À sombra do discípulo: uma biografia de Charles Seligman

Adam Kuper

London School of Economics, Department of Anthropology

2018

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Kuper, Adam, 2018. “À sombra do discípulo: uma biografia de Charles Seligman”, in Bérose - Encyclopédie internationale des histoires de l'anthropologie, Paris.

URL Bérose : article1603.html

Nascido em 1873, Charles Gabriel Seligman era filho único de Hermann Seligman, abastado comerciante de vinhos em Londres, e de Olivia Mendez da Costa, descendente de uma respeitável família sefardita inglesa. Um dos seus antepassados em linha direta, Emmanuel Mendez da Costa, chegara a ser membro e depois secretário da Royal Society em 1747 – o segundo judeu a receber uma tal distinção [1].

Seligman iniciou os seus estudos na Saint Paul’s School, onde se sentia desmotivado e mesmo infeliz. Sua mãe, com problemas de saúde crónicos, subtraía-o com frequência à escola para que ele lhe fizesse companhia em estações balneares. Ambos os pais morreram prematuramente. Órfão aos onze anos, Charles foi enviado para casa de parentes afastados com quem se deu muito mal. As aulas particulares permitiram-lhe deixar o liceu, obtendo mais tarde uma bolsa para estudar patologia no hospital de Saint Thomas. Tornou-se membro desta instituição em 1896 e ganhou a ’Bristowe Medal for Pathology’. Apesar de uma prometedora carreira de investigador nesse ramo da medicina, fez tudo o que pôde, assim que o assunto lhe chegou aos ouvidos, para obter um lugar na expedição antropológica ao estreito de Torres. Foi em 1898, dois anos após a obtenção do seu diploma de medicina, que partiu rumo aos antípodas com a missão de estudar os povos das ilhas espalhadas entre a Austrália e a Nova-Guiné, integrando uma equipa de cientistas de Cambridge. Por parte de um jovem patologista, a decisão de embarcar num tal périplo até aos confins da Oceânia era menos estranha do que pode parecer à primeira vista.

À frente da nova geração de etnólogos que sucederam a Edward B. Tylor e a James G. Frazer, encontravam-se então discípulos de Charles Darwin e de Thomas Huxley com uma formação no domínio da biologia. Era o caso dos participantes da expedição ao estreito de Torres, que eram quase todos médicos ou antropólogos físicos – Alfred C. Haddon, William H. R. Rivers, William McDougall, Seligman e o seu amigo íntimo, Charles S. Myers. Ainda que Haddon e Rivers tenham procedido durante a mesma a pesquisas sociológicas, aliás pioneiras, uma grande parte do trabalho levado a cabo no estreito de Torres dizia respeito à antropologia física e às características psicológicas da população. O principal tema da investigação de Seligman era a patologia dos ilhéus, mas estudou também as crenças e as práticas médicas locais, analisou a utilização de plantas e de animais por parte dos nativos e prestou assistência a Rivers em algumas das suas experiências psicológicas –a primeira vez, a bem dizer, que a psicologia experimental moderna foi aplicada a indivíduos ditos primitivos, como eram então classificados. Seligman acabou, de resto, por intervir no terreno etnológico da competência de Haddon.

E apaixonou-se de tal maneira pela antropologia que chegou a encarar a possibilidade de se instalar como médico em Port-Moresby, na Nova-Guiné, aproveitando um lugar que lhe foi oferecido. Regressou contudo a Londres, onde retomou as suas pesquisas em patologia. Foi durante umas férias dedicadas ao seu grande hobby, a pesca com moscas, que conquistou a amizade de um americano de grandes posses, o major Cooke Daniels, conseguindo a proeza de lhe suscitar interesse pela Nova-Guiné. E foi na companhia deste personagem e de um assistente de laboratório que Seligman partiu novamente, em 1904, para a ilha melanésia com vista a realizar pesquisas que conduziriam, ao fim de esmerados aperfeiçoamentos ao longo de vários anos, à publicação de The Melanesians of British New Guinea (1910). Nesta obra, Seligman afirma que se operara uma mistura entre populações aborígenes papuas e imigrantes falantes de línguas melanésias, sendo que os papuas de pura extração eram fisicamente mais primitivos e culturalmente mais atrasados que os papuas-melanésios. O sucesso do livro não foi comparável ao obtido pela History of Melanesian Society de Rivers, publicada em 1914, mas justificou a contratação do autor pela London School of Economics (LSE).

