e liceus nas principais zonas urbanas – nomeadamente em Niterói e S. Paulo. Foi apenas a partir de 1893 que um conjunto diverso de circunstâncias levou à extensão da sua ação para regiões que então eram ainda de fronteira. O primeiro colégio dessa nova fase da atividade salesiana foi criado em Cuiabá, a capital do estado do Mato Grosso, e havia de se tornar a sede de uma rede de colónias missionárias que teriam um papel significativo na história das relações interétnicas da região. Foi nesse colégio que Colbacchini foi inicialmente colocado, como professor de ciências naturais.

Por motivo de doença retornou a Itália, onde permaneceu durante dois anos, regressando ao Brasil já como presbítero em 1905, para no ano seguinte iniciar a sua atividade missionária entre as populações nativas. A primeira colónia missionária instalada em territórios índios pelos salesianos foi a dos Tachos, na região do rio São Lourenço, então uma zona de conflito aberto entre as populações nativas da região, os Bororo [1], e as levas de mineiros e criadores de gado que desde há muito a iam ocupando. A história da criação e fixação das missões entre os Bororo foi descrita pelo próprio Colbacchini, num texto denominado Uké-Yagún, o nome do chefe bororo que veio a conhecer proximamente e que mais decisivamente influenciou o desfecho muito incerto do empreendimento nos seus passos iniciais. Colbacchini permaneceu durante trinta anos na região entre os rios São Lourenço e Araguaia, período durante o qual empreendeu na companhia dos índios a exploração e cartografia da região do Rio das Mortes e dos seus afluentes que descem da bacia amazónica. Foi também nesse período que se tornou etnógrafo dos Bororo, a razão do seu lugar na história da antropologia, e em particular da etnografia e etnohistória da América do Sul. Em 1937 foi-lhe atribuída pelo estado brasileiro a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul pelos seus serviços à causa missionária e à nação brasileira. Os últimos anos no Brasil passou-os no Colégio Salesiano de Campo Grande – cidade que se tornaria a capital do estado do Mato Grosso do Sul. Regressou a Itália, doente, um ano antes da sua morte, que ocorreu em 1960.

Colbacchini foi autor de três monografias sobre os Bororo – A Tribu dos Bororo (1919); I Bororos Orientali “orarimugudoge” del Matto Grosso (1925), em coautoria com um outro missionário salesiano, César Albisetti, que seria traduzida e publicada em português em 1942; e por fim, À Luz do Cruzeiro do Sul (1930). São os primeiros escritos sistemáticos e de intento global sobre a sociedade e cultura bororo, até então apenas descritas por Karl von den Steinen (Unter den Naturvölkern Zentral-Brasiliens, 1893), que com elas contactara num período e em circunstâncias muito particulares e atípicas da sua história e das relações entre os índios e as populações coloniais. São por muito tempo as obras de referência sobre essas populações, dado que – exceção feita a Herbert Baldus e Claude Lévi-Strauss, que os visitaram brevemente nos anos 30 –, apenas a partir da década de 70 do século XX os antropólogos os vão tomar como objeto de atenção etnográfica. Foram assim textos matriciais para o conhecimento desse mundo que havia de ocupar um lugar central em muitos dos debates que fizeram a história teórica da antropologia.

Os primeiros anos de Colbacchini nas missões coincidiram com um período de profunda incerteza sobre a sobrevivência destas, uma incerteza que só viria a terminar em meados dos anos 30. Na verdade, os salesianos conseguiram captar parte da população para as missões, mas não a conseguiram fixar. Como depressa se foram apercebendo, a sua ação não estava a converter os Bororo, e passados 30 anos da data da instalação da primeira missão os relatórios enviados para Roma reconhecem que a relação com os índios “fora esvaziada de conteúdos cristãos” (Vangelista 1996: 182). Frequentemente, aqueles que num momento se haviam considerado convertidos, que haviam sido batizados, adquirido um nome cristão, jurado a indissolubilidade do casamento, quando chegava o tempo seco partiam para as suas expedições de caça e coleta, retornando assim à sua vida tradicional, ou simplesmente abandonavam as missões para não regressar. “A vida na missão era o resultado de pequenas lutas diárias, combatidas com lições de catecismo, os batismos, as comunhões, os casamentos religiosos, a imposição de horários e de trabalhos agrícolas, a difusão de alimentação não submetida a regras tribais, o ensinamento de algum oficio” (ibid).

