« Roma negra : a etnografia maldita de Henrique de Carvalho »

par Frederico Delgado Rosa

CRIA / NOVA FCSH, Lisbonne


2017

Pour citer cet article

Rosa, Frederico Delgado, 2017. « Roma negra : a etnografia maldita de Henrique de Carvalho » in Bérose, Encyclopédie en ligne sur l’histoire de l’anthropologie et des savoirs ethnographiques, Paris, IIAC-LAHIC, UMR 8177.

Mots-clés

Ethnographe amateur | Explorateur | Militaire | Seconde moitié du XIXe | Seconde moitié du XXe | Années 1880 | Années 1890 | Portugal | Angola | Lunda

Ignorado ou excluído ? O destino póstumo de Henrique de Carvalho

A densidade da etnografia de Henrique de Carvalho sobre o império lunda no momento em que este atravessava uma grave crise interna não pode ser dissociada das suas notas de terreno, e nomeadamente do diário da sua missão, essencialmente diplomática, ao serviço do governo português - ainda que sob a égide da Sociedade de Geografia de Lisboa. O original desse documento, conservado no Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa), foi transformado pelo próprio autor numa série de obras, entre as quais uma em quatro volumes de cerca de 700 páginas cada, publicados pela Imprensa Nacional entre 1890 e 1894 com o título Descrição da viagem à mussumba do Muatiânvua [1]. Infelizmente, as dimensões e a extrema minúcia do texto - mas também o facto de ser escrito em língua portuguesa - tornam difícil a leitura para os historiadores da antropologia não lusófonos e contribuem, de alguma forma, para a invisibilidade de Henrique de Carvalho, um « antepassado excluído » por excelência. [2] Conforme escreve a historiadora e especialista da região, Beatrix Heintze, que desde há muitos anos luta pelo reconhecimento dessa obra, pelo menos nos meios africanistas : « (...) qualquer pessoa que não esteja particularmente interessada nos pormenores logo se sente esmagada pelos relatos de Henrique de Carvalho. Os investigadores que se dedicam à Angola oriental e ao Congo do sul de finais do século XIX, por muito que sejam ávidos de conhecimento, parecem também eles capitular mais cedo ou mais tarde diante dos seus escritos. Uma perfeita ilustração desse escolho é o facto de, apenas ser tida em conta a sua síntese etnográfica e histórica - e isto quando Henrique de Carvalho chega sequer a ser citado. » [3]

Heintze refere-se à obra em um só volume, Etnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda, de 1890, de que Victor Turner traduziu e publicou alguns excertos em 1955, no Rhodes-Livingstone Journal, com o título « A Lunda love story and its consequences : selected texts from traditions collected by Henrique Dias de Carvalho at the court of the Mwantianvwa in 1887 ». [4] A love story em questão é entre a princesa lunda « Luéji » [5] e o caçador estrangeiro chamado « Chibinda Ilunga » [6], por quem ela se apaixonou nas margens do rio « Calanhi » [7]. O seu casamento esteve na origem do império e o seu filho tornou-se o primeiro Muatiânvua. Limito-me a evocar brevemente uma parte do trabalho de Henrique de Carvalho que, uma vez comparada com outras etnografias da Lunda e de contextos historicamente relacionados, está no epicentro de um debate antropológico bem conhecido entre estruturalistas e historiadores da África bantu, entre outros intervenientes. Mas uma vez mais o seu nome (já para não falar do dos seus mediadores africanos) é geralmente relegado para as notas de rodapé ou para a bibliografia das obras dedicadas ao grande tema do herói civilizador, do caçador estrangeiro que desposa a princesa autóctone e funda o reino sagrado. [8] Um exemplo do estado de coisas que lamenta Heintze encontra-se em Le roi ivre ou l’origine de l’État, onde Luc de Heusch (p. 182) resume aquilo a que chama a « Versão Carvalho » [9]. Abstendo-me de dar aqui conta da história desse debate [10], chamo a atenção para o facto de que, entre os seus participantes, é a antropóloga portuguesa Manuela Palmeirim quem mais importância dá à versão do mito fundador apresentada por Henrique de Carvalho.

Em Pioneiros africanos : Caravanas de carregadores na África Centro-Ocidental (entre 1850 e 1890) (2004) [11], Heintze vai mesmo mais longe e afirma que « a importância [da obra monumental de Henrique Dias de Carvalho], no que respeita à multiplicidade e à variedade dos pormenores e à enorme diversidade de facetas, não só não foi suficientemente reconhecida até agora como tem sido completamente ignorada fora do espaço de língua portuguesa. » [12] Convém precisar que, apesar da ’descolonização’ bastante radical da antropologia praticada hoje em dia em Portugal, continua a ser possível, no seio de instituições lusas menos marcadas pela autocrítica, fazer o elogio de Henrique de Carvalho em termos que contrastam com as críticas pós-coloniais da produção antropológica e etnográfica do seu tempo. Encontramos algumas ilustrações disso mesmo em Memórias de um Explorador. A Colecção Henrique de Carvalho da Sociedade de Geografia de Lisboa, catálogo da exposição com o mesmo nome realizada em 2012 na Sociedade de Geografia de Lisboa, no âmbito do projeto de investigação « EXPLORA - A colecção Henrique de Carvalho : Património museológico e construção de saberes nos fins do século XIX ». [13] Há que reconhecer, de uma forma ou outra, que é preciso uma certa audácia para reabilitar uma figura inegavelmente imperialista que a ditadura de Salazar integrara no ’panteão’ dos ’heróis do ultramar’ de finais do século XIX e de princípios do XX. Várias obras hagiográficas lhe foram dedicadas durante o Estado Novo [14] e o seu nome foi atribuído à capital da província da Lunda. O livro de Johannes Fabian Out of Our Minds : Reason and Madness in the Exploration of Central Africa (2000) é um exemplo do desconhecimento internacional de Henrique de Carvalho, conforme o faz notar Jan Vansina na respetiva recensão. Em tom crítico, chega a afirmar que aquela obra tem mais valor para os « teóricos da antropologia » do que para os historiadores, a quem « pode chocar a omissão de exploradores que poderiam ajudar a ver a questão sob outro ângulo », tais como, precisamente, Henrique de Carvalho. [15]

Uma outra dimensão do ’esquecimento’ de Henrique de Carvalho é detetável em alguns dos seus sucessores no terreno, sobretudo etnógrafos belgas, tanto amadores como profissionais, que revisitaram o núcleo do velho império, entretanto transformado, já no contexto do Congo belga, em chefatura de dimensões locais. O africanista belga e professor de etnologia na Universidade Lovanium de Leopoldville (Kinshasa), Daniel Biebuyck, escrevia em 1957, num artigo da revista Zaïre onde não figurava qualquer menção ao nome de Henrique de Carvalho : « Se bem que os nossos conhecimentos etnológicos das populações da África belga permaneçam ainda muito limitados, é espantoso que o poderoso grupo dos Lunda tenha de ser incluído entre essas culturas sobre as quais não sabemos praticamente nada de muito concreto. Poderíamos esperar que a sua densidade, a extensão da sua dispersão, os contactos históricos bastante antigos, a especial situação geográfica [16] e a grandiosa organização política fossem suficientes para chamar a atenção científica e política sobre essa cultura. Isto salta especialmente à vista no que diz respeito aos Lunda setentrionais, cujas instituições praticamente não foram afloradas. Ora, esses Lunda dependem diretamente do chefe supremo Mwaantayaav e ocupam, ainda nos nossos dias, a região donde irradiava o império lunda. » [17]

Ao apresentar aos leitores os resultados do seu contacto com o terreno no mês de abril de 1957, Biebuyck propunha-se « colmatar tais lacunas » ou pelo menos « estimular investigações em profundidade sobre a cultura dos Lunda ». [18] É certo que a figura de Henrique de Carvalho nem sempre é ignorada ou deixada na sombra pelos etnógrafos desse contexto no século XX. Hermann Baumann, por exemplo, em Lunda. Bei Bauern und Jägern in Inner-Angola. Ergebnisse der Angola-Expedition des Museums für Völkerkunde, Berlin [19], reconhece que o « explorador » português foi « der beste ältere Kenner Lundas » (no passado, o melhor conhecedor da Lunda) [20]. Dito isto, as menções à sua obra são geralmente breve e, de facto, só dizem respeito a Etnografia e história tradicional dos povos da Lunda [21]. Para melhor se apreender a dimensão desse tipo de negligência historiográfica em relação a Henrique de Carvalho, e sem perder de vista essa sua monografia sobre os povos da Lunda, o presente artigo propõe-se explorar preferencialmente os tomos ’malditos’ da descrição da viagem à mussumba do Muatiânvua.