Em 1905, Seligman casara-se com Brenda Zara Salaman, a mais nova de uma fratria de catorze filhos de um londrino abastado. Um dos irmãos, Redcliffe, amigo de Seligman e membro da Royal Society, alcançou notoriedade graças à sua história científica da batata. Brenda frequentou a Rodean School e depois o Bedford College, que deixou precisamente para casar com Seligman, mas sentindo-se preparada para se juntar a ele no terreno. Acabaria aliás por publicar os seus próprios ensaios antropológicos. Juntos empreenderam fecundas expedições etnográficas, nomeadamente entre os Vedda do Ceilão e no Sudão Anglo-egípcio. Uma e outra foram financiadas pelas respetivas administrações coloniais.

Se foi Haddon quem aconselhou Seligman a escolher os Vedda, isso deveu-se ao facto de privilegiar o estudo de caçadores-coletores que supostamente se contavam entre os mais primitivos e ameaçados de extinção. No Ceilão, o casal procedeu a uma divisão do trabalho: segundo o testemunho do próprio Seligman, ele deixava para a sua mulher ’the social stuff’. Quanto a ele, concentrava-se na pré-história, na cultura material e nos aspetos biológicos. Hoje, contudo, o principal interesse da sua obra sobre os Vedda reside talvez na descrição que fazem das suas próprias dificuldades no terreno:

No Ceilão, os Vedda são há muito vistos como uma curiosidade que desperta quase tanto interesse como as cidades em ruínas e é por isso que os europeus se instalam no casebre mais próximo da estrada principal e lá chamam os Danigala Vedda. Naturalmente, estes revelavam-se de início muito tímidos e pouco à vontade, mas quando perceberam que lhes bastava mostrarem rudeza e tartamudear uma qualquer resposta para ganharem presentes, foram suficientemente astutos para adotarem esse comportamento. Nisso, tiveram a ajuda dos aldeões, sempre amáveis, sempre prontos a dar ao homem branco exatamente aquilo que ele pretende. (...) O cacique Nilgala põe a correr a notícia de que estão para chegar estrangeiros, e então os Vedda afluem em grande número em direção a uma cabana assaz impressionante que têm num promontório rochoso e geralmente instalam um sentinela num grande rochedo a meio caminho (...). Quando as vimos, essas pessoas andavam cobertas de cinzas e usavam vestimentas vedda de couro, mas diz-se que voltam a vestir-se à cingalesa logo que interrompem a sua pose profissional. (...). De facto, parece que certos membros dessa comunidade não só aprenderam a representar o papel de homens primitivos profissionais como se tornaram especialistas. Tanto quanto se sabe, quem recebe os visitantes ou responde à convocatória do Sr. Bibile são sempre os que vão até à dita cabana, enquanto que os outros, que nós não vimos, não fingem ser selvagens [2].