Mas, apesar das vicissitudes, os missionários foram permanecendo e alguns deles adquiriram assim um conhecimento profundo do mundo cultural bororo. Foi esse o contexto em que tomou forma e se concretizou um projeto etnográfico singular que se veio a estender por mais de um século. Colbacchini foi o primeiro, e porventura o mais importante, de um conjunto de autores salesianos que nos legaram algo grandioso no quadro da etnografia mundial. A literatura missionária sobre os Bororo perfaz milhares de páginas, divididas entre os textos monográficos de Colbacchini, a monumental Enciclopédia Bororo em três volumes (Albisetti & Venturelli, 1962-1976) e os trabalhos linguísticos, históricos e biográficos que os missionários foram e ainda hoje vão produzindo. Foi esse longo labor que tornou os Bororo uma espécie de locus classicus da reflexão etnológica sobre a América do Sul e, em geral, da reflexão antropológica. A intensidade e duração da relação entre os Bororo e os missionários, assim como o interesse que estes últimos por eles desenvolveram e a exaustividade e minúcia das suas observações e descrições, legaram à posteridade um retrato etnográfico sem paralelo no quadro da etnografia das Américas. Desse trabalho vieram a beneficiar os antropólogos que se tornaram etnógrafos dos Bororo, muito embora o justo valor, importância e influência que os textos dos missionários tiveram para suas obras não tenha sido sempre reconhecida.

Colbacchini escreveu as suas monografias “sem bibliografia”. Uma ou outra vez evoca a descrição e interpretação que Steinen fez dos Bororo e dos seus costumes para corrigir algum ponto específico, mas não há vestígios na sua obra da influência, ou sequer da leitura dos autores do evolucionismo social ou daqueles que transportavam durante esse período a antropologia para a dimensão particularista e culturalmente relativista e lhe davam uma feição objetivista. O vocabulário de Colbacchini meramente ecoa aqui e ali algumas noções que desde há muito haviam extravasado os textos dos especialistas – como totem, clã, matriarcado ou iniciação – mas estas são usadas por si com um propósito meramente descritivo. Ter escrito essas monografias “sem bibliografia” significa também que o fez sem “agenda” teórica. Tudo que o preocupava era descrever, e ao longo das suas páginas Colbacchini descreveu tudo o que pôde conhecer do mundo que observava, e pôde conhecer quase tudo: as qualidades vivenciais do quotidiano bororo; a organização e composição dos grupos sociais, do núcleo familiar e os costumes referentes ao casamento e descendência; o plano das suas aldeias e as regras e implicações simbólicas da distribuição espacial dos grupos; as crenças e “superstições”; a religião, ritualidade e categorias cosmológicas; as narrativas “lendárias” e os cantos; a música e a dança; a cultura material e as técnicas de caça e de pesca; a farmacopeia e práticas terapêuticas; as características físicas e doenças mais comuns; os padrões decorativos dos corpos e dos utensílios; o vocabulário e morfologia da língua bororo. Sobre tudo isso e tudo o resto, sem nenhuma outra ordem do que a sua sucessão, numa espécie de torrente descritiva, os textos de Colbacchini falam sobre aquilo que queria que esses textos sem bibliografia falassem. E não queria que falassem sobre outra coisa senão desse mundo que, singularmente, acabou por ser também um seu mundo: Colbacchini foi o primeiro missionário salesiano a ser tornado pelos Bororo Boe Imigera (“chefe”) e receber um nome bororo, num gesto de reconhecimento pela sua ação, que não foi apenas missionária e educativa mas também de defesa intransigente – num contexto social de grande violência – dos direitos nativos perante os interesses das populações que colonizavam a região e se iam apoderando do que restava então dos seus territórios.

Essa capacidade de trazer para os seus leitores de qualquer tempo – de então, de hoje e do futuro – um exemplar porventura esplendoroso da diversidade cultural, um testemunho do mosaico a que a globalização ocorrida desde o século XVI veio progressivamente pôr termo, não deve ser pensada como o resultado de uma equação simples equação de estar presente-conhecer-descrever. Colbacchini depressa descobriu o que também descobre todo aquele que convive proximamente e com um propósito inquisitivo sobre o que é culturalmente diferente: que procurar compreender esse outro “é como que querer explorar um terreno desconhecido na mais espessa escuridão” (Colbacchini 1930: 25). É essa afinal a razão pela qual a etnografia é um trabalho, um trabalho para o qual inicialmente Colbacchini está pouco preparado. Diferentemente do antropólogo que se guia por princípios relativistas e traz consigo um conjunto já testado de técnicas de inquérito, assumindo-os em função da ideia de que é possível chegar a conhecer e compreender o mundo que o acolhe, o missionário pelo contrário é ignorante dessas técnicas e é guiado pela assunção inabalável de que esse mundo é para si incompreensível enquanto for o mundo que é. Daí o seu desígnio de pela ação missionária chegar a transformá-lo noutra coisa –converter o selvícola num civilizado, o pagão num cristão. É a receita para o etnocentrismo pelo qual esse outro com quem se convive se torna um Outro, um exemplar essencializado do reverso da imagem que o próprio missionário tem de si enquanto ser humano.