Num primeiro momento, porei em evidência o facto de que a nacionalidade portuguesa e a dimensão imperialista da figura de Henrique de Carvalho o levaram a invocar a antiguidade das relações entre a cultura europeia e o continente africano, precisamente graças aos Portugueses - algo que os outros exploradores europeus tendiam a escamotear nos seus relatos. As representações vernaculares do rei de Portugal (chamado Muene Puto) e do seu « irmão », o Muatiânvua constituem, a esse respeito, um tema dominante, que acaba aliás por interligar as diferentes partes deste ensaio. Desenvolverei em seguida o tema da sensibilidade etnográfica de Henrique de Carvalho que, em virtude da sua longa permanência na Lunda, foi mais um precursor da revolução etnográfica do que propriamente um explorador. Procurarei igualmente pôr em evidência o peso enorme das componentes políticas da sua etnografia : o cronista das intrigas da corte lunda quase poderia ser encarado como um antropólogo político avant la lettre. Aprofundarei em particular as suas relações com o príncipe exilado Xa Madiamba, pretendente ao ’trono’ lunda, que Henrique de Carvalho decidiu acompanhar até à capital imperial. O presente artigo termina com o encontro final, impossível, entre essas duas entidades míticas que eram o Muene Puto e o Muatiânvua.

« Muene Puto » : a recusa da África virgem

« (...) [Q]ue não corra como novo, o que para nós é antigo. » [22] Esta frase de Henrique de Carvalho resume a sua atitude deliberadamente discordante face aos exploradores europeus que procuravam dar uma imagem heroica e solitária das respetivas proezas em África, descurando a dívida que tinham para com os numerosos mediadores autóctones. Por detrás daquela invetiva, estava desde logo a convicção de que os africanos ou luso-africanos [23] que empreendiam ou participavam nas caravanas em direção ao interior do continente eram os representantes contemporâneos da antiga, plurissecular influência da colonização portuguesa em África. Longe de veicular a imagem de um continente virgem, do ponto de vista europeu, Henrique de Carvalho acentuava pelo contrário a importância de todos aqueles que, sem terem mapas, conheciam muito bem os itinerários a seguir, as cortes imperiais do centro do continente e as populações que lhes estavam sujeitas.

Henrique de Carvalho contava entre esses mediadores os sertanejos, comerciantes de Angola, que não eram só brancos, contrariamente a certas ideias feitas [24], tampouco só homens. Pode ser evocado o nome de Dona Ana Joaquina dos Santos e Silva, também conhecida como Dembo e Alala [25], que foi uma mulher de negócios tão temida quanto afamada [26]. Escusado é dizer que o mais célebre sertanejo, até mesmo além fronteiras, foi António Silva Porto, devido ao polémico retrato que dele fez David Livingstone, depois de o ter encontrado de forma perfeitamente inesperada em Linyanti, a capital do Barotze [27], a 13 de julho de 1853. Em Missionary Travels and Explorations in South Africa, publicado quatro anos mais tarde (1857), o missionário e explorador escocês apresentava Silva Porto como um negreiro mestiço, um « half-caste » que nem sequer sabia ler um mapa, enquanto que para Henrique de Carvalho ele tornar-se-ia o símbolo de um saber adquirido, sobre os locais, as gentes, as suas línguas e os seus costumes. Livingstone inaugurou dessa forma toda uma ’tradição’ de apagamento dos sertanejos na literatura europeia, bem como dos seus pombeiros (emissários ou agentes que frequentemente percorriam os itinerários no lugar dos seus patrões), ou ainda dos ambaquistas. O nome destes últimas vinha-lhes da ligação histórica que tinham com o velho entreposto esclavagista de Ambaca, outrora florescente, onde a ação evangelizadora dos jesuítas engendrara uma classe de africanos letrados que, após a expulsão da ordem pelo marquês de Pombal em 1759, continuou reputada pelas suas competências de escrivães e pelas artes e ofícios, por exemplo de sapateiro e de alfaiate. « E, coisa notável », escrevia Henrique de Carvalho, « o ambaquista, o afamado ambaquista, esse vulto com quem se topa a cada passo no centro do continente, diz-se, e é conhecido por branco (...). » [28] A sua descrição dos ambaquistas tem lugar cativo na historiografia. Se, de um ponto de vista linguístico, Henrique de Carvalho não hesitava em afirmar que os ambaquistas tinham adulterado a língua portuguesa, ao imbricarem-lhe palavras e construções kimbundu, embora conservando amiúde um pomposo estilo ancien régime ; e se de um ponto de vista religioso só lhes via um verniz de Cristianismo, considerava indiscutível em qualquer caso que eles perpetuavam costumes europeus, a começar pela indumentária, que participavam da ideia de Portugal e, sobretudo, que a difundiam.

O ofuscamento de todos esses personagens explica-se não apenas pela vontade de glorificação pessoal por parte dos exploradores europeus que não portugueses [29], mas também pela intenção de negar os pretensos ’direitos históricos’ que Portugal procuraria afirmar sobre essa região do mundo, num crescendo inversamente proporcional à desagregação do velho paradigma esclavagista, até à Conferência de Berlim de 1884-1885. [30] Para uns, aqueles indivíduos - fossem portugueses ou luso-africanos - não representavam senão vestígios ignóbeis, degenerados, abastardados, [31] enquanto que para os outros, ou seja, para os portugueses, e de forma especialmente aguda para Henrique de Carvalho, eles tinham conseguido o milagre de manter viva uma noção de Portugal, associada sobretudo a uma certa imagem omnipotente do rei de Portugal, que ele encontrará disseminada sob a formulação africana de « Muene Puto » [32], até nos confins da Lunda. « (...) [A] influência de Muene Puto existe mais arreigada quanto mais nos internamos. » [33] Voltarei a este assunto. A própria designação da expedição de Henrique de Carvalho - Expedição Portuguesa ao Muatiânvua - contradizia perfeitamente a ideia de exploração, fazendo antes sobressair o nome de um potentado bem conhecido dos portugueses, com o qual mantinham relações desde há muito, inclusive relações diretas. É certo que ele tinha também por incumbência substituir os ’mapas mentais’ dos africanos e luso-africanos, sem qualquer suporte físico, por mapas ’europeus’, científicos e de papel, mas o facto é que permanecia acima de tudo um diplomata encarregue de concluir acordos políticos e comerciais com os potentados autóctones, e nomeadamente com o Muatiânvua. [34]

Explorador ou precursor da revolução etnográfica ?

Henrique de Carvalho viu-se obrigado e tomar decisões verdadeiramente epistemológicas face ao caudal de informações ou de rumores que vinham de leste : notícias transmitidas tanto por via oral, como por mondo, o grande tambor da região, ou ainda por escrito, graças às cartas escritas em português ambaquista pelos secretários de diversos senhores da Lunda [35]. Essas transmissões, aliás, diziam muitas vezes respeito ao acontecimento extraordinário que era a própria expedição e à figura do respetivo chefe, enquanto representante do Muene Puto [36]. « Acuarunda, ó chipata congolo cabuíco cabuíco, cacuete mendu iacuopatajana, uazeza, uaxica (Povo da Lunda, valentes ; o que tem calças (cobertura nas pernas) de que todos somos filhos, veio, chegou). » [37] Ele era o homem « de quatro olhos », ou « o leão » (por causa da longa barba que deixou crescer no terreno) e o que « sabe de tudo » e « fala de tudo como se já tivesse andado por cá muito tempo ». [38] Uma circulação, portanto, de leste para oeste e vice-versa. Recorrendo a critérios de historicidade ’ocidentais’, Henrique de Carvalho esforça-se sistematicamente por cruzar as diversas fontes, por identificar as omissões, triar os acrescentos e as variantes dos relatos de natureza política sobre o presente e o passado. [39] Procurava dessa forma obter dados fiáveis no terreno, que poderia mais tarde apresentar enquanto tais aos seus leitores (mas primeiramente ao governo português), quando na realidade esse trabalho era indissociável, não apenas do registo, mas da participação em centenas de discussões sobre a vida política local. Beatrix Heintze chama a atenção para o facto de que, a despeito do seu constante desejo de clarificação, Henrique de Carvalho não escondia quão dura se revelava uma tal tarefa : « Em cada instância, ele partilha com o leitor as suas próprias dificuldades em avaliar as situações que lhe eram relatadas. » E sobretudo, procurava reconstituir o contexto de cada versão, captando muitas vezes as estratégias que se escondiam « por detrás dos boatos », o que nos permite ainda hoje visualizar o que estaria em causa politicamente. [40]