Seligman tira daí a conclusão que os seus informantes deixavam muito a desejar. ’Quando tentamos levar mais longe a conversa, damo-nos conta de que é impossivel obter da parte deles dados fiáveis, uma vez que foram profundamente abastardados pelo facto de estarem constantemente a ser entrevistados por viajantes [3].’ Cerca de 1910, quando entrou para a LSE como docente, Seligman trocou a medicina pela etnologia, mas quando rebentou a Primeira Guerra Mundial, foi chamado a integrar as fileiras do Royal Army Medical Corps. Num assomo de patriotismo, foi então que alterou a grafia do seu nome, renunciando ao segundo n que ’Seligmann’ originalmente tinha. A decisão de deixar cair essa consoante germânica do apelido suscitaria este chiste por parte de Malinowski : ’How typical of Sligs to do things by halves !’ (É típico do Sligs [4] fazer as coisas pela metade). Nos anos 1918-1919, Seligman ficou a trabalhar no Maghull Hospital em Liverpool, um estabelecimento especializado no tratamento dos ex-combatentes que sofriam daquilo que Myers chamou de shell-shock [5], hoje designado como stress pós-traumático. Em Maghull, reencontrou os seus colegas da expedição ao estreito de Torres, Rivers, Meyers e McDougall, cujas experiências clínicas estimularam em todos eles um interesse pelas teorias psicanalíticas e em particular pelos sonhos. Rivers publicou uma obra na qual expunha as suas próprias teses sobre o tema, enquanto que Seligman aconselhou os seus estudantes no terreno – incluindo Malinowski – a lerem Freud e Jung e a tomarem nota dos sonhos dos seus interlocutores nativos. Finda a guerra, incitou os antropólogos a tomarem ideias de empréstimo aos psicanalistas e argumentou que os rituais, em qualquer parte do mundo, assentavam em processos inconscientes. Foi também após a guerra que Seligman retomou a pesquisa etnográfica anteriormente iniciada no Sudão anglo-egípcio.

Nessa altura, porém, deixou-se inspirar por uma inflexão teórica difusionista. Após as espetaculares descobertas arqueológicas de Flinders Petrie, promovidas pelo University College (UCL), a mais famosa das quais foi a descoberta do túmulo de Tutankamon, o Egito exerceu fascínio sobre os antropólogos. Aquando das escavações de Petrie, o próprio Rivers se deslocou ao local para estudar a perceção das cores por parte dos camponeses contratados pelo primeiro. Grafton Elliot Smith, colega de Petrie no UCL, anatomista e pioneiro da antropologia física, vinha desenvolvendo a tese heliocêntrica segundo a qual toda a civilização se teria difundido a partir do modelo egípcio.

O casal Seligman visitou o Cairo e passou vários meses no Sudão, onde levou a cabo um total de três expedições entre 1909 e 1922. Num artigo publicado em 1913, Charles Seligman lança a sua teoria ’hamítica’, que se tornou célebre na época, embora esteja hoje desacreditada, segundo a qual a civilização do Sudão fora introduzida por uma raça de conquistadores de pele clara oriundos do Egito. Ele afirmava que as ideias ’da grande raça branca que tinha nos egípcios pré-dinásticos um dos mais antigos e puros ramos conhecidos’ haviam ’infiltrado’ as regiões tropicais de população negra e que a vida social e religiosa das mesmas tinha traços em comum com o Egito [6]. No seu entender, ’a história da África a sul do Sara não é mais do que a da sucessiva injeção de sangue e cultura hamíticas, em diferentes graus e ao longo dos séculos, na população aborígene, negra e bosquímane’. Os Hamitas eram portanto ’a grande força civilizadora da África negra [7]’. Mais tarde, em Races of Africa, publicado em 1930, procederia a uma generalização e popularização da sua teoria difusionista e racial. Inspirado por James Frazer, identificou igualmente a instituição da realeza sagrada entre os Shilluk, atribuindo à mesma, é claro, uma origem hamítica.

Em 1932, os Seligman publicam The Pagan Tribes of the Nilotic Sudan, que constitui um antecedente importante em relação às ulteriores etnografias modernas, em particular no que se refere aos trabalhos desse outro grande protegido de Seligman, Edward Evans-Pritchard, que aliás era muito mais leal ao seu mentor do que Malinowski.