Os motivos pelos quais a tarefa de chegar a conhecer esse outro pôde chegar a bom termo são naturalmente vários e de diversas ordens. Se por um lado os missionários sabiam que a sua intenção apostólica dependia da intensidade e qualidade do conhecimento que adquirissem do mundo bororo – e primeiro que tudo do conhecimento da sua língua, que os Bororo durante muito tempo guardaram para si –, por outro a duração e proximidade da sua relação com os índios teve como consequência a criação de afinidades e de uma curiosidade que progressivamente deixa de ser serva dessa intenção. E é precisamente nessa proximidade e nessa duração que Colbacchini encontra o meio pelo qual esse mundo inicialmente impenetrável se vai revelando. Como diz:

Para bem entender o índio e a sua psicologia, não é suficiente uma rápida e, as mais das vezes uma acrimoniosa penetração pelo sertão bravio, e nem é suficiente um contacto amistoso, que apenas algumas poucas fotografias provam; mas é preciso entrar amigavelmente na taba do índio, viver a sua vida, compartilhar da sua alma, vibrar das suas ânsias; é pela convivência na selva, com o filho da selva, e não só́ por poucos anos, que se poderá́ conhecer e entender quem é este rei absoluto do solo ainda virgem do verdadeiro Brasil, penetrar, por pouco que seja, na sua alma, sentir as vibrações do seu coração (ibid 5).

Colbacchini tem assim e inicialmente uma conceção instrumental do conhecimento que busca sobre o mundo bororo: a metáfora da escuridão diz mais que a imagem de um universo desconhecido e difícil de conhecer; ilustra também a finalidade de trazer aos índios a luz salvífica do cristianismo, de “libertá-los” da “ignorância e da superstição”, de os arrancar da “barbárie” e da “degradação moral” em que vivem, de forma a poderem finalmente “ver a sua vida debaixo de outra luz e melhor entenderam a sua dignidade humana.” (ibidem) E de facto a primeira monografia de Colbacchini é marcada em certas passagens por um profundo etnocentrismo. Um exemplo ilustra bem tal facto:

São eles a imagem perfeita do homem inteiramente livre, abandonado a si mesmo, às forças da própria paixão, e empanada a luz da inteligência e da razão, impressiona o mísero estado da mente e do coração deles. Sem lei, sem uma autoridade, sem um empecilho à força e aos estímulos dos vícios e dos erros; propensos a todas as paixões, sem uma palavra autorizada que os domine, sem um castigo que os detenha; míseros da mais profunda miséria, pela indolência e repugnância a todo o trabalho, é elevada ao máximo a sua degradação moral. (...) Desprezam os sacros deveres da família, as leis da humanidade são desconhecidas ou quase. (...) Não respeitam nem reconhecem o direito de propriedade (...) são vícios constantes a mentira, a hipocrisia e a vaidade: o orgulho deles está de acordo com a sua ignorância. À guisa de brutos, vivem deliciando-se no comer e nas paixões. (...) raciocinam muito mal. Como a sua língua apenas fala aos sentidos, e não têm ideias abstratas, é grande a dificuldade para fazer-lhes conhecer a força de uma verdade, ou a consequência de um princípio evidente (Colbacchini 1919: 7-8).