Henrique de Carvalho, contudo, dá a entender que a existência de escrita além do rio Kwango [41], nomeadamente a circulação de cartas escritas por ambaquistas em língua franca portuguesa com laivos de Kimbundu, dizia sobretudo respeito à contemporaneidade [42] ; que não se tratava da produção de manuscritos que procurassem documentar o passado segundo uma modalidade propriamente historiográfica. Daí que não hesitasse em afirmar que « não há documentos escritos » sobre « a história daqueles povos » e que os seus próprios trabalhos nesse domínio eram pioneiros, pelo menos para a Lunda. [43] Considerando a fragilidade física dos arquivos autóctones, bem como a importância política das evocações históricas ou míticas, é difícil ter certezas a esse respeito [44]. O facto é que o alfabeto estava longe de ser desconhecido na região da Lunda, pelo que as horas que Henrique de Carvalho diariamente dedicava à escrita, registando as palavras dos seus informantes em cima do acontecimento ou mais tarde, sozinho na sua tenda, eram devidamente descodificadas pelos seus ’anfitriões’, como o sinal inegável de um saber acumulado. « Não anda só a passear », dizia-se a seu respeito ; « está escrevendo e lendo livros de noite para conhecer bem as terras ». [45] Estes comentários suscitados pelo seu trabalho são de uma grande importância para uma história da antropologia que procure ter em conta a evolução, num tempo longo, das formas de perceção autóctones da produção escrita, literária ou científica : « O que mais estranharam em nós, era o nosso amor da investigação, e a nossa perseverança. Víamos por exemplo, numa povoação, defronte ou ao lado de uma cubata, uma tosca figura imitando um homem, cortada à faca numa tabuínha (...) ; víamos uma planta disposta com esmero (...), e não nos contentávamos em conhecer os seus nomes : muquixi, quissonde, etc. Para bem podermos interpretar tudo isto, entrávamos numa série de indagações (...). Apreciavam muito estas nossas indagações e daí despertava-se-lhes a curiosidade em fazer confrontos com o que a tal respeito poderia existir nas terras de Muene Puto. » [46]

Sem entrar no debate historiográfico a respeito da genealogia da noção de cultura em antropologia, pode notar-se que o emprego do termo, por Henrique de Carvalho, traía ao mesmo tempo uma tensão e uma compatibilidade entre o universalismo evolucionista e o particularismo etnográfico : « Têm os povos de rude civilização a que chamamos selvagens sua cultura também, que na linguagem espelho dela se amostra com delicadeza de significado e cambiante de ideias por vezes tão diversas e quase sempre tão peculiares ao seu desenvolvimento intelectual e ao seu grau moral, que só o largo e familiar convívio e a demorada prática no-la destrinça. » [47] O seu levantamento da literatura da época [48], quer antes quer depois da expedição, estava longe de ser exaustivo, mas tornava-o consciente, em todo o caso, do grau de minúcia do seu próprio trabalho etnográfico e das lacunas que o mesmo colmatava para a região da Lunda, pois só coligindo « entre essas tribos os necessários documentos etnológicos » é que se poderia apreciar « as diferenças » características de cada uma. O seu discurso tem inequívocas tonalidades boasianas avant la lettre, pela sua insistência nos estudos regionais - os « que mais importa fazer » -, pela procura de uma palavra autóctone por detrás dos objetos e dos gestos, ou ainda pela perceção do facto de que os fenómenos de difusão cultural entre povos vizinhos não significavam que os traços partilhados tivessem o mesmo aspeto e o mesmo sentido : « (...) algumas diferenças, que nos mesmos se encontram de tribo para tribo, tornaram-se características, têm para assim dizer um cunho especial, e é necessário que o observador note essas diferenças, pois o que muitas vezes se pode considerar como prolixidade, não o é realmente. » [49]

Esta dimensão da sua obra é indissociável, de resto, da atenção que prestava à linguística. Em 1890, de regresso a Portugal, Henrique de Carvalho publica a obra Método prático para falar a lingua da Lunda. Este projeto revela a gradual perda de importância dos intérpretes ao longo da expedição, ou pelo menos o caráter dispensável da sua presença, e o estabelecimento de relações mais diretas entre Henrique de Carvalho e os seus numerosos interlocutores africanos. Daí que se achasse em posição de criticar fortemente a inultrapassável incompetência linguística dos exploradores estrangeiros, não lusófonos, que sabiam menos no final das suas expedições do que ele no arranque da sua : « Não é numa rápida viagem - e demais com intérpretes que das línguas modernas só mal conhecem a portuguesa -, que se estuda o português para entender intérpretes e povos que se demandam. » [50] Segundo Beatrix Heintze, « nenhum outro estudioso que tenha viajado além do Cuango [no século XIX] (...) deu tanta importância como Henrique de Carvalho à aprendizagem das línguas locais. » [51]

Cronista das intrigas da corte ou antropólogo politico avant la lettre ?

Se a obra de Henrique de Carvalho abunda de conteúdos de natureza etnológica no sentido mais clássico do termo, respeitantes às instituições ditas tradicionais, é indiscutível que a descrição da trama política de um império africano em declínio acentua a sua singularidade entre as etnografias do século XIX. E se esse fresco minucioso ocupa sobretudo os quatro volumes de Descrição da Viagem à Mussumba do Muatiânvua, completados, como ele próprio fazia questão de dizer, pelo manuscrito do seu diário [52], também se estende na realidade à sua Etnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda, cujo capítulo « Sucessão dos Muatiânvuas » incluía a história mais recente. Não há pois que manter apartadas as diferentes obras de Henrique de Carvalho. Embora tenham múltiplas dimensões, a que sobressai e torna ímpar a sua etnografia é sem dúvida a restituição, em filigrana, da complexidade política das relações sociais no decurso da própria expedição. Tratava-se com frequência da reconstituição palavra a palavra das numerosas conversas em que participava, e cujo grau de verosimilhança se revela indiscutível. Henrique de Carvalho refere-se muito explicitamente a essa complexidade política autóctone, quer quando compara as intrigas da corte lunda às das Europa, quer quando procura pôr em evidência as suas particularidades. Só uma leitura integral do seu diário, dizia ele uma vez mais com insistência, podia dar aos leitores uma ideia das verdadeiras dimensões desse « labirinto », ou ainda, para utilizar um outro termo da sua eleição, da « teia » em questão, acrescentando de forma muito significativa que a mesma « se foi constituindo em volta de nós ». Eis uma ou duas passagens que falam por si : « (...) O gosto da intriga nasceu com o género humano e a civilização só o tem modificado e aperfeiçoado, dando-lhe nomes diversos, mais pomposos e agradáveis ao ouvido ; até lhe chamam política ! Porque não havemos de admitir também que entre estes povos gentios se faça política ? » Frequentemente, em Descrição da Viagem à Mussumba do Muatiânvua, Henrique de Carvalho limitava-se a transcrever diretamente do seu diário passagens inteiras ou frases, como esta : « E digam que estes homens não têm também a inteligência precisa para interpretarem as praxes, o que constitui as suas leis, segundo o que mais convém aos seus fins, e isto é decerto, para eles, o que entre nós se chama fazer política. » Ou ainda : « Chegámos a convencer-nos que (...), ao contrário do que se dizia, a ação da autoridade era nula, existia a independência individual, e apenas, por conveniência, cada um aparentava receios daqueles a quem chamavam os seus amos, chefes, enfim Muatas. » [53]

Henrique de Carvalho foi confrontado com um tal turbilhão de acontecimentos que os seus leitores, hoje como ontem, têm fortes chances de se sentirem perdidos. A passagem que se segue é uma síntese da reconstituição bem mais extensa que só cotejando uma série de relatos vernaculares ele acabaria por fazer. A minha intenção é apenas dar uma ideia de certos temas dominantes da sua etnografia, ao mesmo tempo como resultado e como praxis.

Numa aldeia distante da capital do Anzavo, mas ainda pertencente a este domínio feudatário do Muatiânvua, vivia no exílio desde 1870 ou 1871 um príncipe chamado « Xa Madiamba ». [54] Era o um dos filhos mais velhos do imperador « Noéji » [55], da época, bem conhecida dos Portugueses, em que o sertanejo Joaquim Rodrigues Graça tinha residido na corte lunda, entre 1846 e 1847, não na qualidade de comerciante, mas em nome do rei de Portugal, melhor dizendo, da rainha, Dona Maria II. (Henrique de Carvalho trazia consigo o relato de Rodrigues Graça - um assunto a que voltarei mais adiante.) Xa Madiamba tinha sido « Suana Mulopo » [56] de seu tio, o Muatiânvua « Muteba » [57], e por conseguinte estava bem posicionado para lhe suceder. Sucede que a mais alta dignitária da corte, a « Lucuoquexe » [58], conspirava para a ascensão ao ’trono’ do seu próprio filho, conhecido pelo nome de « Xanama » [59]. Eis por que ela procurou por todos os meios afastar Xa Madiamba, persuadindo-o de que estava a ponto de ser assassinado pelo Muatiânvua Muteba. Quando este descobriu o que tramava a Lucuoquexe, ordenou a sua morte, lançou o corpo às águas do rio e exortou Xa Madiamba a regressar, recomendando-lhe todavia que desconfiasse do seu sobrinho e primo Xanama, que estava possuído pelo desejo de vingar a mãe. Temendo pela sua vida, Xa Madiamba ficou no exílio. Muteba foi assassinado com veneno de serpente de ação lenta e Xanama acabou por tomar conta do Estado.

