« Herdeira ou pioneira? Uma biografia de Audrey Richards »

par Adam Kuper

London School of Economics, Department of Anthropology


2018

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Kuper, Adam, 2018. « Herdeira ou pioneira? Uma biografia de Audrey Richards » in Bérose - Encyclopédie internationale des histoires de l’anthropologie, Paris, IIAC-LAHIC, UMR 8177.

A antropóloga Audrey Richards, que conheci bem, era uma mulher imparcial, imperturbável, inconformista em muitos aspetos, mas que nem por isso deixava de agir inconscientemente segundo os critérios da classe social de seus pais, uma espécie de aristrocracia intelectual imbuída de um espírito reformador [1].

Nascida em Londres em 1899, Audrey Richards era a segunda das quatro filhas de Henry Erle (mais tarde Sir Henry) e de Isabel Richards. Seu pai foi membro do conselho vice-real da Índia entre 1904 e 1909, antes de a família regressar a Inglaterra em 1911. Audrey Richards contou-me que sua mãe insistira que as filhas não fossem enviadas para Inglaterra sozinhas, para um colégio interno, como era hábito na época. Frequentou a Downe House School perto de Newbury. Inicialmente os pais opuseram-se a que frequentasse a universidade, mas acabaram por concordar que frequentasse um bacharelato em ciências naturais no Newnham College de Cambridge, entre 1918-1921. Influenciada por Graham Wallas, pai de um amigo que encontrou em Newnham, decidiu iniciar o doutoramento na London School of Economics.

Wallas escreveu a Bronislaw Malinowski, pedindo-lhe que aceitasse orientar Audrey Richards, que estudou sob sua supervisão entre 1928-1930. Malinowski dominou a antropologia social na LSE entre 1924 et 1939. A Escola estava então conotada com as novas ideias de progresso social e envolvida no desenvolvimento das ciências sociais aplicadas. Ainda um pouco marginal ou sem especial respeitabilidade, a LSE era o meio ideal para uma outsider ambiciosa e criativa. Audrey Richards permaneceria toda a vida uma malinowskiana ortodoxa. Ela estava convencida que o tipo de dados e de análise fornecidos pela etnografia funcionalista era de grande valor para os responsáveis políticos nas colónias, contribuindo para esclarecer problemas de mudança social.

Antes de os estudantes partirem para o terreno, pedia-se-lhes que redigissem um estudo baseado na literatura etnográfica. Audrey Richards escolheu um tema, a nutrição, no qual se imbricavam a biologia e a cultura. Nos anos 1920, a nutrição tornara-se um tema de interesse crescente nos círculos académicos e governamentais. A abordagem funcionalista de Malinowski prometia uma nova perspetiva. A partir da bibliografia etnográfica sobre os povos bantus do Sul, Audrey Richards afirmou que as instituições sociais estavam essencialmente organizadas de modo a satisfazerem uma necessidade fisiológica fundamental, e que ’o sistema nutricional’ era constituído por ’um conjunto de instituições e relações’.

Audrey Richards e Lucy Mair (sua colega e nora de William Beveridge) contam-se entre os primeiros antropólogos a realizar investigação aplicada em África. No seu projeto de pesquisa de terreno, datado de julho de 1929, Audrey Richards começava por fazer uma clássica e tipicamente malinowskiana manifestação de interesse: ’(...) proceder a um estudo intensivo das instituições sociais, costumes e crenças da tribo Awemba (...) dando especial atenção ao papel desempenhado pelas mulheres na vida tribal e económica, à natureza e importância do contrato de casamento e da família enquanto sistema, e aos problemas relacionados com a educação das crianças.’ Conforme recordaria a própria em 1974, ’[n]os anos 1930, mandaram-me estudar uma sociedade matrilinear porque se pensava que era especialmente adequado que fosse uma mulher antropóloga a estudar as mulheres. Não causará estranheza se disser que quando tanto lidei com homens como com mulheres!’