Eis mais uma página esquecida da história. É habitual pensar-se que foram as aulas de Malinowski na LSE a forjar a antropologia britânica moderna, mas na realidade ele e Seligman tinham um gentleman’s agreement quanto a repartirem entre si a orientação dos estudantes. Os interessados em antropologia social eram supervisionados por Malinowski e os que se inclinavam mais para a etnologia [8] e a pré-história ficavam sob a alçada de Seligman. Foi este, na verdade, e não Malinowski, quem orientou as teses dos primeiros africanistas saídos da London School of Economics, a saber, Evans-Pritchard, Isaac Schapera e Jack Driberg. Mais tarde, levará Siegfried Nadel a trabalhar no Sudão. A primeira ideia de Schapera para a sua tese de doutoramento consistia em trabalhar a partir do relato de Seligman da realeza sagrada dos Shilluk, instituição sobre a qual Evans-Pritchard escreverá um ensaio célebre. Ambos permaneceram fiéis ao legado de Seligman. Numa fase tardia da sua carreira, Evans-Prichard chegaria mesmo a defender o difusionismo; ele e Schapera fizeram uma tentativa pouco sensata de atualização da obra do seu mestre, Races of Africa. Entre os admiradores de Seligman, conta-se também o africanista e culturalista interessado nos fenómenos de difusão, Melville Herskovits.

No começo dos anos 1940, Malinowski convenceu a fundação Rockefeller a financiar os trabalhos da LSE em África, mas manteve Seligman alheado do processo, quando na realidade era um dos mais reputados africanistas do mundo, o que levou Evans-Pritchard e Schapera a saírem em sua defesa. Malinowski, com efeito, pretendia controlar uma nova geração de africanistas, que incluía Meyer Fortes, Audrey Richards, Lucy Mair e Hilda Kuper. Este episódio influenciou talvez a decisão de Seligman de pedir a demissão do cargo de docente em 1934, ainda que os problemas de saúde também tenham contribuído para tal, pois terá contraído uma infeção durante uma das estadias no Sudão. Em 1938, deu aulas em Yale durante seis meses; e há indícios de que Malinowski ficou a dever ao sempre dedicado mestre o convite deciviso para a sua carreira que lhe foi endereçado no ano seguinte por essa prestigiada universidade para ai lecionar.

Quando se reformaram, Charles e Brenda passaram a dedicar-se a outros dos seus passatempos, a coleção de porcelanas chinesas e japonesas. Em 1929, fizeram uma viagem de seis meses à China e ao Japão e, no regresso, criaram um pequeno museu privado em sua casa, em Court Leys, perto de Oxford, para exporem a sua coleção. Sligs chegou mesmo a forjar e publicar uma teoria segundo a qual o vidro e as contas teriam sido introduzidos na China a partir do Ocidente, uma difusão que, a longo termo, teria permitido o desenvolvimento de novos métodos de fabrico da porcelana. Resmungão e com pouco jeito para a vida em sociedade, Seligman era muito dedicado a Brenda, a qual se revelava mais dotada a esse nível, fazendo da sua casa nos arredores de Oxford, com o seu famoso jardim de íris e a sua coleção de artefactos do Extremo-Oriente, um local apreciado durante mais de três décadas por conhecedores e antropólogos de passagem. Seligman, a quem não se conheciam inimigos, manteve amizades de longa duração com os seus antigos colegas e estudantes.

Membro da geração de pioneiros da antropologia britânica, Seligman – a exemplo dos seus mentores, Haddon e Rivers – chegou até ela partindo da biologia. Tal como Rivers, insistia sempre na importância da fisiologia e das teorias psicólogicas para a pesquisa etnológica. Foi ainda na peugada do mesmo que se tornou difusionista. E desenvolveu como ele uma paixão pelo trabalho de campo – é ele o autor da célebre tirada segundo a qual o terreno é para a antropologia o que o sangue dos mártires é para a Igreja. Participou na expedição fundadora da etnografia britânica, a expedição de 1898 ao estreito de Torres, sob a direção de Haddon e de Rivers. E foi o modelo de investigação transversal praticado por Rivers na primeira fase da sua carreira que orientou o seu trabalho de campo.