Este Muatiânvua revelou ser um verdadeiro Calígula africano. Tendo jurado que arrasaria a Lunda inteira se as ossadas de sua mãe não fossem resgatadas uma a uma das profundezas do rio, foi ele sem dúvida um dos grandes responsáveis pela decadência do império. Entre as práticas sádicas que se lhe atribuíam, contava-se a decapitação sistemática de altos dignitários e a obrigação - inspirada pelos vizinhos Uanda - de canibalização dos corpos, sob ameaça de reservar a mesma sorte a quem não cumprisse a macabra ordem. Numa estratégia deliberada de rebaixamento da nobreza lunda, Xanama prosseguiu uma política de incentivo à imigração de « Quiocos » [60], tratando-os como parentes e amigos em detrimento dos seus. Inicialmente vinham a pretexto de caçadas de elefantes, mas foram saqueando terras, quando não usurpando sob o incentivo do próprio Muatiânvua, que assim os usava para os seus próprios ajustes de contas. Xanama foi ao ponto de entregar ao principal potentado quioco, Mona Quissengue, uma faca que autorizava simbolicamente autorizava essas gazivas, até ao dia em que fosse resgatada pelos « Lundas » [61] mediante grandes pagamentos. Escusado é dizer que Xanama acabou mal os seus dias, tendo sido esquartejado em finais de 1883. Sucederam-lhe dois « muatiânvuas » [62] de curta duração, ambos assassinados. Até que em finais de 1884, mais ou menos por altura da travessia do Cuango pela expedição portuguesa, um dos irmãos mais novos de Xa Madiamba, de seu nome Quimbamba, vulgo « Muriba » [63], se apropriou do lucano e deu início a mais um reinado de terror. Alguns cortesãos abandonaram desgostados a mussumba, refugiando-se nos matos, mas outros formaram clandestinamente partido para substituir Muriba por Xa Madiamba. Enviaram emissários ao Anzavo com a missão de transmitir ao príncipe um apelo urgente para que pusesse termo ao longo exílio, na esperança de que a sua figura preservada pudesse devolver a integridade ao império, tão ameaçada pela intrusão dos « Quiocos », e desde logo repor a moralidade da dinastia.

Henrique de Carvalho aproximava-se dessa zona pela mesma altura. O senhor do Anzavo estava incapaz de se deslocar por ter as pernas cobertas de úlceras, mas houve quem se oferecesse para conduzir o oficial português até Xa Madiamba, depois até à corte, onde este último seria finalmente ’entronizado’, para mais sob os auspícios do Muene Puto. A expedição visivelmente conferiria prestígio ao príncipe e assegurar-lhe-ia proteção no seu regresso à capital imperial. Apesar do risco de ver o seu nome associado a uma das fações em conflito, Henrique de Carvalho acabou por aceitar o desafio, o que afetou o seu próprio destino. A partir desse momento, desenvolveria uma relação de crescente intimidade com o velho « de olhos expressivos » que era Xa Madiamba. Este tornou-se o seu principal interlocutor, até mesmo etnograficamente falando, ainda que muito singular. [64] Com efeito, Henrique de Carvalho e a expedição portuguesa ao Muatiânvia viram-se de tal maneira envolvidos na política local, que se torna impossível distinguir o ’observador’, que todos procuravam manipular, dos sujeitos da sua ’observação’. [65]

Da mesma forma, a sua caracterização da etiqueta da corte - e era bem disso que se travava à passagem do príncipe, de cada vez que era edificada para si e para o seu séquito, em constante crescimento, uma mussumba de viagem - é indissociável da reconstituição dos discursos que animavam as muito numerosas audiências formais, ou « tetames » (citentam), em que Henrique de Carvalho tomou assento, e das conversas em círculo mais restrito. Essas audiências quase sempre davam azo, nomeadamente em jeito de preâmbulo, a evocações do passado político : « (...) antes de se tratar do assunto para que foi convocado o tetame, o Muatiânvua e em geral todos os potentados destes povos, enquanto se vão reunindo os indivíduos que a ele têm obrigação de assistir, entretêm o tempo narrando histórias antigas sobre qualquer pretexto que sempre encontram, ou interrogando um e outro dos indivíduos presentes de graduação no Estado sobre algum assunto conhecido ou ocorrência moderna que com ele se relacione (...). Xa Madiamba era para isso fértil em expedientes desde que fôra Suana Mulopo de seu tio, o Muatiânvua Muteba. [66] »

É a este propósito que Beatrix Heintze insiste em dizer que o valor dos escritos de Henrique de Carvalho está na contextualização das tradições orais, tanto mais que a verbalização das mesmas não obedecia forçosamente ao seu pedido, o que contrasta com as práticas etnográficas que se tornariam tão habituais como necessárias ao longo do século XX e até aos nossos dias. Uma vez que diziam respeito, de uma forma ou de outra, ao parentesco perpétuo [67] de que a família real era o epicentro, os relatos de ligação entre o passado e o presente constituíam uma performance obrigatória em qualquer audiência, tanto do pretendente ao ’trono’ como dos potentados seus anfitriões, seus ’parentes’ e, pelo menos nominalmente, seus súbditos : « (...) [As tradições orais] faziam parte de uma dramatização política que Henrique de Carvalho viveu enquanto testemunha mais ou menos implicada nos eventos de cada dia. O seu relato original dos discursos e dos louvores, das conversas e das discussões, revela de que forma a retórica utilizada para resolver questões contemporâneas se baseava em aspetos específicos das tradições orais, ilustrando assim a que ponto estas eram habilmente postas ao serviço de objetivos políticos. Esse tipo de acontecimentos e de ações (...) não se encontram nas fontes que lhe são anteriores. Henrique de Carvalho representa uma exceção. » [68]

Escusado é dizer que a etnografia de Henrique de Carvalho não dizia apenas respeito ao cerimonial das audiências e das visitas ; ele criticava aliás o peso desproporcionado que tinha esse tema nos relatos dos exploradores da África bantu : « São acontecimentos mais ou menos ruidosos, mas que não servem para deles se deduzir o valor intrínseco de um povo, ou apreciar a sua capacidade produtora e a sua civilização. » Tendo sempre em mente o exemplo do « viajante explorador » que « não tem tempo » para « descer às especialidades das regiões que atravessa, e apenas aprecia os povos pelo que observa na sua rápida passagem », Henrique de Carvalho insistia na necessidade de « permanecer » - um verbo que conjuga dimensões existenciais, que não apenas temporais e espaciais. « E como se há de conhecer qualquer povo sem permanecer entre ele ? » [69] Em Etnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda, revelava que a ideia de reunir à parte todas as suas notas sobre os costumes locais, até então dispersas no diário, lhe surgira em circunstâncias dramáticas, quando estivera em risco de vida por razões de saúde. O facto de ter então iniciado a redação dessa monografia, por forma a expedir o manuscrito para Lisboa via Malange e Luanda assim que a ocasião se proporcionasse, é revelador da importância que lhe atribuía. Ao mesmo tempo que trai o pendor evolucionista e colonialista do seu pensamento, a passagem que se segue, escrita em África, permite também detetar em Henrique de Carvalho uma sensibilidade etnográfica que antecipava as preocupações modernas sintetizadas no século XX pela fórmula malinowskiana da observação participante - mesmo que, no que se refere a Henrique de Carvalho, fosse mais adequado falar de uma participação observante : « É preciso viver-se algum tempo entre estes povos, meses e mesmo anos, para se poder falar com pleno conhecimento de causa, não só dos seus usos e costumes, como ainda da sua história tradicional, da sua política, do seu modo de viver, de comerciar, da sua indústria, crenças e superstições, e ainda das diferentes fases por que foi passando, a fim de ajuizar se progridem ou retrocedem, e se poderão ou não aproveitar-se com reconhecidas vantagens, de auxílios estranhos, isto é, dos povos mais cultos com que possam estar em contacto. » [70]

E se a sua monografia é dedicada aos diferentes « povos da Lunda », não deixava de reservar um lugar especial aos Lunda propriamente ditos : « Foram, pois, os Lundas - os africanos com quem mantive relações no período de três anos - que mais chamaram a minha atenção ; e consegui iniciar-me nos seus usos e costumes, nos seus dialetos e vida íntima, entrando nas suas cubatas, não como estranho, ou visita de cerimónia, mas como pessoa amiga e da mais completa confiança. Cheguei mesmo a tomar parte nas suas refeições, e a conhecer portanto da sua vida doméstica. Era chamado ou procurado constantemente para resolver as suas pendências. Pediam-me conselhos nas suas dificuldades e nos seus negócios. Conhecendo-me justo, eles, que em princípio de mim desconfiavam, entregavam-me as suas demandas, para eu as advogar perante os potentados. » [71]

Apesar da exasperação que muitas vezes sentia no terreno, Henrique de Carvalho advogava « a resignação, a prudência e a mais completa abnegação » para atingir uma experiência autorizada. A longa duração da sua estadia na Lunda ter-lhe-á permitido esclarecer alguns mal-entendidos associados a questões de ordem cultural. Eis um exemplo : se chegava um mensageiro para transmitir um segredo ao ouvido do príncipe, quem estivesse nesse momento a discursar deveria prosseguir como se nada fosse. « Também comigo sucedeu isto », escreveu Henrique de Carvalho, confessando que tivera muita dificuldade em conformar-se, para depois acrescentar : « diga-se a verdade, é das coisas em que não tinha razão, porquanto quis fazer supor a mim mesmo ser isso uma desconsideração, quando não era senão um costume. » É Xa Madabiamba quem lho explica, nos seguintes termos : « - Nós não podemos deixar de prestar atenção a todos que nos falam, e os segredos são falas do coração que não podem ser prejudicados. Muitas vezes por se não ouvir um segredo a tempo, o inimigo nos apanha desprevenidos. Como temos dois ouvidos, um pode atender a quem nos estava falando e outro ouvir o segredo num momento. » [72] A explicação de diversos outros usos locais foi-lhe também pelo príncipe em muitas ocasiões.