Foi através da sua relação com os índios que Colbacchini se descobriu como dividido entre dois mundos e, dir-se-ia de forma tão inevitável quanto o etnocentrismo inicial, desenvolveu assim uma dualidade relativizadora. Quando o missionário considera e avalia os costumes índios à luz da mundivisão europeia e cristã, e de início ele não tem outra alternativa, o seu juízo não vê senão trevas, o negativo do que considera definidor da humanidade; mas quanto mais ele conhece esses homens, pela “entrada amigável na sua taba”, pela partilha da sua vida no mato, das “ânsias e vibrações da sua alma”, quanto mais o missionário acede à “psicologia” do índio, mais é capaz de trocar o etnocentrismo pela proximidade empática, a repulsa pela identificação, a censura pelo respeito. Os Bororo permitem-lhe assim descobrir que a dignidade humana, que os atributos que tornam o homem homem, a inteligência, o bom senso, a sensibilidade estética e o gosto, a especulação metafisica, a moral e o caráter, são também atributos do “selvícola”. Em última instância, ao olhar e na avaliação do missionário, as crenças metafisicas e religiosas dos Bororo, a sua moral e a forma como esta se traduz na ação e na forma como se regulam as relações sociais, são inquestionavelmente o reflexo e manifestação do erro; mas quando se lhe torna possível pôr de alguma forma entre parêntesis, suspender o seu modo ocidental de aferição do que é o erro, abre-se-lhe a possibilidade de considerar os Bororo na perspetiva que idealmente caracteriza o olhar etnográfico, a partir de uma perspetiva interna, colocando-se de alguma forma no lugar do outro, avaliando-o por referência ao que faz dele outro, mas de um outro que nesse momento é já, e tanto quanto o pode ser, familiar. Vivendo em dois mundos que vivem lado a lado na missão, familiar a ambos, o missionário exprime continuamente nos seus textos essa dualidade e as contradições que lhe são inerentes. Depois das proclamações etnocêntricas, Colbacchini sublinha a nobreza de caráter dos indivíduos, a destreza do seu trabalho, a eficácia das suas técnicas, a profundidade das suas ideias e crenças sobre a realidade, o caráter singularmente regulado das suas relações sociais, a operacionalidade da sua medicina e mesmo das suas artes mágicas e divinatórias – Colbacchini chega a crer no incrível.

Talvez que o mais importante indício do valor etnográfico dos textos de Colbacchini seja o facto de o labor dos etnógrafos posteriores (Cristopher Crocker, Renate Viertler, Sylvia Novaes, e muitos outros – foram mais de vinte os etnógrafos dos Bororo) não ter acrescentado nada de qualitativamente relevante para o conhecimento sua da vida social e cultural. Nos seus textos monográficos “com bibliografia”, os antropólogos em alguns domínios – no parentesco, nos princípios e ordenações classificatórias, em alguns aspetos da organização social – pormenorizaram e reinterpretaram à luz das suas agendas teóricas elementos que no essencial já se encontram nas páginas escritas pelo missionário, que sobre eles teve a enorme vantagem de uma muito mais prolongada e próxima convivência com os homens e mulheres bororo.

O arquivo de Antonio Colbacchini, heterogéneo e composto de documentos manuscritos e datilografados de natureza histórica, geográfica, linguística e etnográfica – que cobrem também os seus inquéritos inéditos sobre os Shavante – e de um espólio de 200 fotografias, está depositado no Museu de Etnografia da Universidade de Turim.

Bibliografia

Albisetti, César & A. J.Venturelli 1962-1976 Enciclopédia Bororo, 3 vols. Campo Grande, Museu Regional Dom Bosco.

Colbacchini, Antonio n.d. Grammatica dei Bororos-Orarimugudoge del Matto Grosso (Brasile). Torino, Societá Editrice Internazionale.

Colbacchini, Antonio 1919 A Tribu dos Boróros, Rio de Janeiro, Papelaria Americana.

Colbacchini, Antonio 1925 I Bororos Orientali “orarimugudoge” del Matto Grosso. Torino, Società Editrice Internazionale.

Colbacchini, Antonio 1930 À Luz do Cruzeiro do Sul. Os índios Bororo-Orari do Planalto oriental de Mato Grosso e a Missão Salesiana, São Paulo, Escolas Profissionais Salesianas.

Colbacchini, Antonio & César Albisetti 1942 Os Boróros Orientais Orarimugodugue do Planalto Oriental do Mato Grosso, São Paulo, editora Nacional.

Colbacchini, Antonio nd Uké-Yagún. Cuiabá, Edições da Missão Salesiana do Mato Grosso.

Vangelista, Chiara 1996 “Missões Católicas e politicas tribais na Frente de expansão: os Bororo entre o século XIX e o século XX”, Revista de Antropologia, , vol. 39, nº 2, pp. 165-197.

Montero, Paula 2007 “Antonio Colbacchini e a etnografia salesiana”, Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 22, nº 64 (http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092007000200004)

Wüst, Irmhild 1998 “Continuities and Discontinuities: archeology and ethnoarcheology in the heart of the eastern Bororo territory”, Antiquity, vol. 72, no 277.




[1Os Bororo – que se denominavam a si mesmos Boe – ocupavam historicamente vastas regiões do Brasil central, nos atuais estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e da Bolívia oriental. A primeira aldeia arqueologicamente identificada como bororo data de meados do século XVIII e reproduz um padrão cultural muito mais antigo, dado haver “evidência arqueológica de uma continuidade cultural de pelo menos três séculos entre os Bororo atuais [i.e., da época dos primeiros contatos, ocorridos no início do século XVIII] e os seus antepassados” (Wüst 1994: 317) São remotamente aparentados com os grupos da família linguística Macro-Jê,