De tudo aquilo que pode ser dito sobre Seligman – e não faço mais do que levantar a ponta do véu –, creio que o aspeto mais saliente da sua biografia é a relação problemática, ainda que fértil, com Malinowski. A história da London School of Economics está tão associada ao nome deste último que se perde de vista a sua história. Fica obliterada a relação entre os primeiros antropólogos da LSE e os seus homólogos sociólogos, Leonard Hobhouse e Morris Ginsberg, mas também, em especial, a relação que mantiveram com o fino-sueco Edward Westermarck, autor do único estudo verdadeiramente darwiniano sobre o desenvolvimento do casamento, que levou a cabo um importante trabalho de campo em Marrocos. Quanto ao genuíno fundador da antropologia nesse escola, ‘Sligs’ Seligman, simplesmente caiu no esquecimento.

Com efeito, perdeu-se de vista um ponto de referência fundamental nesse capítulo da história da antropologia. Deveriam ser celebrados em simultâneo o papel desempenhado por Seligman e um século de antropologia no seio dessa instituição de referência, iniciado justamente com a sua nomeação em 1910 para o cargo de professor de etnologia, o primeiro dedicado à disciplina. No ano seguinte, a escola decidiu criar um bacharelato em antropologia. Em 1913, a pedido do próprio, Seligman passou a dedicar-se só parcialmente à docência para ter tempo de fazer trabalho de campo. Quanto a Malinowski, foi também em 1910 que chegou à LSE. Sem dúvida, seria ele a transformar a Escola num foco de irradiação mundial para a antropologia, mas foi Seligman quem o guiou no começo da carreira e que facilitou a sua adaptação à instituição. Na sua excelente biografia de Malinowski, Michael Young escreveu:

Seligman fez pela antropologia em Londres o que Haddon fez pela disciplina em Cambridge, o que inclui a formação de missionários e funcionários coloniais. Mas um dos fatores que distinguem as suas carreiras respetivas, aliás comparáveis, foi a personalidade imprevisível do próprio Malinowski. Se é um facto que Haddon teve uma numerosa prole académica, ninguém tinha o potencial revolucionário do protegido de Seligman que era Malinowski, ninguém tinha a sua genial capacidade de mudar paradigmas. O volúvel polaco desconcertava esses dois homens tipicamente ingleses na sua honestidade; e Haddon só podia sentir alívio por o saber em Londres, mantido à distância [9].

Em 1911, Malinowski manifestou a intenção de acompanhar Seligman ao Sudão e mesmo de aprender árabe; o seu mestre tentou que ele obtivesse uma bolsa da LSE. Foi-lhe recusada por a administração da escola considerar que os recursos destinados à etnologia estavam já esgotados pela criação de um lugar de docente e do bachalerato. Seligman insistiu e orientou o discípulo para o seu primeiro terreno, a Melanésia. Conseguiu arranjar-lhe financiamentos e chegou a acompanhá-lo à Lan & Adler, uma loja de artigos coloniais. A aquisição mais cara, por seis guinéus, foi a tenda, mas Malinowski dar-se-ia conta, ao chegar às ilhas Trobriand, que era demasiado pequena, e compraria uma outra, aquela que se vê numa célebre foto do antropólogo.

Por fim, quando em 1927 a Escola decidiu criar uma cátedra de etnologia, a primeira na universidade de Londres, Seligman conseguiu que fosse atribuída a Malinowski. Foi a pedido deste que a mesma passou a ter a designação de antropologia social, uma premonição da rutura com a tradição representada por Seligman, cujos pontos de vista eram bem diferentes de Malinowski nessa matéria. O discípulo dedicou ao mestre os Argonautas do Pacífico Ocidental, mas Seligman gostava mais de Baloma.