Henrique de Carvalho chegará à conclusão que o estudo das « tribos africanas » era o que exigia mais « sossego de espírito » - e a maior imparcialidade de opinião. Para o levar a cabo, era necessário « despir-nos de todos os preconceitos, de todas as vaidades de raça, de religião e de cultura intelectual ». Condenava, tanto do ponto de vista metodológico como moral, a atitude do « viajante » que procurava « ditar a lei » como se não estivesse « em terra alheia », vendo aí um sinal de ingratidão, porque não se poderia « dar um passo nas suas terras » sem a ajuda dos africanos. [73] Henrique de Carvalho visava a sociedade europeia do seu tempo, ao escrever estas palavras :

« Os povos da Lunda, como os outros povos indígenas, têm os seus hábitos já adquiridos, os seus laços sociais, e a sua família, as suas paixões e os seus amores, e as suas necessidades, subordinadas ao meio em que se encontram e onde nasceram, se educaram ou se aclimataram ; e nós, sem os compreendermos, sem os estudarmos, ao menos para lhes fazermos justiça, penetramos nas localidades onde eles habitam e queremos logo ser compreendidos, imitados e servidos, como se fosse fácil a imposição de outros costumes e de outra religião, na vida mais íntima de um povo (...). Olvidamos o meio em que nos encontramos, esquecemos tudo e tendo-nos a nós sós como modelo, julgamos ter transportado para lá a Europa civilizada, com todas as suas comodidades, com as suas últimas leis que levaram séculos a alcançar ; e as realidades que vemos levamos à conta de selvajaria, para com desprezo tratarmos o negro e chegarmos à triste e errónea conclusão, que queremos faça eco no mundo civilizado - de que os povos da África são brutos e como tais só a tiro se podem submeter aos nossos usos e costumes ; ou então, que deles nada se pode fazer, por serem rebeldes ao ensino. » [74]

« Parece que estamos com o Papa e talvez não cheguemos a Roma ! »

Henrique de Carvalho e Xa Madiamba viajaram juntos durante um ano e meio, entre agosto de 1885 e novembro de 1886. Durante os primeiros meses, a presença dos intérpretes da expedição era indispensável, ainda que pudessem ceder o lugar, por uma ou outra razão, a algum intermediário poliglota, como Augusto Jaime, irmão de um « soba » de Malange e chefe dos carregadores. Foi este o tradutor de um dos diálogos entre Henrique de Carvalho e Xa Madiamba em que este evocava a época de seu pai e do sertanejo Rodrigues Graça :

« - Veio Rodrigues Graça visitar Noéji [75], prometeu muita coisa e Muene Puto nunca mais quis fazer caso das suas terras na Lunda : mas Graça foi estimado, e se ele tinha queixas que levar a Muene Puto não era dos Lundas e sim dos escravos de D. Ana Joaquina [76] que vieram de mandado de sua ama dizer ao Muatiânvua que Graça era seu caixeiro, e que Muene Puto não o encarregara de serviço algum. »

Ainda que Henrique de Carvalho conhecesse a versão deste episódio pela pluma de Rodrigues Graça, teve muita dificuldade em compreender o que queria exatamente dizer Xa Madiamba : « Para que Augusto Jaime nos interpretasse este último período não se imagina quanto tempo e quantas perguntas tivemos de fazer a XM ! Conseguimos enfim percebê-lo (...). Respondemos que Graça viera na verdade encarregado por Muene Puto de tratar com Noéji de arranjar bons caminhos para o comércio, acabando-se com a venda de gente (...). » E acrescentou, na sua resposta ao príncipe :

« -Noéji acreditou mais nos escravos de Ana Joaquina do que no homem branco e mandou-o roubar ; por isso Graça retirou e deu parte disse a Muene Puto que ficou muito zangado com o Muatiânvua. Agora quis Muene Puto por bem ordenar que viéssemos saber o que por aqui se tem passado, e se os Lundas já pensam melhor no que lhes convém ; determinou ao mesmo tempo que lhes déssemos bons conselhos para que soubessem viver com os seus filhos brancos e com eles aprendessem a aproveitar as próprias terras, as suas forças, e o que forem conhecendo durante a sua existência. » [77] 

Note-se que a expressão « os seus filhos brancos » subentendia que o rei de Portugal também tinha « filhos negros », nomeadamente os Lunda. Em qualquer caso, o grande tema do Muene Puto era tão recorrente com o do Muatiânvua. Xa Madiamba dizia nunca ter visto o Muene Puto e que na Lunda o Muene Puto era o majolo, ou seja, Henrique de Carvalho, em referência vernacular ao seu posto de major. O príncipe também dizia com frequência que o Muene Puto era o Muatiânvua e que o Muatiânvua era o Muene Puto. E uma vez que estes títulos se confundiam com a sua pessoa e a do major, pode dizer-se que a mesma ideia foi levada mais longe no dia em que afirmou com todas as letras que Henrique de Carvalho era preto como ele. A relação entre os dois homens ia ainda seguir outros caminhos simbólicos, em particular com a afirmação pelo príncipe, diante de todos os seus quilolos, que o visitante era a reencarnação do seu pai Noéji.

Ora, Xa Madiamba contrariava em permanência os planos de Henrique de Carvalho, ao fazer tudo quanto podia para atrasar a chegada à região histórica da mussumba - ou antes das « mussumbas », uma vez que, recorde-se, a capital imperial podia ser edificada em diversos locais. O velho príncipe temia ao mesmo tempo os incidentes a leste, as maquinações dos outros pretendentes ao lucano, o poder dos « Quiocos » e as alianças contra si forjadas. E imaginando que o Muene Puto era efetivamente muito poderoso e que somente a sua proteção poderia assegurar-lhe a sobrevivência, tanto política como física, não queria de modo algum que Henrique de Carvalho se apartasse, enquanto que este, na sua obsessão de chegar à mussumba, traía o sonho de um Portugal maior através de uma Lunda maior. No fundo, a visão lunda do Muene Puto tinha o seu equivalente na ideia que os portugueses tinham do Muatiânvua. Se tanto a grandeza de um como a do outro pertenciam ao passado, Henrique de Carvalho e Xa Madiamba ignoravam o lugar diminuído que ambos os reis tinham no respetivo contexto atual. Henrique de Carvalho acabou no entanto por se convencer plenamente da decadência do império lunda, indo ao ponto de admitir que o poder do Muatiânvua era « imaginário », bem como a extensão do seu império. Queria dizer com isto que o famoso título era invocado por terceiros para instigar o medo junto das populações dos territórios afastados e exigir-lhes assim tributações que, em vez de chegarem à mussumba, ficavam nas mãos dos prevaricadores. Numa palavra, tratava-se de um « mito », de uma soberania nominal. [78] E o que era afinal o Muene Puto senão um mito, uma ideia poderosa ? Eis talvez a razão pela qual Henrique de Carvalho, no seu enraigado idealismo, continuou a acreditar até ao fim na sua missão, mesmo depois de ter visto com os seus próprios olhos a situação desgraçada a que tinha chegado a região das « mussumbas » e de ter gravado numa árvore, com um canivete, a palavra « desilusão ». [79] 

Rostos e sentimentos

Xa Madiamba, por seu turno, acabou por renunciar às suas pretensões ao ’trono’. Os dois homens separaram-se e Henrique de Carvalho seguiu o seu caminho sem ele, e sem os dois outros oficiais portugueses que compunham a expedição, o major farmacêutico Agostinho Sizenando Marques, de São Tomé e Príncipe, e o capitão de artilharia Manuel Sertório de Aguiar, chefe do concelho de Massangano, em Angola, a quem simplesmente ordenou a retirada, por estarem ultrapassados todos os limites do sacrifício. Apenas aceitou que ficassem consigo Augusto Jaime, António Bezerra e uma vintena de outros companheiros que não se demoveram ante as promessas de « sofrimento da fome » que lhes fez. « (...) [N]unca esquecerei o que fiquei devendo a estes meus companheiros ! Que me importa a cor, a sua origem, o seu nascimento, a sua humilde posição, o seu estado social e donde vieram ! Sei que são homens de sentimentos (...). » [80]