De maio de 1930 a julho de 1931, e novamente entre janeiro de 1933 e julho de 1934, Audrey Richards fez trabalho de campo na então Rodésia do Norte [2], entre os Bemba. Era suposto os estudantes de Malinowski aprenderem a língua vernacular e viverem em estreita relação com o povo que pretendiam estudar. Audrey Richards experienciou a vida nas aldeias, aprendeu a etiqueta da corte real bemba e foi-lhe atribuído um estatuto honorífico de chefe. ’Essa posição de prestígio impediu-me de estar em posição de igualdade em relação ao povo, mas também representou uma vantagem para proceder ao recenseamento das aldeias, sendo útil exercer uma certa autoridade.’ Só após regressar a Londres é que decidiu que o tema central da sua primeira monografia bemba seria uma vez mais a nutrição. E ao mesmo tempo que redigia as suas obras tipicamente malinowskianas, dava aulas na LSE.

Em 1937, partiu para a África do Sul, onde lecionou na universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, até 1940. Iniciou trabalho de campo e tornou-se amiga do primeiro ministro Jan Smuts. Entretanto, em 1939, Malinowski trocou a LSE por Yale, onde faleceu subitamente em 1942. Audrey Richards regressou a Londres no tempo da guerra para trabalhar temporariamente no ministério das colónias; entre 1944 e 1945 lecionou estudos coloniais na LSE como conferencista convidada, e entre 1946 e 1950 como professora assistente, sendo também membro do Colonial Social Science Resarch Council.

Ofereciam-se-lhe várias vias profissionais, mas Audrey Richards pressentiu que os dirigentes políticos do império britânico em África tinham compreendido o potencial das ciências sociais e que isso era uma oportunidade a agarrar. Ao relembrar esse período da sua vida, escreveria: ’Diz-se que a juventude é o tempo do entusiasmo, mas creio não haver maior sentido do envolvimento em causas sociais do que o manifestado pelos homens e mulheres de idade madura que subitamente se encontram na posição de praticar o bem, algo que vinham tentando fazer há muitos anos.’ Em 1950, partiu para a universidade de Makerere na qualidade de diretora do recentemente fundado East African Institute of Social Research. Foi aí que concluiu a redação de Chisungu (1956), uma monografia sobre a iniciação feminina entre os Bemba. O relato que faz dessa instituição, muitas vezes elogiado, é rigoroso, mas a grelha de leitura funcionalista é datada. Em 1956, regressou a Newnham como investigadora, desempenhando mais tarde as funções de vice-reitora. Ocupou entre 1961 e 1966 um lugar de professora assistente [3] na área dos estudos sobre a Commonwealth e desenvolveu o Centro de Estudos Africanos. Permaneceu, contudo, uma figura marginal no departamento de antropologia social de Cambridge, talvez por causa de um desentendimento com o seu antigo professor, Meyer Fortes.

Audrey Richards era uma figura extremamente respeitada, muito estimada pela maior parte das pessoas que trabalharam com ela. Recebeu várias distinções: comendadora da Ordem do Império Britânico pelo seu trabalho no Uganda, eleita para a Academia Britânica e presidente do Royal Anthropological Institute. Boa companheira, irónica, divertida, capaz de rir à sua própria custa, era célebre no Uganda por animar os serões com um truque que consistia em acender fósforos com os dedos dos pés. Audrey Richards não deixava por isso de ser uma pessoa de grande seriedade e sentido moral. Viveu até 1984.




Notes

[1Traduzido por Frederico Delgado Rosa. Este artigo é uma versão abreviada a partir de Adam Kuper, «Audrey Richards : A Career in Anthropology », Among the Anthropologists : History and Contexts in Anthropology, London, Athlone Press, 1999, pp. 115-137. (Ver, em Berose.fr, a rubrica de fontes secundárias do dossiê documental dedicado a Audrey Richards.)

[2Ndt: atual Zâmbia.

[3No âmbito do leitorado Smuts (Smuts readership).