O biógrafo de Malinowski, Michael Young, resume na perfeição a relação entre os dois homens:

Apenas onze anos mais velho que Malinowski, Seligman era para ele como um irmão mais velho e protetor, e não tanto uma figura paterna. Atormentados um e outro por uma saúde frágil, o sofrimento cimentou a cumplicidade entre eles, mantida através da troca de notícias sobre os mais recentes sintomas respetivos. [Encontram-se mais de 300 cartas nos arquivos da LSE] dando conta dos altos e baixos de uma relação pessoal e profissional que se estendeu por mais de trinta anos. De tempos a tempos, tinham discussões (...), mas até ao fim perdurou uma corrente profunda, subterrânea, de afeto mútuo (...). Foi Seligman quem insistiu junto de Malinowski quanto à importância crucial do terreno (...) ; foi Seligman quem obteve financiamento para o seu trabalho na Nova-Guiné; e foi graças à teimosia de Seligman que finalizou o seu doutoramento; enfim, foi em grande medida graças a ele que conseguiu um lugar na London School of Economics e ser promovido [10].

Sem Seligman, a carreira de Malinowski não teria tido o sucesso que teve; provavelmente ele não teria sequer sobrevivido às dificuldades do pós-guerra. E é certo que sem a experiência de Seligman, sem o treino que dispensou a Malinowski, a London School of Economics não se teria tornado o epicentro da antropologia social nos anos 1930.

Bibliografia complementar

Meyer Fortes, ‘Brenda Zara Seligman: A Memoir’, Man, 1965, vol. 65, p. 177-181.

James Urry, ‘Making sense of diversity and complexity: the ethnological context and consequences of the Torres Strait Expedition and the Oceanic phase in British anthropology, 1890-1935’, in Anita Herle and Sandra Rouse (eds) Cambridge and the Torres Strait, Cambridge University Press, 1998.

C. S. Myers, ‘Charles Gabriel Seligman’, Obituary Notices of Fellows of the Royal Society, 1941, vol. 3, n° 10, p. 626-646.

Michael Young, Malinowski: Odyssey of an anthropologist, Yale University Press, 2004.




[1Traduzido por Frederico Delgado Rosa. Este artigo é uma versão adaptada a partir de uma conferência em inglês (« C. G. Seligman : ’ Sligs ’ »), proferida na London School of Economics. Ver, em www.berose.fr, a rubrica de fontes secundárias do dossiê documental dedicado a Charles Seligman.

[2C. Seligman e Brenda Seligman, The Veddas (1911), p. 39-40. No original: « The Veddas have long been regarded as a curiosity in Ceylon and excite almost as much interest as the ruined cities, hence Europeans go to the nearest Rest House on the main road and have the Danigala Veddas brought to them. Naturally the Veddas felt uncomfortable and shy at first, but when they found that they had only to look gruff and grunt replies in order to receive presents they were quite clever enough to keep up the pose. In this they were aided by the always agreeable villagers ever ready to give the white man exactly what he wanted. (…) The Nilgala headman sends word when strangers are expected, then the Veddas repair to their very striking hut on the rock dome and often post a look-out on a big rock about half way up (…). These folk, who when we saw them wore their Vedda loin cloths and were smeared with ashes, are reported to wear ordinary Sinhalese clothes when not in their professional pose (...). Indeed it appeared that not only have members of this community learnt to play the part of professional primitive man, but there has even been specialisation, for as far as we could learn, the men we met at the look-out hut are those who always receive visitors or come to Bibile when sent for, while the others whom we did not see do not pose as wild Veddas. »

[3Ibid., p. 39. No original: « Further talk with these people showed that it was impossible to obtain reliable information from them, they had been utterly spoilt as the result of being frequently interviewed by travellers. »

[4Seligman.

[5Literalmente, o choque do obus.

[6« Some Aspects of the Hamitic Problem in the Anglo-Egyptian Sudan », The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, vol. 43, p. 593-705.

[7Ibid.

[8No sentido de história cultural.

[9Michael W. Young, Malinowski: Odyssey of an Anthropologist 1884-1920, 2004, New Haven, London, Yale University Press.

[10Ibid.