A sinceridade destas palavras encontra eco numa outra dimensão importante da obra de Henrique de Carvalho : o álbum fotográfico da expedição. Ainda que as fotografias tenham sido tiradas, na sua maior parte, pelo capitão Sertório de Aguiar, foi Henrique de Carvalho que redigiu as legendas manuscritas, enriquecidas com informações biográficas e comentários sobre cada um dos membros da equipa, inclusive as figuras mais humildes, como os carregadores da expedição. Conforme escreve Beatrix Heintze, a análise dos álbuns « nega o estereótipo do Africano intimidado e submisso que servia de tema fotográfico e contradiz aquela imagem pejorativa que reduz a fotografia histórica, nos seus primórdios, a uma ’fotografia de tipos étnicos’ perfeitamente despersonalizada e em contraste com o retrato individualizado. (...) Graças à incrível profusão de fotos tiradas durante a expedição, conhecemos os rostos dos seus empregados africanos e podemos formar uma ideia dos seus sentimentos pessoais. » [81]

A gratidão de Henrique de Carvalho para com esses seus companheiros de aventura transparece igualmente nas passagens em que critica os preconceitos de todos aqueles que, na Europa, afirmavam a inferioridade mental ou emocional dos africanos e a sua inaptidão para o progresso. Citando a obra antirracista do africanista António Francisco Nogueira, A Raça Negra sob o ponto de vista da civilização africana, publicada em Lisboa em 1880, Henrique de Carvalho evocava o exemplos de africanos que, em Portugal e no Brasil, tinham atingido posições de prestígio social e intelectual. [82] E acrescentava, de forma bastante surpreendente no contexto da época : « Não nos podemos convencer já de há muito tempo, que na raça preta, mesmo entre os povos conhecidos como gentios, se não encontram as mesmas perceções que entre nós, as mesmas sensações de júbilo ou dor. E estamos persuadidos de que eles compreendem como nós as impressões que os sentidos aceitam ou repelem, como nós demonstram as inclinações ou afetos e denunciam esse sentimento sublime que os move a amar alguém e essa paixão da alma que um e outro sexo mutuamente se inspiram. » [83] Convém precisar que os seus argumentos evolucionistas contrariavam o pretenso atraso cultural dos povos da Lunda, porquanto fugia a situá-los na pré-história, para ao invés os aproximar da Antiguidade bárbara ou mesmo da Idade Média europeia, nomeadamente no que diz respeito às crenças na feitiçaria. « (...) não as condenemos sem primeiro nos lembrarmos das lutas e devastações que houve entre os povos europeus, em estados análogos de desenvolvimento, e nos tempos sucessivos até aos medievais, e ainda posteriormente. Se atentarmos, pois, no que está estudado dos nossos primitivos tempos, lá encontraremos alguns povos bárbaros num estado semelhante ou muito pior do que aquele em que se encontram os povos desta região. » [84] Em Etnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda, Henrique de Carvalho abstinha-se contudo de comparar cada costume com traços análogos dos povos da Antiguidade, pela simples razão de que isso o desviaria do seu objetivo mais simplesmente descritivo. [85] Convencido que investigações como a sua podiam contribuir para « uma melhor compreensão dos povos civilizados », prevenia os seus leitores contra a forma como numerosos viajantes qualificavam este ou aquele povo de selvagem « por um ou outro facto isolado », o que os levava a pintá-lo « com as cores mais feias ». [86]

« Tudo isto foi assim, meu senhor » : arqueologia, memória e arquivos

Quando Henrique Carvalho chega finalmente à mussumba, no começo de 1887, uma outra classe de mediadores africanos entra em cena, ou seja, uma colónia de ambaquistas fundada desde meados do século junto da corte lunda. À frente da mesma, desde 1873, achava-se um certo Manuel Correia da Rocha, descrito por Henrique de Carvalho como « homem baixo, dos seus 60 anos, mas forte e de muita vida », sempre « vestido com o máximo asseio e bem calçado, à europeia », com um « fato de boa flanela azul » e um chapéu « de capim por ele preparado ». Os outros membros dessa comunidade « nada diferiam, em linguagem, hábitos e vestuário, dos chefes de família, nossos emigrados, e um destes, Arsénio, ligara-se com uma filha de Rocha, falava e escrevia muito melhor português que qualquer dos meus intérpretes ». Este homem, escreveu Henrique de Carvalho, tornou-se-lhe « indispensável ». [87] Enquanto Correia da Rocha tentou dissuadi-lo de visitar desertos, Arsénio acompanhou Henrique de Carvalho quando este organizou uma excursão ’arqueológica’ até ao local onde se erigia, quatro décadas atrás, a mussumba do Muatiânvua Noéji. Decidiu nesse momento ler em voz alta as páginas em que Rodrigues Graça descrevia o esplendor da capital imperial lunda, após o que Arsénio disse :

« - Tudo isto foi assim, meu senhor. (...) Ainda no tempo de Muteba, tudo era como fala a mucanda [88], Glassa [89] não mentiu ; eu ainda era criança, mas os quimbares [90] do tempo do sr. Lufuma [91] contam o mesmo, havia muita fartura de tudo, vivia-se bem, conservava-se esta Mussumba [a de Rodrigues Graça] que era muito grande e fizeram-se depois a de Cauênda, a do Luambata, e a de Chimane. Foi no tempo de Xanama que se arrasaram todas (...). » [92]

Não cabe aqui aprofundar as relações muito próximas que Henrique de Carvalho desenvolveu com Mucanza, Muatiânvua interino (e irmão mais novo de Xa Madiamba), com a sua Lucuoquexe e outros dignitários de uma corte que, reduzida à sua expressão mais simples, fugiu mesmo à vista dele quando a mussumba foi consumida pelo fogo, na noite de 23 de janeiro de 1887. As suas conversas com esse outro interlocutor privilegiado [93] que foi Manuel Correia da Rocha, a respeito dos exploradores alemães que tinham visitado a mussumba alguns anos antes, Paul Pogge em 1878 e Max Büchner em 1881 [94], oferecem-nos uma última evocação do duplo mito do Muatiânvua e do Muene Puto, verdadeiro leitmotiv tanto da vida como da obra de Henrique de Carvalho. Os encómios de Pogge e Büchner ao seu Kaiser haviam sido considerados, pelo Muatiânvua, como ultrajantes para com o Muene Puto, descrito pelos alemães como « pobre e sem valor algum », na verdade como « o rei branco que tinha menos terras e gente », um testemunho a que ninguém na corte lunda deu fé. Manuel Correia da Rocha, presente nessas audiências, lembrava-se igualmente da má impressão causada por Max Büchner quando ofereceu ao Muatiânvua uma coleção de retratos de Guilherme I, da imperatriz Augusta e prole - incluindo o seu neto, futuro (e último) Kaiser, Guilherme II, então com vinte e dois anos. O Muatiânvua, nada contente com tal dádiva, distribuiu as fotografias pelas suas concubinas, que as espetaram nos cabelos com pauzinhos. Max Büchner, por sua vez, tomou isso como uma ofensa grave.

Esta evocação reintroduz igualmente esse outro tema maior da obra de Henrique de Carvalho, que é a virtude do diálogo entre europeus e africanos, para lá dos preconceitos e da violência pelos mesmos suscitada, conquanto a impaciência cedesse o lugar à atenção. Sem que alguma vez tenha renunciado à crença na superioridade evolutiva da cultura europeia do seu tempo, e sem que ele próprio estivesse isento de exasperação e de atitudes violentas no terreno [95], é inegável que o seu pensamento e a sua praxis contrastam com as versões mais arrogantes do grande mito ocidental do progresso. Curiosamente, ele próprio resumiu a filosofia subjacente à sua vida e obra ao apelar à máxima local que dizia : « Se vais às terras dos Quiocos faz-te Quioco, se vais às dos Lundas, faz-te Lunda. » [96] Por sua vez, estas palavras não podiam senão lembrar-lhe o velho adágio europeu sobre Roma.

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Notes

[1« Mussumba » designa a capital do grande potentado lunda (ruwund), uma urbe que não tinha localização fixa, podendo ser sucessivamente reedificada em diferentes locais, mas numa mesma região tida por núcleo histórico do império. A palavra que designa o potentado é ortografada de diferentes formas (Mwant Yaav, Mwant Yav, Mwantayaav, Mwantianvwa, etc.), um problema atenuado, mas não resolvido na atualidade. Segundo Henrique de Carvalho, que se baseava em argumentos linguísticos e históricos, « Muatiânvua » era uma palavra composta, pelo que devia evitar-se uma transliteração em dois termos separados. Ver Carvalho, 1890b, p. 74. A versão Mwant Yav é suficientemente consensual, mas conservo a versão de Carvalho entre aspas. Procedo assim para a primeira ocorrência de outros termos vernaculares, acrescentando em rodapé uma ou várias transliterações atuais em itálico, exceto quando coincidem com a de Carvalho.

[2Richard Handler, 2000.

[3Beatrix Heintze, 2011a, p. 96-97.

[4Recorde-se que os Ndembu, tornados célebres na antropologia por Victor Turner, são descendentes históricos dos « Lunda » (Aruwund). Eis porque, nas suas monografias, Turner faz referência, aqui e ali, a Henrique de Carvalho.

[5Ruwej.

[6Cibind Yirung.

[7Kalanyi/Nkalaany.

[8Eis algumas referências (não exaustivas) a este debate : Jan Vansina, 1976 [1965] ; Luc de Heusch, 1972 ; Jean-Luc Vellut, 1972 ; J.J. Hoover, 1978 ; C.C. Wrigley, 1974 ; J. C. Miller, 1976 ; Jan Vansina, 1990.

[9A par, entre outras, da versão do explorador alemão Paul Pogge (1880).

[10Ver M. Palmeirim, 2006, p. 40 e seg.

[11Edição original em alemão, 2002. Ver bibliografia.

[122004, p. 17.

[13Ver os capítulos assinados por Luís Aires-Barros (presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa), Manuela Cantinho (conservadora do Museu etnográfico desta instituição historicamente muito ligada às expedições dos exploradores portugueses nos anos 1870 e 1880), ou ainda de Maria João Cabrita, bisneta de Henrique de Carvalho.

[14Tais como Henrique Augusto Dias de Carvalho, de 1935, pelo Marquês do Lavradio, ou Figuras coloniais. General Henrique de Carvalho, Benemérito da Pátria, de 1937, par Moreno Mateus.

[15J. Vansina, 2001, p. 507. Deixarei de lado as teses de Fabian sobre o « êxtase », um termo que procura evocar os estados psicológicos alterados dos exploradores. Paradoxalmente, nos seus trabalhos, o próprio Vansina confina o nome de Henrique de Carvalho a mera referência de rodapé. Ver J. Vansina, 1976 [1965], p. 60-75.

[16Biebuyck explicava, numa nota, que « uma grande parte dos Lunda estão repartidos entre as fronteiras do Congo belga, de Angola e da Rodésia (...) » (1957, p. 77-78).

[17Ibid.

[18Ibid., p. 78. E explicava : « Para estas pesquisas, o grande chefe Mwaantayaav reuniu na vila real de Musumba todos os iniciadores, notáveis, grandes dignitários, funcionários políticos, principais ’chefes de localidade’, cuja assembleia era constituída por cerca de 1500 conhecedores das tradições e instituições lunda. As investigações foram conduzidas em língua franca swahili e os principais intérpretes, que se propuseram traduzir do ruund para o swahili, foram o próprio Mwaantayaav e dois funcionários lunda do serviço administrativo do território de Kapanda. »

[19Lunda. Entre os agricultores e caçadores do interior de Angola. Resultados da Expedição do Museu etnológico de Berlim a Angola, 1935.

[20Ibid., p. 224.

[21Ver também M. Van den Byvang, 1936 ; L. Duysters, 1958 ; ou ainda José Redinha, 1963. Precisemos que, após a independência congolesa, novas revisitações da corte lunda tiveram em conta a figura de Henrique de Carvalho, quer como ator político (é o que faz, em especial, Édouard Bustin, 1975), quer como fonte etnográfica pioneira e incontornável (é o que faz Manuela Palmeirim, 2006).

[22Henrique de Carvalho, 1890b, p. 727.

[23Ou, ainda, brasileiros.

[24Ver B. Heintze, 2004 [2002], p. 64 ; M. E. Madeira Santos, 1998, p. 471.

[25Ou Andembo-ia-Lala, Dembo o Alala ou ainda Angana Dembo.

[26Ver V. Alexandre e J. Dias, 1998, p. 350, 354, 372-375, 447.

[27O Barotze era um dos grandes impérios da África central, a cerca de mil quilómetros a sul da Lunda, numa região que corresponde hoje a partes da Zâmbia, do Zimbabué, do Botsuana, da Namíbia, de Angola e de Moçambique.

[28Carvalho, 1890a, vol. I, p. 145. Na sua obra de referência, Percursos da modernidade em Angola (1997), Isabel Castro Henriques desenvolve o tema, complexo, da construção histórica dos « pretos/brancos » no quadro das relações afro-portuguesas. Identifica nomeadamente as transformações importantes do simbolismo dos sapatos no séc. XVIII, enquanto sinal distintivo de todos aqueles que eram identificados como brancos independentemente da cor da pele (p. 484-488).

[29A bem dizer, os sertanejos também tinham detratores em Portugal. Não é por acaso que o explorador que mais cultivou uma imagem heroica de si mesmo, Serpa Pinto, foi também o que mais denegriu os sertanejos. (Ver Maria Emília Madeira Santos, 1998, p. 8)

[30A forma como Henrique de Carvalho soube, em África, dos avanços e das conclusões da Conferência de Berlim, através dos jornais de Lisboa que circulavam pela mão dos mediadores luso-africanos, mereceria uma investigação própria. O tema é tão mais complexo quanto o célebre Mapa Cor-de-Rosa deixava de fora a região da Lunda, o que foi para ele um verdadeiro choque, uma prova da incompetência dos políticos da metrópole e da sua ignorância de África, no próprio momento em que ele estabelecia acordos políticos com os potentados da região e edificava as chamadas « estações civilizadoras ».

[31Em todo o caso - dizia-se com frequência - confinados ao litoral, o que era também uma estratégia de negação da presença e da influência portuguesas em África.

[32Mwene Mputo.  O facto de haver, entre os sertanejos, degredados e outras figuras refratárias às autoridades portuguesas em Angola não obstava, pelo contrário, a que abusassem do nome e do prestígio longínquo do Muene Puto junto das populações africanas. O idealismo de Henrique de Carvalho tornava-o particularmente sensível ao poder das representações, fosse a grandeza ou a brancura imaginárias daqueles que por convicção ou por astúcia se afirmavam súbditos do rei de Portugal.

[33Carta ao ministro da Marinha e do Ultramar, 1886, cit. in F. Delgado Rosa, Filipe Verde, 2013, p. 296. Insiste-se por vezes na falta de perceção autóctone do facto de que o Muene Puto vivia para lá do oceano e que essa distante figura política era antes identificada, de forma exclusiva, com o governador-geral de Angola. Em The Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade 1730-1830 (1998), Joseph Miller reconstitui todavia a antiguidade do mito do Muene Puto como correspondendo a um grande potentado de além-mar, cujo título significava « Senhor dos Mortos », pois que se acreditava que os escravos, uma vez chegados ao outro lado do oceano, eram mortos para se transformar o seu sangue na bebida vermelha e inebriante que bebiam os homens brancos e os seus ossos, primeiros queimados e depois triturados, na pólvora das suas armas.

[34Ver F. Delgado Rosa, « L’Afrique oubliée : vie et œuvre d’Henrique de Carvalho », in Bérose. Encyclopédie en ligne sur l’histoire de l’anthropologie et des savoirs ethnographiques, Paris, IIAC-Lahic, UMR 8177 : http://www.berose.fr/?-Dossiers-documentaires, 2017.

[35Beatrix Heintze qualifica essas circulações de « internet do séc. XIX », tendo em mente, mais exatamente, as caravanas comerciais. (2004 [2002], p. 381) Maria Emília Madeira Santos compara o mondo ao « telégrafo » (1997, p. 354) Quanto a Henrique de Carvalho, dizia que o tambor lunda lhe lembrava « os telefones modernos ». (1890b, p. 496)

[36Por exemplo, um ambaquista que não teria decerto ousado enviar esse documento sem que o seu senhor lho tivesse ordenado, escreveu a Carvalho que as gentes da Lunda o esperavam « como o povo de Jerusalém esperou pela vinda de Cristo, por saber que era o Salvador do mundo », Carvalho, 1890a, vol. I, p. 557.

[37Carvalho, 1890b, p. 500.

[38Carvalho, 1890a, vol. II, p. 298-299. Cabe aqui mencionar, de passagem, o papel desempenhado pelos « Bângalas » (Mbangala/Imbangala), a etnia associada ao « Jaga do Cassange », o grande potentado que controlava a passagem do Kwango et cujo domínio do comércio com a Lunda constituía um problema para os portugueses. Apesar da desconfiança mútua, os encontros, bastante numerosos, entre Henrique de Carvalho e os chefes de caravanas bângalas contribuíram igualmente para a circulação de rumores e mesmo para a composição de canções a seu respeito, como esta : « O senhor major, grande ! passou o mar de mandado de Muene Puto ! tem coração de Jaga como o nosso Cambolo ; é o próprio Jaga ! É nosso pai. Se tiveres fome pede-lhe de comer que ele não te enxota e enche-te a barriga ; se fores roubado procura-o, que o roubo aparecerá ; mas tem cautela em lhe falar bem porque ele tem quatro olhos ! É o Jaga ! amigo de Cassanje, é o próprio Muene Puto ! » (in Carvalho, 1890a, vol. II, p. 317). Henrique de Carvalho escreveu uma monografia de 442 páginas sobre o Jaga do Cassange, 1898. Ver B. Heintze, 2004, p. 164-165.

[39Sem deixar de ter em conta a « mentira » enquanto instituição local, a que dedicava várias passagens da sua monografia, Etnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda, precisando que o conceito vernacular em questão (« macassu ») não tinha a mesma conotação pejorativa que na Europa.

[402011a, p. 106.

[412011a, p. 106.

[42« Graças a Carvalho, o texto de uma dúzia dessas cartas foi transmitido para a posteridade ». Heintze, ibid., p. 102 ; ver B. Heintze, 2004-2005, p. 180-207.

[43Carvalho, 1890a, vol. III, p. 108.

[44Desde então fizeram-se descobertas excecionais para outras regiões, tais como, em 1934, a do arquivo do Dembo Caculo Cacahenda, que remontava ao século XVIII. « Não é verdade que a África não dispõe de fontes escritas endógenas para fazer a sua história », escreve Maria Emília Madeira Santos (1998, p. 470). Os documentos em questão, que contradiziam todos os estereótipos sobre o continente da oralidade por excelência, foram negligenciados no momento da sua descoberta pelo antropólogo português António de Almeida. Madeira Santos di-lo de modo veemente : « (...) aqueles documentos não podiam existir. » (2002, p. 10 ; o itálico é meu). O recente projeto de investigação intitulado « A Apropriação da escrita pelos africanos », sob a direção de Ana Paula Tavares e Catarina Madeira Santos, procede à edição desses materiais em vários volumes.

[45H. de Carvalho, 1890a, vol. II, p. 298-299.

[46Carvalho, 1890, p. 435-436.

[47Ibid., s. p. ; o itálico é meu.

[48Sem contar algumas obras portuguesas, as suas referências estrangeiras revelam sobretudo um interesse pelas questões linguísticas, através das teses de Wilhelm Bleek, Theophilus Hahn, Fredrich Müller (a não confundir com Friedrich Max Müller), Georg August Schweinfurth, James Frederick Schön e Abel Hovelacque.

[49Carvalho, 1890, Vol. I, 435-436].

[50Carvalho, 1890b, s.p. Ver também 1890d, p. 1. Este estado de coisas era agravado pelo facto de que os intérpretes procuravam fazer boa figura ; « (...) tudo sabem segundo eles próprios, e nada querem perguntar, porque seria para eles humilhante mostrar ignorância ». (1890b, p. 384)

[512011a, p. 97.

[52Ver Carvalho, 1890a, vol. II, p. 666 ; vol. III, p. 793-794 ; vol. IV, p. 123.

[53Ibid., vol. III, p. 793-794 ; vol. II, p. 154 ; vol. III, p. 497, 833.

[54Samadiamba. Esta era, a bem dizer, a sua alcunha ; o verdadeiro nome era « Quibuinza Ianvo » (Chibuinza Yanvo).

[55Nawej/Naweej.

[56Nswaan Mulapu / Nswaan Mulopw. Um título honorífico que, salvaguardadas todas as distâncias, correspondia ao de ajudante de campo, mas tornando o indivíduo em questão uma espécie de príncipe herdeiro.

[57Muteb.

[58Rukonkesh, rainha mãe simbólica que encarnava a mãe do primeiro Muatiânvua, ou seja, a princesa « Luéji ».

[59Sanama.

[60Chokwe. Outras ortografias existem, como Cokwe, Tshokwe, etc. Esta etnia vizinha dos Lunda era constituída por vários potentados.

[61Atualmente, os especialistas da região escrevem Aruwund para designar os Lunda no plural. Existe, de facto, toda uma problemática linguística em torno do termo « lunda » e das suas transliterações, seja com l ou com r ; ver M. Palmeirim, 2006, p. 18, nota 4. Já Henrique de Carvalho explicava que os dois sons se confundiam, com a aristocracia a enrolar o r, já de si muito brando, até soar como l. (1890b, p. 59 ; 1890d, p. 10)

[62Ant Yav.

[63Mudib.

[64Carvalho, 1890a, vol. II, p. 476. Poder-se-ia sem dúvida, a partir do relato de viagem de Henrique de Carvalho, impregnado da psicologia de Xa Madiamba, fazer uma biografia desta personagem à la Stefan Zweig. Aliás, o relato oferece os elementos que permitiriam estabelecer um quem-é-quem da Lunda no séc. XIX.

[65De resto, Henrique de Carvalho chegou a descrever-se a si próprio como « missionário », envolvido na reforma da monarquia lunda. (1890a, Vol. II, 726) A primeira coisa a fazer, dizia, era modificar as regras de sucessão dinástica, que faziam depender o acesso ao poder, por parte de qualquer um dos irmãos do Muatiânvua, não da ordem de nascimento, mas das capacidades de comando. De uma geração a outra, instalava-se na corte uma atmosfera de intriga e de morte, digna da dinastia julia-claudia da Roma antiga. « É nesta sucessão que está o principal defeito e o perigo da causa do Estado. » (ibid., vol. II, p. 728)

[66Carvalho, 1890b, p. 421.

[67Bem conhecida dos especialistas da região, esta instituição estabelecia relações de parentesco artificiais, independentes da idade e dos verdadeiros laços de parentesco, entre os representantes presentes das figuras fundadoras do império. Isabel Castro Henriques considera que Henrique de Carvalho foi um pioneiro na matéria (1995, p. 166-167).

[68B. Heintze, 2011a, p. 110.

[69Carvalho, 1890b, p. 4, 46.

[70Ibid., p. 384. Ver Maria Emília Madeira Santos, 1998, p. 493.

[71Carvalho, ibid., p. 43-44.

[72Ibid. p. 8, 398-399.

[73Ibid., p. 8, 9 ; 1890a, vol. III, p. 112.

[741890b, p. 45-46.

[75O Muatiânvua, « pai » de Xa Madiamba.

[76A temida sertaneja luso-africana acima referida, também conhecida pelo nome de Dembo e Alala.

[77Carvalho 1890a, vol. II, p. 569-570.

[78Ibid., vol. IV, p. 286.

[79Ibid., p. 198-200.

[80 Ibid., p. 12.

[81B. Heintze, 2011a, p. 96, 113 ; ver também 1990.

[82João Augusto Dias de Carvalho, filho de Henrique de Carvalho e seu biógrafo, cresceu com as crianças negras que o major apadrinhara. Ver 1975, p. 44-45.

[83Carvalho, 1890a, vol. I, p. 478.

[84Carvalho, 1890b, p. 36.

[85A propósito da recusa de Henrique de Carvalho de coletar crânios humanos, ver Manuela Cantinho, 2012, p. 128-129.

[86Carvalho, 1890b, p. 443, 8.

[87Carvalho, 1890a, vol. IV, p. 207, 208.

[88Documento.

[89Joaquim Rodrigues Graça.

[90Nome que designa os ambaquistas ou seus imitadores, ou seja, personagens que tomavam (ou tentavam tomar) de empréstimo os seus usos, mas que não eram oriundos dessa comunidade histórica.

[91Lourenço Bezerra, irmão mais velho de António Bezerra e primo de Manuel Maria Rocha, tinha sido o fundador e líder da colónia ambaquista. Ver Heintze, 2004, p. 81 e seg.

[92Ibid., p. 241.

[93A propósito de alguns outros informantes de Carvalho, ver Manuela Cantinho, 2012, p. 124-147.

[94Sublinhe-se, de passagem, com Beatrix Heintze, que a própria existência dessa colónia luso-africana « foi ocultada e diminuída pelos exploradores alemães, que temiam que a perceção de uma comunidade ’civilizada’ na África mais profunda fizesse sombra à glória das suas alegadas ’expedições de descoberta’ do reino lunda ». Heintze faz questão de lembrar, uma vez mais, que « são sobretudo as notas de viagem de Carvalho que documentam a presença mais ou menos permanente de ambaquistas » além do Kwango. (2011a, p. 100, 101 ; ver também 2004 [2002], p. 34-35, 93)

[95Mas fora de qualquer contexto militar. Dito isto, abstenho-me de desenvolver o tema da humanidade da pessoa de Henrique de Carvalho em todas as suas dimensões.

[96Ver Carvalho, 1890a, vol. II, p. 667. Durante a sua viagem de regresso a Angola (e depois a Portugal), iniciada em junho de 1887, Henrique de Carvalho reencontrou Xa Madiamba. Face ao estado de ruína do império dos seus avós, o velho príncipe queria agora enviar uma embaixada a Lisboa, para que o Muene Puto assegurasse a sua proteção à dinastia lunda. Ele e os seus fiéis tiveram que esperar muito tempo até que Portugal ratificasse os tratados políticos que tinham sido assinados durante a expedição de Henrique de Carvalho, no momento em que a Bélgica queria tomar posse de todos os domínios além-Kwango, correspondentes ao território histórico do império do Muatiânvua. Carvalho pensou que todos os seus esforços tinham sido em vão. « (...) [L]amentei é certo estar vivo e chorei muito, muito, e tanto, que perdi as forças. » (1890a, vol. IV, p. 375) Mas uma vez em Lisboa, travou um combate sem tréguas, nos planos nacional e internacional, para que fossem reconhecidos os direitos de Portugal nos territórios lunda. Os portugueses instalaram-se em várias das « estações civilizadoras » fundadas pela Expedição, o que alargou imensamente as fronteiras de Angola, dando nascimento à província administrativa a Lunda, de que Henrique de Carvalho foi o primeiro governador. A região das mussumbas, em contrapartida, foi integrada no Congo de Leopoldo II, o que ao mesmo tempo concretizava e simbolizava o fim do velho império do Muatiânvua, bem como do mito do Muene Puto.